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2020, um ano sem ponto final?

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2020, um ano sem ponto final?

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Reinventa-se aquela história de feliz natal e ano novo a cada quase 365 dias, bem ali nos soluços finais do ano em curso. Bendizemos a vida, corre-se para alguma missa, rezadeira, banho de folhas e — para os que podem — um retiro espiritual muito bem pago. Apenas uma constatação de alguém que se encostou na esquina e deu vazão à mania de reparar a vida alheia. E para 2020? Essa receita de alto astral valerá?

Quem for seguir o ritual de prevenção contra desgraças vindouras deve ser avisado de que é possível que 2020 fique na História como o ano que não terminou, algo que foi dito sobre 1968 (Zuenir Ventura), embora por outras razões, talvez nem tão diferentes das de agora.

São muitos os motivos para o término inacabado de 2020. São razões que oscilam no termômetro social, com predomínio de um estado febril na política. A pandemia destroçou calendários civis, jurídicos, religiosos e místicos. Disse ao Tempo, agora chega, descanse em paz, será comigo adiante, guarde seus segundos, minutos e horas em algum lugar, e se mande para outra esfera planetária. Aqui nunca mais! 

Além desse sacode-sacode no “Tempo Rei”, a pandemia segue viva, reconfigurada e programada para ter altos picos de agonia humana. Quem ainda não entendeu que as noções temporais de estações do ano — por mais largas que sejam—também foram suspensas, sairá bronzeado do verão diretamente para os leitos inexistentes de UTIs.  Querendo se despedir da estação praieira com uma geladíssima cerveja, poderá experimentar a frieza mortífera da pandemia.

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Há quem, podendo conduzir o Brasil para uma direção saudável, optou por dizer que não precisa ter pressa para que a vacina chegue do lado de cá. A morte, indomável como sempre, precisaria ser estimulada dessa forma?  

Para um ano que não terminará, é um pouco contraditório pensar em retrospectiva 2020. A morte se tornou o diário “prato feito” dos pobres. A pandemia reforçou o que já sabíamos, ainda que se finja desconhecer essa realidade, a de que os pobres são os corpos sacrificados para o galanteio neoliberal. Querem expulsar o Candomblé do campo sagrado.

Dizem que há um sacrifício desnecessário de animais. No entanto, esses mesmos eugenistas sociais são os que desperdiçam vidas alheias, com um estilo muito peculiar de extermínio social, cujas mãos ficam limpas sem precisar de álcool em gel. Essas vidas imoladas são, em regra, as negras vidas. 

No ponto de encontro mundial, as redes sociais, o racismo nunca foi debatido com tanto engajamento como se deu neste ano diferente. Todos/as concentrados na tela do celular, o debate se tornou fogo diário. Mas, quando consumado nas redes internautas, o racismo foi capaz de desativar os perfis virtuais de artistas famosos/as.

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Neste emocionalmente interminável período de pandemia, casais se separaram com mais frequência, tiveram que conviver com novas cláusulas de uma relação afetiva, que, pouco aquecida, parecia durar para sempre. Amor é coisa estranha. Houve quem se separou dizendo para o parceiro/a, eu te amo, te amo mesmo, só que …., como canta Cartola, “deixe-me ir/preciso andar/vou por aí a procurar/rir pra não chorar”.    

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Terapeutas e psiquiatras nunca foram tão necessários. A pandemia se tornou um pacote de doenças. Morreu de quê?  Foi covid? Morreu de pandemia: covid + diabetes + pressão alta malcuidada ou apenas de solidão extrema ou de insanidade forçada ou de câncer, esquecido/a por aí. Na pandemia, a morte reinventou seu cardápio.

Para alguns, a pandemia foi coisa boa, deu para concluir mestrado, doutorado com certa folga, trabalhar em casa, na boa, sem pressa para garantir a transa semanal, podendo ver um seriado, coisa simples, biritando um drink novo, artesanal, feito na cozinha gourmet reformada. Deu para terminar de ler aquele clássico da literatura, montar uma empresa de souvenirs virtuais. Houve sim quem lucrasse com a pandemia. O mercado imobiliário aqueceu. Muita gente tirou um dinheiro bom. Que fazer? É da vida “mermo”. 

Pânico mundial.  2020 é um ano que não terminou, principalmente porque não sabemos por quanto tempo durarão os estrondosos, e por vezes silenciosos, efeitos da pandemia. Haverá, isso é irrecusável, uma geração-pandemia, filhos/as que nasceram na pandemia, mas, sobretudo, crianças que não tiveram qualquer socialização, estão sendo educadas por desenhos animados, participam, constantemente, de conversas de adultos, têm vocabulário rebuscado, com pais orgulhosos dessa desenvoltura intelectual. No entanto, crianças-adulto com dificuldades seríssimas de distinguir os próprios sentimentos.      

O futuro não avisa sobre o que esperar dele. Por essa perspectiva, a pandemia continuará por longo tempo, talvez tenha outro rosto, cansa-se do nome … que nada, tudo é pandemia!  Chega disso! Temos essa capacidade de autoengano, é até necessária para sobreviver. No fundo, quando o coração estremecer, saberemos que ali, onde se diz que é estranho, há um efeito da pandemia até então desconhecido.

Uma frase me marcou neste infindável ano, uma pergunta dela que me acompanha há três anos de puro amor: “papai, quem desligou o sol?” Não sei … não sei…. não sei se respondo cantando Nelson Cavaquinho, “o sol há de brilhar mais uma vez/ a luz há de chegar aos corações/ do mal será queimada a semente/ o amor será eterno novamente” ou se fico com Drumond, “as guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda (…) a vida apenas, sem mistificação.”  Não sei … 


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