• 14 de dezembro de 2019

A arte de praticar a empatia na arena dos argumentos

 A arte de praticar a empatia na arena dos argumentos

A arte de praticar a empatia na arena dos argumentos

Já diria Luis Nassif: “de fato o júri é teatro” – expondo como tornou-se consueto comparar uma obra cinematográfica a um Tribunal de Júri. Todavia, não estava errado, porquanto não deixa de ser. Bravos gladiadores travam batalhas nas arenas dos fóruns, que ora comparo a mais famosa das arenas, o Coliseu de Roma, onde o combate entre gladiadores terminava apenas quando se atingia o resultado morte ou impossibilidade de dar continuidade à luta.

Diante nesse contexto, nas arenas, gladiadores lutavam entre si, utilizando armamentos como espadas, escudos, lanças, e ainda enfrentavam feras como leões, onças e outros animais selvagens. Tudo isso servia de entretenimento para os habitantes de Roma e das províncias.

No júri não há morte, ao menos entre os combatentes tribunos, mas certamente um deles sai severamente ferido, e por dias vai remoer os motivos que lhe lavaram a odiada derrota. Como no Coliseu, os tribunos fazem o possível e o impossível para ganhar a empatia do jurado, para que este veja a situação vivida por outra pessoa, além da sua própria situação.

A arte de praticar a empatia

Em Cartas de Guerra, filme de Ivo M. Ferreira, as vozes que realizam a leitura das cartas nos fazem sentir, de forma poética, o que o remetente do texto buscou expressar, nos levando num ato natural a ter empatia com o seu subscritor. Ao fundo uma imagem em preto e branco, que abrilhanta o filme, mas de forma coadjuvante com o sentimento que a leitura da carta expressa ao telespectador. 

Não é diferente no júri, em que o tribuno precisa levar o jurado daquele local seguro, iluminado, aconchegante, as angústias, medos, desejos e esperanças daquele que está sendo julgado. O tribuno não deve temer as imagens que serão exploradas pelo seu adverso, mas sim convidar o jurado para sair do campo do julgamento limitado do fórum, do volume frio do processo, ao local em que o acusado estava quando foi escolhido para enfrentar a maior das batalhas de sua vida: o conselho de sentença.

E aqui, nesse comparativo entre vida real e ficção, presente versus passado, que convido os leitores para refletirem sobre a necessidade de empatia com os jurados.

Aliás, a título de conhecimento, na psicologia e nas neurociências contemporâneas, a empatia é uma “espécie de inteligência emocional” e pode ser dividida em dois tipos: a cognitiva, relacionada com a capacidade de compreender a perspectiva psicológica das outras pessoas; e a afetiva, relacionada com a habilidade de experimentar reações emocionais por meio da observação da experiência alheia.

Infere-se, pois, que se espera do leitor que, ao finalizar este texto, meu primeiro neste canal de comunicação, entenda que um dos grandes segredos do júri, ao menos na minha singela percepção, é que os jurados possam sair do plano material do fórum, para o momento exato do fato que está sendo julgado, e lá, naquele contexto fático e muitas vezes nebuloso, possam entender o ponto de vista da defesa, sentindo materialmente a situação e a circunstância que sentia o réu, colocando-se, efetivamente, em seu lugar. A partir desse momento, estarão aptos para julgar.

Façam os jurados levantarem um formoso voo.

Até breve.


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Marcos Paulo Silva dos Santos