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A banalização da vida

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Por Vinicius Webber


Vivemos tempos líquidos, leves, como diria Bauman. No mundo líquido as relações sociais relutam em adquirir forma. A violência vem esvaindo toda possibilidade de uma vida digna. É comum não assistir mais aos jornais, porque estes só transmitem violência, guerras e mais guerras, e não há quem se agrade com a avassaladora violência do cotidiano pós-moderno.

O ser humano vem sendo apequenado em dignidade e se agigantando em maldade. Cada vez mais se percebe no olho e nas ações de um criminoso a falta de tolerância, empatia e esperança. Data vênia aos que pensam que o homem, muitas vezes menino, que delinque, mata, estupra ou rouba é um ser de outro planeta. Não! O infrator, criminoso, delinquente, na verdade é um ser humano como qualquer um que poderia estar lendo esta passagem.

Cria-se, hoje, o hábito de não sair mais de casa, mas, ainda sim, é possível que o perigo se esgueire pelas janelas gradeadas e pelas portas duplas de qualquer casa. Qualquer um pode ser surpreendido pela violência do próprio ente querido que dorme ao seu lado.

Não é de hoje que se atribui a favela, ao bairro pobre, “território sem lei e de pessoas ruins”, assim dito pelos mais abastados, que a culpa de toda violência existente tem sua nascente ali, no meio da vila, bairro humilde, etc,. Essa verdade já foi superada, a violência venceu a barreira da desigualdade, qualquer um pode ser vítima.

A constituição Federal de 1988, ei suprema, dispositivo regente da relação do homem com outros homens, elenca no seu primeiro artigo, como elemento basilar de todo sistema normativo jurídico do país, a dignidade da pessoa humana. Até mesmo os mais doutos no assunto por vezes não conseguem visualizar essa tal dignidade. Ora! Se existe uma norma impositiva que revela a proteção a uma vida digna, por que o Estado falha em proporcionar elementos essenciais que alcancem a dignidade? O que dirão as milhares de mulheres violentadas, estupradas, abusadas, das mais diversas formas pensáveis pelo homem delinquente, doente,criminoso? Essas que tiveram sua liberdade, dignidade e moral extirpadas pela banalização do ser, pela pífia capacidade do Estado, e do próprio homem em prover, ou fazer coexistir a tal dignidade.

Se a violência é contrária ao suporte axiológico maior, que embasa toda lei criada pelo homem para o homem em sua convivência social, por que a violência insiste em se alastrar? Por que a banalização da vida se torna cada dia mais forte?

Questionamentos como estes nos fazem pensar no por que de vivermos este cenário de incapacidade moral, ética, dominado pelo banal, fútil, torpe, violento, etc. O que leva o ser humano a cometer as piores atrocidades, muitas até inimagináveis, qual o fundamento dessa maldade?

A verdade é que os tempos líquidos ou pós-modernos, têm exalado banalidade, violência, tem tirado o sono dos sociólogos, antropólogos, filósofos, juristas de todo gênero e mais do que nunca do cidadão comum, vítima do mundo atual.

É necessário que se comece a olhar o outro pelos seus olhos, um criminoso, vira criminoso, por que em algum momento da vida decidiu pelo ilícito. Encarcerá-lo, aprisioná-lo, somente no intuito de excluí-lo do corpo social, não trará a resolução do problema. É mister que se comece a escavar, aprofundar, adentrar no meio social que desvirtuou o cidadão e o transformou em criminoso, é preciso modificar o meio, antes do indivíduo.

Um estupro não acontece sem razão, SE A VÍTIMA INSTIGOU OU NÃO, pouco importa, o que realmente deve ser levado em conta é que alguém teve sua liberdade e dignidade cerceada, arrancada, deturpada pelo estuprador!

É mister que a banalização da vida e o apequenamento do ser humano sejam veementemente combatidos, não pela interferência de um direito penal do inimigo, rigoroso em pena e castigo, vulgo punitivista, mas  sim por muitos olhares, muitos e distintos olhares. É de extrema urgência que se comece a escavar até as raízes do fato delitivo, é caso de máxima importância entender por que o ser humano ESTUPRA, MATA, ROUBA E ACHA GRAÇA!

É preciso que a dignidade prevista na Carta Maior seja efetivamente e urgentemente buscada. Do contrário, não haverá sistema penal e sistema carcerário que comporte a banalização da vida.


Vinicius Webber – estudante de direito da Faculdade Cenecista de Osório (FACOS-RS).

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