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A cultura da repetição: afinal, para que servem os trotes?

Canal Ciências Criminais

Por Rossana Brum Leques


Durante esta semana, acompanhei na mídia os famosos “trotes” nas faculdades mais tradicionais do país, como forma de “recepção” aos alunos calouros. Banho de lama, de tinta, de farinha, ovos ou vísceras, corte de cabelo, ter a roupa rasgada ou tirada, bebida, bebida e mais bebida (alcoólica, é claro)… Poderiam ser muitos os exemplos de “rituais” considerados comuns no ambiente universitário.

O tema me causa imenso incômodo, pois muitas vezes, a pretexto de marcar um momento tão importante na vida do estudante, acabamos perpetuando uma cultura que pouco ou nada agrega à vida acadêmica.

Sim. Porque integração é uma coisa, subserviência outra, bem diferente. Criar este clima “servil” na faculdade nada acrescenta. Afinal, ninguém quer formar alunos, pesquisadores e estudiosos condescendentes.

É evidente que participar de eventos da faculdade – o que inclui festas – faz parte da experiência de ser um universitário – já disse aqui, em uma coluna anterior, que considero inclusive uma questão importante para o desenvolvimento de network.

O problema é: o tal “ritual” de passagem costuma ser rodeado de violência, seja física ou moral. A humilhação, das mais diferentes formas, faz-se sempre presente. A coação, muitas vezes, também. O aluno novato se vê obrigado a participar de atos que não deseja. Pior. Ele silencia.

Penso em diferentes razões para o silêncio imperar – sim, são poucas as denúncias relativas ao assunto. Em primeiro lugar, o trote, de alguma forma, é um símbolo de status, não dá para negar. Outra questão importante: o limite, a identificação dos excessos nem sempre é facilmente perceptível. Há uma aceitabilidade de tais condutas – muitas vezes criminosas – dentro da faculdade.

Condutas criminosas? Exatamente. Constrangimento ilegal, ameaça, crimes contra a honra são apenas alguns exemplos de tipos penais que podem ser relacionados aos “trotes”. Relatos de estupros também são bastante comuns.

E nós seguimos dando continuidade a esta cultura. O debate nas faculdades ainda é pequeno. Não há o desenvolvimento de uma consciência sobre a questão. Os veteranos repetem os atos, refletindo pouco a respeito do tema – o que, convenhamos, combina muito pouco com o ambiente universitário.

Com poucas denúncias e quase nenhum envolvimento das faculdades na questão (que costumam se distanciar), a impunidade acaba prevalecendo. Seguimos repetindo, repetindo, repetindo…

Por quê? O que ganhamos com os tais rituais? Não sei. Honestamente, não vejo qualquer vantagem. O que deveria ser um momento de acolhimento e recepção torna-se matéria afeta ao direito penal, pois os excessos são comuns e, como dito acima, tolerados no meio acadêmico.

E já ainda estamos começando o ano letivo, eu proponho mais consciência, reflexão e debate sobre o tema.

Chega de repetição.

_Colunistas-Rossana

Autor
Advogada (SP) e Professora
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