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A história do Don Juan “bem dotado” que virou defunto

Por Jean de Menezes Severo 

Muitos leitores me perguntam se as histórias contadas em minha coluna foram reais. Pois bem, queridos amigos, todas estas narrativas são verídicas, principalmente em seus detalhes, sempre preservando-se, por óbvio, o nome das partes.

A narrativa de hoje é simplesmente sensacional. Vou relatar mais um processo em que atuou com maestria o criminalista Mathias Nagelstein que, após sua própria defesa e absolvição no plenário do júri, tornou-se um dos advogados mais requisitados do Rio Grande do Sul, jornada esta já contada neste Canal. A história, a princípio, parece ser engraçada e divertida, mas não se enganem: trata-se de mais uma tragédia humana.

No final dos anos setenta, em uma pacata cidade interiorana do Rio Grande do Sul, vivia nossa vítima, mais conhecida como Tibúrcio, contando com seus trinta anos de idade. Ele possuía excelente condição financeira, era um bon vivant, mas tinha um grave defeito: gostar de se meter com mulher casada.

Cidades do interior são uma beleza. Qualidade de vida sem igual, baixo índice de violência, contudo, possuem um grave problema assola: a fofoca!

E fofoca no interior se espalha mais que vídeo de sacanagem no Whatsapp hoje e um boato, uma fofoquinha de que a esposa do nosso réu, Euclides, estaria traindo-lhe com o boa pinta Tibúrcio, ceifou uma vida humana e quase terminou com outra. Mais uma vez, estamos diante de um crime passional.

Na realidade, nunca houve comprovação da traição da esposa de Euclides com Tibúrcio. Helena sempre negou com veemência essas acusações – de que era adúltera -, porém, por se tratar de uma bela mulher, despertava a inveja das demais, menos providas de dotes e encantos na sua cidade.

Tudo começou em um tradicional baile que sempre ocorria em um clube da cidade. A população em peso do município se encontrava no evento e, como é comum ocorrer em situações como essa, onde se somam bebida, música, um olhar mal interpretado, um sorriso, mesmo que sem malícia nos olhos de pessoas maldosas, pode ter certeza que nasceu uma história de traição.

E foi exatamente isso que aconteceu. Tibúrcio sorriu e cumprimentou a bela Helena naquela noite de festa na cidade, logo, aquele sorriso transformou-se em uma “cantada” quando chegaram aos ouvidos de Euclides que, enfurecido, partiu para cima de Tibúrcio. Ambos brigaram violentamente no baile e uma inimizade mortal nasceu naquela madrugada.

Daquele dia em diante, não se falava em outra coisa na cidade. Euclides começava a sofrer o bullying de ser o corno daquela localidade.

O boato só tomava força. Então, Euclides decidiu aplicar uma “surra” em Tibúrcio, daquelas de se “arrancar o couro fora”. Porém, um amigo, se é que dá para chamar de amigo um sujeito que não impede o outro de fazer uma idiotice dessas, avisou Euclides: Olha, o Tibúrcio anda sempre armado. Te liga, homem! E vai calçado com uma arma.

Infelizmente, Euclides ouviu os conselhos do amigo. Além do relho trançado, levou na cinta seu velho trinta e oito e de tocaia ficou por horas esperando o momento de aplicar aquela surra em Tibúrcio. Durante essas terríveis horas de espera, a imagem da esposa o traindo, os comentários de que era corno na cidade cegaram aquele pobre homem. Aquele sofrimento o tirou fora de si e Euclides teve a falsa ilusão de que, aplicando um corretivo em seu desafeto, seu sofrimento iria cessar.

Euclides estava de tocaia atrás de um matagal. Já passava da meia-noite. Ao perceber que Tibúrcio abriu a porta de entrada de sua residência, foi em direção ao seu desafeto. No entanto, Euclides veio a tropeçar em alguma coisa e chamou a atenção de Tibúrcio que, após perceber a presença dele em sua propriedade, logo perguntou: O que tu queres aqui cara? Nesse exato momento, Euclides, caído, percebeu que Tibúrcio possuía um volume dentro das calças e, com a certeza que se tratava de uma arma, sem hesitar, atirou por duas vezes em seu desafeto, que caiu morto junto ao solo.

Euclides, após o crime, foi direto à casa de seu advogado, Dr. Mathias, e confidencia ao advogado que acabara de matar um homem. Porém, alegou que agiu em legitima defesa, eis que a vítima estaria armada.  De imediato, o Dr. Mathias orienta Euclides para que saísse da cidade por alguns dias, pois a vítima era muito influente na cidade e represálias poderia sofrer. Ainda na madrugada, o Dr. Mathias entrou em contato com o Delegado da cidade, de modo a informar o ocorrido para que a autoridade se dirigisse ao local para efetuar as diligências necessárias, tal como a preservação do local e apreensão da “arma” da vítima.

Na primeira hora do dia seguinte, o Dr. Mathias dirigiu-se até a delegacia para obter mais informações do acontecido. Realmente, Tibúrcio estava morto. Dois tiros o mataram, porém, a vítima não portava arma nenhuma naquela noite. No entanto, Mathias insistiu junto ao delegado que seu cliente tinha certeza absoluta que Tibúrcio estava armado, tamanho era o volume em seu calção.

Então, o Delegado mostrou fotos do corpo da vitima para o advogado, oportunidade em que a “arma” fora revelada. Na verdade, a “arma” encontrava-se no meio das pernas do falecido, devidamente fotografada e analisada pelos médicos legista. A morte ocorrera porque, como já possível se deduzir pelo próprio título desta coluna, a vítima era bem deveras dotada, bem acima dos padrões normais, não sendo preciso se focar nos detalhes.

Naquela noite, Euclides pensou, sem dúvida, que o volume nas calças de Tibúrcio era uma arma, quando, na verdade, era seu órgão sexual.

Euclides foi submetido a júri popular. Sete jurados decidiriam sua vida naquele dia. A tese defensiva utilizada fora da legítima defesa putativa (art. 25, CP), quando o autor acredita que sofrerá uma injusta e iminente agressão. Ora, Tibúrcio estava “armado”, como pensava Euclides.

O Dr. Mathias fez o levantamento do local do crime, com o atento olhar de defensor. Enfatizou aos jurados que a distância em que se encontravam a vítima e acusado, bem como a luminosidade do local do crime, somada ao volume do membro sexual da vitima em suas vestes, poderia, sim, fazer com que Euclides tivesse a certeza que Tibúrcio estava armado e, por conseguinte, que sofreria disparos de sua suposta arma de fogo.

O conselho de sentença acatou a tese defensiva, tendo Euclides sido absolvido por 4×3. Fora um júri dificílimo. Uma vida foi perdida devido a boatos e fofocas. Euclides, logo após a absolvição, mudou-se de estado com Helena e os filhos ainda pequenos. Naquela cidade, ele não teria mais sossego; estava “estigmatizado”, “etiquetado” como o corno que nunca fora e, nem mesmo com a morte do suposto amante da esposa, Euclides encontrou paz naquela cidade.

Um simples mal entendido, uma fofoca e um fato curiosamente inusitado estragaram, para sempre, a vida de algumas pessoas. História triste, verídica; mais uma tragédia da vida real.

JeanSevero

Autor

Jean Severo

Mestre em Ciências Criminais. Professor de Direito. Advogado.
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