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A ingenuidade das certezas nas “Verdades Científicas”

Por Yuri Felix

“Las verdades científicas son como el amor: eternas mientras duran”.

JOAQUÍN SABINA

Inúmeras vezes, principalmente quando se deseja expressar um argumento de autoridade que esgote o debate e seja absorvido como valor irrefutável o argumento coringa é “isso é científico”, “os cientistas já demonstraram”, “não resta dúvida na ciência” ou outro ainda melhor “a comunidade científica já pacificou este tema”, enfim, quando o indivíduo deseja fazer com que a sua opinião seja inquebrantável ele invariavelmente usa a expressão “é científico”.

Mas aí eu me pergunto, qual tamanha certeza que uma verdade de tubo de ensaio pode nos dar? A rigorosidade científica, a metodologia, a racionalidade demonstrável por meio da técnica possui a capacidade de nos fornecer respostas objetivas e concretas ou estaríamos solicitando que uma formiga conduzisse uma manada de rinocerontes? E com isso é inevitável refletir e concluir que a nossa forma de aprender, e ensinar, deita raízes muito fortes no método cartesiano de observação dos fenômenos, ainda mais no momento de profunda crise da filosofia crítica, da política, das instituições, da democracia representativa, neste recorte histórico é perfeitamente entendível que o homem busque as “certezas”, pseudo-axiomas capazes de pelos menos em tese apaziguar suas angústias e incertezas na violência do mundo globalizado da informação e risco.

Não é por caso meus amigos que nesta quadra histórica os discursos tenham se reduzido cada vez mais e o campo de debate esteja ainda mais diminuto, sobretudo quando a questão envolve criminalidade, violência e controle. Como combater esta nova forma de criminalidade, cada vez mais rápida e ousada? As teses são variadas, desde as mais esdrúxulas e “convencionais” digamos assim, até as mais sofisticadas e dentre estas se destacam com muita força e “autoridade científica”, a investigação do DNA e os estudos de neurociência, prometendo ambas serem a “Meca” do desvelamento, fazendo com que os estudiosos e o senso comum teórico, passem a ter respostas bem convincentes, racionalizadas e cientificamente verdadeiras, a base de formulário com toda a assepsia de um laboratório da mais alta tecnologia, afinal se o homem foi capaz de ir à Lua, descobrir o sequenciamento de DNA ou a região do Córtex cerebral onde resida a causa da criminalidade é “café pequeno”! Enfim, o senso comum teórico não consegue dormir com a dúvida, o cientista é tão “Deus” que precisa, e segundo ele próprio está autorizado, a investigar e descobrir, por intermédio da ciência, a verdade.

Mas amigos, por mais aflitivo que seja este é o mundo das incertezas, e não é possível prever os acontecimentos futuros do mundo da velocidade com a rigidez newtoniana com que se observa a órbita dos planetas. Como bem sublinhou o esclarecido Prêmio Nobel Max Born, “o acaso é um conceito mais fundamental que a causalidade”[1], ou seja, não se pode acreditar em uma certeza estanque, absoluta, cientificamente verdadeira e reconfortante ao ponto que todos podem ter a certeza de que os problemas da criminalidade serão resolvidos de tal forma que com uma intervenção cirúrgica cerebral ou uma simples manipulação genética todos seremos felizes para sempre em uma sociedade ordeira, sadia e solidária, esqueça isso, esqueça esta promessa da “verdade científica”!! A formiga não vai conduzir a manada.

Não adianta, problemas complexos respostas ainda mais complexas e, além disso, é premissa fundamental nesta reflexão toda a construção histórica dos direitos e garantias fundamentais de cada indivíduo pois, no atual estágio de desenvolvimento civilizatório, não é autorizado compactuar com “ingênuas” ou “maliciosas” tentativas de busca de uma “ortopedia” do indivíduo ou a correção e aperfeiçoamento de seres “biologicamente inaptos”[2].

Com efeito, no atual estágio de desenvolvimento científico onde o conhecimento construído nasce olhando para o retrovisor e, consequentemente para morrer, pode-se dizer que “somente há uma verdade científica até que outra venha a ser descoberta para contradizer a anterior”[3], pelo menos isso, TALVEZ, seja uma certeza!  

__________               

[1] MLODINOW, Leonard. O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas. Trad. Diego Alfaro. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 248-251.

[2] ESPOSITO, Roberto. Bios: biopolítica e filosofia. Trad. M. Freitas da Costa. Lisboa: Edições 70, 2010, p. 183.

[3] THUMS, Gilberto. Sistemas processuais penais: tempo, tecnologia, dromologia e garantismo. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006, p. 21.

_Colunistas-YuriFelix

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