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A lista da vida

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A lista da vida

Em 1982, o escritor australiano Thomas Keneally publicou aquele que seria considerado um dos mais completos livros sobre o Holocausto, inspirados no relato de um de seus sobreviventes.

Poldek Pfefferberg foi responsável a levar a história ao escritor, que com maestria estendeu ao mundo conhecimento acerca dos fatos ocorridos após a segregação dos guetos e a consequente divisão do povo judeu nos campos de concentração, espalhados pela Alemanha.

Por tratar-se de um romancista, seria sensato esperar extremos de emoção e dor, angustias e aflição. Entretanto, o escrito de Thomas ultrapassou sentidos os quais se encontram em livros de drama e de demonstração da dor alheia, pois o que continha de especial iniciou um novo arquétipo na narração literária que se conhece por romance; pairava no ar algo inaudito.

Tal qual a maldade humana, o assombroso relato demonstrou que se pode sempre encontrar o pior da humanidade quando há hesitação em reconhecer o outro humano a frente.

A lista da vida

Pfefferberg trouxe detalhes e, mais que isso, demonstrou personagens reais daquela vida que sobrevivera graças ao altruísmo de alguns.

Por esse relato se exalta a personalidade e vida de Oskar Schindler, como nunca antes se ouvira falar.

Também foi por eles que Steven Spielberg filmou e lançou em 1993 o épico A lista de Schindler, talvez um dos mais importantes e completos filmes-documentários acerca do ocorrido em nossa época.

E não se trata apenas de demonstrar como um membro do partido nazista, carreado por riquezas, facilidades e poder transmuta sua vida com o passar dos tempos e se transforma no responsável pela sobrevivência de mais de 1200 pessoas caçadas pelo racismo e pelo ódio instaurado.

Trata-se também em excelente importância, por diversificar os meios com os quais se conta uma história, e, por segundo, identificar os personagens envolvidos na atrocidade de setenta e cinco anos atrás. Todos estão condensados no conto de Thomas, que se dedicou e, em pouco tempo após ter conhecido Pfefferberg, lançou sua obra; contendo os nomes de famílias, pessoas e políticos que talvez ficassem desaparecidos na história, para sempre.

Voltando ao filme de Spielberg, inspirado na obra, ainda há mais uma homenagem velada, que vale sempre a lembrança.

Em meio aos ataques contra as pessoas judias nos guetos, nota-se, de repente, uma cor vermelha entre o preto e branco empregado no filme.

A coloração escolhida sugeria além da dor, a similaridade aos documentários da época que teriam sido assistidos e estudados pelo diretor, antes de iniciar as filmagens.

A cor que aparece é de um casaco usado por uma menina, aparentemente com quatro anos de idade, sendo carregada junto com a multidão.

Em um dos relatos que ouviu de um dos sobreviventes do campo de concentração de Paslow, Zelig Burkhut, Spielberg teve conhecimento de que uma menina, com a mesma idade e casaco vermelho, havia sido assassinada com um tiro à queima roupa em frente do sobrevivente relator dos abusos. Segundo Burkhut,

essa é uma imagem que jamais saí da cabeça.

Por outro lado, havia um relato de que havia de fato uma menina com essa descrição, mas que teria sobrevivido aos atentados e às atrocidades.

Roma Ligocka, escritora, estilista e pintora polonesa, nascida em uma família judia, usava seu casaco vermelho, aos quatro anos de idade, quando em meio ao batalhão de soldados perdeu-se de todos que conhecia, rumando com a multidão fustigada por muitos chutes e xingamentos.

Somente ela de sua família sobreviveu, vindo a escrever e lançar em 2000, A garota do casaco vermelho. Segundo a escritora, os detalhes e a própria película de Spielberg a encorajaram a tocar mais uma vez neste assunto, extremamente necessário e urgente.

Com suas lembranças e os relatos de outros sobreviventes, conta, pela primeira vez no novo século, como um mal tão infame conseguiu atacar os corações dos homens e dominar sua razão.

Nesse sentido, Hannah ARENDT (A Condição humana, 1958; Eichmann em Jerusalém, 1963) e ADORNO (Minima Moralia, de 1951) demonstraram como o essencial e necessário para a sobrevivência de um povo pode ser transformado, remodelado e, ainda, deformado.

Entretanto, no filme de Spielberg, com as participações brilhantes de Liam Neeson, Ben Kingsley e Ralph Fiennes, a cor vermelha muda a vida de Schindler, que considerou, a partir de sua passagem, que a vida nunca poderia ser aviltada e vulgarizada.

Mas o certo é que, para ele, ela nunca seria abandonada.


A lista da vida.

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Autor

Redação

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