• 9 de agosto de 2020

A mesma pessoa é presa todos os dias: reflexão sobre a atividade policial

 A mesma pessoa é presa todos os dias: reflexão sobre a atividade policial

A mesma pessoa é presa todos os dias: reflexão sobre a atividade policial

Após completar sete anos como Delegado de Polícia, me pus a pensar e a fazer uma reflexão sobe o meu trabalho, chegando a uma conclusão curiosa: faz sete anos que estou prendendo a mesma pessoa!

Sim, pois é, há 84 meses eu prendo ela quase todos os dias.

Quem é esse infrator contumaz?

Ele tem entre 18 e 28 anos, sua cor é parda (muitas vezes negra), não concluiu o ensino fundamental, é usuário de drogas, não possui parentes próximos a quem possa ser informada sua prisão, responde por diversos apelidos (neguinho, preto, negão, buiú, ceará, baiano…).

Subentende-se que não se trata da mesma pessoa, não é? A verdade é que faz sete anos que são trazidas à Delegacia apenas pessoas que se encaixem nessas características.
Me ponho a pensar novamente: qual a razão disso? Por que essa seleção? Chego a uma conclusão: porque nosso sistema foi desenhado para isso. Explico: não é que o pobre/negro não comete crime, ele comete sim e deve ser punido, mas somente ele tem sido o destinatário da lei penal, pois não possui advogado, não tem instrução para reclamar seus direitos e a justiça não o ouve.

A polícia se acostumou a fazer essa seleção, afinal somos tentados a sempre ir pelo lado do mais fácil, do mais tranquilo, do que possa dar menos “bronca”.
Prender rico, classe média, ligeiramente instruído, dá muito trabalho. Os advogados vão chiar, a chance de dar errado é grande (muitas vezes o Estado não dá o amparo ao policial que se aventura nesse tipo de prisão), fora a mídia que pode vir a transformar o policial em um vilão (não são raros os figurões por trás das páginas dos jornais).

Me parece, muitas vezes, que tudo foi construído desta forma de propósito. Ponha-se a pensar, não será que quem detém a riqueza manipula o Estado? Não será que o Estado então passa a criar mecanismos de manutenção das riquezas dos poucos?

Não parece então que o Estado cria dificuldades para a criminalização do rico e facilidades para a do pobre? Será então que a conclusão é de que todos nós, que trabalhamos na área penal, somos meros peões nesse jogo de dominação? Será que a missão verdadeira do policial civil é investigar o pobre e mantê-lo na cadeia, garantindo assim o sono dos ricos?

Acredito que estamos sendo levados desta forma há anos e anos. Porém tudo tem sua hora de mudar.

Policiais, militares, civis, rodoviários, entre outros, façamos um juízo crítico acerca dessas questões. Não nos deixemos levar pelo mais fácil, pelo simplório. Ao prender um pobre a você são concedidas congratulações falsas. Você prende, expõe a cara do caboclo na mídia, espinafra com ele no seu relatório, ninguém contesta o que diz, e a população lhe aplaude. Sua missão não é essa, sua missão é evitar/investigar todo tipo de crime e não somente os fáceis.

Vamos acordar, policiais. Vamos entender as forças que permeiam nossa profissão e vamos fazer uma polícia realmente democrática.


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Bruno Giovannini de Paulo