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A mesma pessoa é presa todos os dias: reflexão sobre a atividade policial

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A mesma pessoa é presa todos os dias: reflexão sobre a atividade policial

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Após completar sete anos como Delegado de Polícia, me pus a pensar e a fazer uma reflexão sobe o meu trabalho, chegando a uma conclusão curiosa: faz sete anos que estou prendendo a mesma pessoa!

Sim, pois é, há 84 meses eu prendo ela quase todos os dias.

Quem é esse infrator contumaz?

Ele tem entre 18 e 28 anos, sua cor é parda (muitas vezes negra), não concluiu o ensino fundamental, é usuário de drogas, não possui parentes próximos a quem possa ser informada sua prisão, responde por diversos apelidos (neguinho, preto, negão, buiú, ceará, baiano…).

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Subentende-se que não se trata da mesma pessoa, não é? A verdade é que faz sete anos que são trazidas à Delegacia apenas pessoas que se encaixem nessas características.
Me ponho a pensar novamente: qual a razão disso? Por que essa seleção? Chego a uma conclusão: porque nosso sistema foi desenhado para isso. Explico: não é que o pobre/negro não comete crime, ele comete sim e deve ser punido, mas somente ele tem sido o destinatário da lei penal, pois não possui advogado, não tem instrução para reclamar seus direitos e a justiça não o ouve.

A polícia se acostumou a fazer essa seleção, afinal somos tentados a sempre ir pelo lado do mais fácil, do mais tranquilo, do que possa dar menos “bronca”.
Prender rico, classe média, ligeiramente instruído, dá muito trabalho. Os advogados vão chiar, a chance de dar errado é grande (muitas vezes o Estado não dá o amparo ao policial que se aventura nesse tipo de prisão), fora a mídia que pode vir a transformar o policial em um vilão (não são raros os figurões por trás das páginas dos jornais).

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Me parece, muitas vezes, que tudo foi construído desta forma de propósito. Ponha-se a pensar, não será que quem detém a riqueza manipula o Estado? Não será que o Estado então passa a criar mecanismos de manutenção das riquezas dos poucos?

Não parece então que o Estado cria dificuldades para a criminalização do rico e facilidades para a do pobre? Será então que a conclusão é de que todos nós, que trabalhamos na área penal, somos meros peões nesse jogo de dominação? Será que a missão verdadeira do policial civil é investigar o pobre e mantê-lo na cadeia, garantindo assim o sono dos ricos?

Acredito que estamos sendo levados desta forma há anos e anos. Porém tudo tem sua hora de mudar.

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Policiais, militares, civis, rodoviários, entre outros, façamos um juízo crítico acerca dessas questões. Não nos deixemos levar pelo mais fácil, pelo simplório. Ao prender um pobre a você são concedidas congratulações falsas. Você prende, expõe a cara do caboclo na mídia, espinafra com ele no seu relatório, ninguém contesta o que diz, e a população lhe aplaude. Sua missão não é essa, sua missão é evitar/investigar todo tipo de crime e não somente os fáceis.

Vamos acordar, policiais. Vamos entender as forças que permeiam nossa profissão e vamos fazer uma polícia realmente democrática.


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