• 9 de agosto de 2020

A origem de Thanos, o titã louco: Thomas Malthus

 A origem de Thanos, o titã louco: Thomas Malthus

A origem de Thanos, o titã louco: Thomas Malthus

O início da Era Industrial foi pautado por traumas que desafiavam a pretensa evolução aos moldes de revolta, transformando a sociedade inglesa em um barril de pólvoras, por volta de 1750/1760. 

Tanto o medo de ficar sem trabalho quanto as mudanças sociais que trariam as novas tecnologias anunciaram um novo desafio. E não apenas os revolucionários trabalhadores, que quebraram o novo maquinário do empresário, mas também o pequeno comerciante que não aceitava a expansão que se propunha com a modernização.

Para este, a vida provinciana e restrita já lhe valia, pois juntava suas riquezas em sua vila e não necessitava de mudanças. Por isso, a expansão do Ludismo se deu também através do financiamento dos donos de pequenas fabricas e comercio, que temiam o que vinha pela frente (HOBSBAWM, Os trabalhadores).

Nessa época, surgia um pensador, com uma teoria influente. 

A ideia malthusiana atravessou eras e serviu para muitas das teorias utilizadas por alguns pensadores e economistas de todas as épocas, até os dias de hoje.

Thomas Malthus (1766-1834) viveu em plena revolução industrial, que transformava a Inglaterra. Seus trabalhos se deram a partir de sua criação denominada “demografia”. Essa entendia que a população crescia de forma geométrica e desordenada, enquanto os recursos naturais, progressivamente, eram usufruídos sem uma expansão apropriada. 

Assim a fome seria única alternativa, se as coisas se mantivessem desse jeito. 

Malthus não considerou, em seu tempo, a possibilidade que as novas tecnologias (que dava os primeiros passos) poderiam trazer a multiplicação da produção dos alimentos; tanto que a Inglaterra foi o primeiro país a superar a fome de sua população, a partir do exponencial crescimento da produção alimentícia. 

Por mais criticado que fosse, Malthus criou, a partir de seu livro “Ensaio sobre o princípio de população e seus efeitos sobre o aperfeiçoamento futuro da sociedade”, de 1798, a conhecida “armadilha malthusiana”, onde o crescimento populacional seria invariavelmente diverso (menor) ao avanço dos recursos naturais do planeta.

Essa ideia inspirou governos como a China, na sua “Política do filho único” em meados de 1970, abolida recentemente. 

Também inspirou o neodarwinismo, quando apenas os melhores deveriam sobreviver, a partir da ajuda governamental, na eterna distinção entre ricos e pobres, os descartáveis e os não descartáveis.

Esse exemplo vem de 1977, quando a fome aniquilou milhões de habitantes na Índia britânica. O vice-rei Robert Litton teria citado o pensamento malthusiano ao explicar os motivos que fizeram a ajuda britânica chegar apenas ao lado inglês do continente. Segundo ele:

A população indiana possui de fato uma tendência de crescer mais rápido do que a comida que brota do chão”.

Dessa forma, a ajuda viria para alguns e não para outros, mas definida por uma filosofia baseada no mérito de cada um dos grupos, e também, em sua descartabilidade. 

Daí surgiu também a ideia da eugenia, praticada pelos nazistas durante a Segunda Guerra. A ideia de Hitler em deixar o povo judeu morrer de fome nos guetos, a partir de que os melhores alimentos e riquezas deveriam ser distribuídos ao povo alemão, retornaria o pensamento da melhor população, que deveria receber os bons quinhões do governo.

Para resolver esse problema de maneira mais “justa” surgiu, em 1973, criado por Jim Starlin e assimilado por Stan Lee, o vilão Thanos.

O temido titã louco, filho de Mentor e irmão de Eros, conseguiu conquistar o tão almejado trono de Titã e espalhar pelo Universo suas maquiavélicas concepções.

No filme Vingadores: Guerra Infinita (2018), Thanos propõe a destruição de metade dos seres vivos no Universo inteiro, o que poderia ser feito ao possuir todas as joias do infinito.

Mas antes disso, Thanos já invadia planetas, matando metade de sua população, por intermédio da aleatoriedade. Segundo ele, a escolha entre um e outro lado, esquerda ou direita, seria definidor entre vida e morte. Assim, seus soldados dizimavam um dos lados, deixando vivos os seres do outro lado. 

Para definir seu senso de justiça, Thanos precisava do poder das joias, que traziam a possibilidade de, “sem dor”, cessar metade da vida do Universo inteiro, da forma mais aleatória possível.

Pode-se afirmar o pensamento malthusiano do titã louco em sua missão de trazer a “paz” para o sistema. 

Por mais impertinente que seja, a teoria de Malthus, que a princípio tratava unicamente do crescimento populacional e que defendia que guerras e pandemias seriam positivas, pois eram capazes de controlar o crescimento populacional dos menos afortunados, serviu para estudos econômicos influentes.

Um deles veio de Voltaire, quando afirmava que, em virtude desse pensamento, somente a ciência e o Estado forte juntamente com suas instituições sociais, seriam capazes de uma vida plena e fortalecida de seu povo, que nunca poderia escolher entre ricos e pobres.

Outro pensamento serviu para a economia, no Neomalthusianismo do século XX, que considera os estudos da área demográfica e sua recuperação frente às calamidades e detrações econômicas. Aqui intenta tanto solução em tempos difíceis, quanto prever a chegada desses dias desafortunados.

Para Thanos, apenas havia uma solução. Sem remorso, sem dor ou angústia. Da mesma forma, sem prisões ou escolhas. A ação da aleatoriedade seria seu discurso, em oposição aos melhores ou aos merecedores, somente o casual e o imprevisto, que sobrevêm a todos; algum dia.

De qualquer forma, essa decisão seria tomada por uma pessoa, o próprio Thanos, ou Hitler, ou até mesmo Robert Litton (o vice-rei inglês da Índia). Será que uma pessoa, por mais poderosa que seja, poderia decidir a morte de tantos, mesmo acreditando em um bem maior? E mais, mesmo fazendo, de fato, hipoteticamente; o bem maior?


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Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.