• 30 de outubro de 2020

A Revolução dos Bichos e a (re)legitimação da autoridade

 A Revolução dos Bichos e a (re)legitimação da autoridade

A Revolução dos Bichos e a (re)legitimação da autoridade

Eric Arthur Blair (1903-1950), mais conhecido pelo seu pseudônimo George Orwell, foi um escritor, jornalista e pensador nascido na Índia Britânica. Foi classificado em segundo lugar pelo jornal The Times na lista dos “50 maiores escritores britânicos desde 1945”. Participou da luta na Guerra Civil Espanhola ao lado de revolucionários contra Francisco Franco (aliado dos totalitários fascistas Adolf Hitler e Benito Mussolini).

Entre suas maiores obras, destacam-se notadamente “1984” (romance distópico que se passa em um contexto ultra-autoritário), “A Revolução dos Bichos” – que será objeto de análise no presente escrito – e “Homage to Catalonia”, onde relata sua experiência no conflito acima mencionado.

A Revolução dos Bichos se apresenta como uma clara crítica ao socialismo soviético. É possível perceber o modo com o qual a partir de uma revolução popular, a dominação de classes volta aos poucos a ser uma realidade. Uma realidade ainda pior do que a anterior.

Em última análise, o que ocorre é apenas a mudança de poder de uma autoridade para a outra. A bota opressora e fomentadora de desigualdades continua (mais) firme (ainda) na garganta daqueles que estão em situação de necessidade de obediência – aqueles que são tidos como inferiores em razão de sua raça, prestígio e dotes intelectuais ou físicos.

“Sempre os homens que recorreram ao sufrágio popular para chegar ao poder enganaram as massas pelas pretensas declarações de princípios que, no fundo, não foram nada mais que declarações de promessas!” (PROUDHON, 1848, p.1). Com efeito, foi através de promessas de melhoria diante de uma situação onde a população já se via oprimida que os novos opressores tomaram para si o poder.

Convencido da necessidade de destruição do mito soviético para que se pudesse reviver o movimento socialista, Orwell possuía ambição declarada de “analisar a teoria de Marx do ponto de vista dos animais” (ORWELL, 2007, p.49).

A stalinização ocorrida na experiência soviética trouxe grande miséria para a população – há de se falar na coletivização da fome. O regime totalitário e ditatorial se firmou no poder com base justamente em uma promessa de vida mais justa e igualitária para todos. A sátira de Orwell retrata com precisão e vivacidade a mecânica de como um processo desta espécie ocorre.

A história se passa na fazenda do Sr. Jones, onde os bichos têm sua força de trabalho usurpada. Dentre os animais, havia a figura – inspirada em Marx – do velho e sábio porco Major, respeitado por seus pares e que antes de sua morte conclamou todos a se insurgir contra os opressores humanos:

Então, camaradas, qual é a natureza desta nossa vida? Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta. Nascemos, recebemos o mínimo alimento necessário para continuar respirando, e os que podem trabalhar são exigidos até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade […] (ORWELL, 2007, pp.6-7).

Após o seu falecimento, uma classe (intelectual) formada por porcos avoca para si a missão de dar continuidade ao pensamento do velho Major, estabelecendo-se assim uma nova modalidade de governo.

A nova dinâmica se fez possível mediante a aliança entre os porcos e a classe do proletariado (caracterizada nas figuras dos fortes cavalos Sansão e Quitéria), bem como a classe média (vacas, ovelhas, galinhas, etc.). Indiferentes ao novo sistema, apresentam-se o corvo Moisés (que estampa a classe religiosa, prometendo uma vida melhor após a morte) e a égua branca Mimosa (que faz equivalência à classe burguesa), além do burro Benjamim, que sempre demonstrou possuir muito conhecimento e experiência de vida, porém fazia empresa de não expor suas opiniões ou intervir de qualquer maneira nos assuntos da fazenda.

Os paralelos entre a sátira orwelliana e a história da Revolução Russa evidenciam-se no decorrer da obra, onde é possível ver, após a tomada e consolidação do poder pelos porcos, o gradual aumento de regalias para os mesmos, acarretando em uma desigualdade cada vez maior entre os bichos. Fatores como a reescritura da história de acordo com a vontade do governo, populismo exacerbado, julgamentos transformados em espetáculos, execuções em massa, disputas de poder, coações e intimidações através da força, tudo isso remete a fatos ocorridos na experiência do socialismo soviético.

Prosseguindo na análise dos paralelos, pode-se atribuir aos porcos a figura real na qual foram baseados. Napoleão, que mediante um golpe de Estado toma o poder para si, transformando-se em um ditador autocrata, teria sido baseado em Stalin. Bola de Neve (baseado em Trótski), que governava em conjunto com Napoleão, foi designado por este como inimigo dos bichos e o culpado por todos os problemas que porventura aparecessem. Quiçá injustiçado, pois demonstrava valentia e boa-fé para liderar os animais, caiu em desgraça e foi exilado por razões políticas que favoreciam o governante apoderado.

Mediante enganação tão constante quanto o aumento de seus privilégios, a classe governante, que pregava sempre um discurso de igualdade combinado com o terror generalizado advindo da possível volta do domínio dos seres humanos (os porcos pretendiam se fazer acreditar que eram os únicos capazes de impedir os opressores de voltar ao poder), a autoridade era sempre (re)alimentada e (re)legitimada, de maneira que os animais não tinham condições materiais ou intelectuais para se revoltar contra o novo regime, que passou a se manter através da força bruta (representada pelos ferozes cães criados por Napoleão).

Outro ponto a ser destacado se dá no trágico fim encontrado pelo vigoroso e incansável trabalhador Sansão, que tinha por lema de vida sempre “trabalhar mais” (esta era sua resposta e ação diante de todos os problemas). Faleceu antes de conseguir se aposentar, em razão do esforço excessivo que empregava em seu labor. Napoleão afirmou que o cavalo seria levado para o médico no momento em que sofreu um mal súbito na fazenda, porém quem foi chamado de fato era o matadouro de cavalos – fato este percebido somente pelo burro Benjamim, único animal que sabia ler além dos porcos. Coincidentemente, naquela noite, os porcos tiveram dinheiro para tomar uísque…

No final do conto, os animais observam, no frio e excluídos do lado de fora da casa, o conluio entre os porcos e os demais seres humanos (grandes opressores de outrora e contra quem a revolução dos bichos foi baseada em seu início), não sendo possível mais fazer a distinção de quem era porco e quem era humano.

Existe uma interpretação no sentido de que isso significaria uma equivalência moral entre o capitalismo e o comunismo, muito embora o autor tenha se manifestado no sentido de que se trata de uma referência sarcástica ao encontro de Teerã, reunindo Churchill, Roosevelt e Stalin (ORWELL, 2007, p.51).

A estrutura de pensamento continuamente reproduz de forma velada as mesmas premissas autoritárias que demarcam nossas práticas punitivistas no últimos séculos e que continuamente são reiteradas, garantindo a sobrevivência de traços medievais, travestidos de cientificidade: em última análise, o que está em jogo é a legitimação discursiva da autoridade, que ainda remete aos parâmetros das monarquias absolutistas ocidentais. (ROSA; KHALED Jr., 2015, p.19).

A lição atemporal que podemos tirar da sátira proposta na obra é de que não se pode renunciar a liberdade em favor de promessas de segurança, uma vez que invariavelmente há de se acabar sem qualquer uma das duas. O discurso populista, caracterizado pela visão maniqueísta do mundo – que possui sempre um inimigo delimitado, no qual é depositada toda a culpa das mazelas sociais, bem como em vieses autoritários e repressivos – é utilizado corriqueiramente por governantes ambiciosos que pretendem satisfazer seus próprios interesses.

Destarte, é imprescindível que se tenha muita cautela, especialmente quando diante daqueles que prometem todas as maravilhas do mundo e se utilizam de signos abstratos como segurança, família, Deus, etc., com o intuito de causar ressonância e angariar popularidade, garantindo assim sua parcela de poder. Não podemos permitir a regressão à barbárie. As movimentações em favor do totalitarismo devem ser combatidas com pujança, especialmente no contexto atual, onde os germes do nazifascismo vêm aparecendo cada vez mais frequentemente. 


REFERÊNCIAS

ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. Tradução de Heitor Aquino Ferreira. São Paulo: Editora Schwartz LTDA., 2007.

PROUDHON, Pierre-Joseph. Manifesto Eleitoral do Povo (Retirado de Journal du Peuple, 8-15 de novembro de 1848). Traduzido e disponibilizado em mídia virtual por: Biblioteca Pública Independente (BPI).

ROSA, Alexandre Morais da.; KHALED Jr., Salah H. Neopenalismo e constrangimentos democráticos. 1.ed. Florianópolis: Empório do Direito Editora, 2015.

THE 50 greatest British writers since 1945. Portal The Times. Londres: 05.jan.2008. Disponível aqui. Acesso em: 05.maio.2020.


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