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Adeus ao ódio, feliz ano novo!


Por Ingrid Bays


Durante a nossa crítica fase de adolescentes, quando ainda nos encontramos em peculiar estágio de desenvolvimento, vamos moldando nossa personalidade e definindo atitudes e posicionamentos. Somos, nessa etapa, o resultado complexo de nossa constituição genética, do lugar em que estamos inseridos e da educação que nos é dada (CORREIA; GONZAGA, 2009, p. 01 ).

Faço essa introdução, pois, em um período de transição de um ano para o outro, paramos para refletir sobre vários aspectos e decisões que permeiam nossa vida. Assim, parei para devanear acerca do porquê sigo o fluxo contrário do senso comum, insisto em permanecer do lado da minoria e teimo por coisas que a esmagadora maioria das pessoas do meu convívio não compreendem.

Porém, nem sempre estive desse lado. E aí, rememorando fatos que pudessem me esclarecer a partir de que momento tomei tais posicionamentos, me vieram a cabeça aquelas frases incompreendidas que eram ditas por meu avô e por meu pai, que na época não me faziam o menor sentido… E com o tempo, foram moldando a minha personalidade, me tornando – da mesma forma que eles – alguém que sente absoluta satisfação por ter um objetivo muito definido: lutar pela efetivação dos direitos das pessoas.

Eu não posso ser hipócrita e dizer que nunca fui uma daquelas criaturas que sentem prazer em cuspir absurdos, pugnando pela “justiça” a qualquer custo. Passei por essa fase no início da faculdade, no auge dos meus 17 anos em que era suficiente pensar como a maioria. Por sorte, destino, ou seja lá qual for a denominação adequada, eu sempre senti necessidade de pensar, pensar além daquilo que me era dito.

A sede de conhecimento eu sei que corre nas minhas veias… E no meio desse caminho, a imensa satisfação de ter tido professores que me proporcionaram a oportunidade de ter vontade de sobra por insistir naquilo que acredito, naquilo que a nossa Constituição garante – garantias!!! – e em buscar opções pra não me apegar somente “a letra fria da lei” e fechar os olhos para os absurdos que são cometidos em nossas instituições públicas.

Por isso, o título deste artigo. Hoje (talvez ainda em fase de desenvolvimento…), tenho orgulho de todos os meus posicionamentos. Respeito, por óbvio, as opiniões contrárias as minhas, que não são poucas. Mas não tenho receios em afirmar que eu remo contra a maré em diversos assuntos polêmicos: redução da maioridade penal, aborto, etc.

Porque quando nós abrimos a mente para compreender e aceitar como as coisas acontecem para as pessoas que não possuem os mesmos acessos que eu tive a oportunidade de possuir, é fácil compreender o porquê da absoluta ineficácia do nosso sistema penal, da absurda falácia que é intitular o Brasil como o país da impunidade, do arrepio que se sente quando as pessoas esquecem que somos todos cidadãos, com os mesmos direitos!!!

A pura realidade é a de que “qualquer estudo sociológico criterioso da vida nas grandes cidades confirma que o crime emerge da segregação e da supressão de direitos, nunca de uma inclinação natural deletéria de determinados indivíduos ou grupos étnicos” (MEIRELLES; ATHAYDE, 2014, p. 134).

Assim, é óbvio que não é a pena que vai resolver o problema da criminalidade, não é a prisão! É a implementação de políticas públicas de qualidade, é a insistência em cobrar do Poder Público mais direitos, mais dignidade à pessoa humana, não mais repressão estatal (contra os mesmos de sempre)!!!

Que tal abandonarmos essa enraizada (e absurda-inconstitucional-assustadora) ideologia de que “só a pena de morte resolve” e iniciarmos o ano propagando a paz, a tolerância, a busca pelos direitos e garantias para todos os cidadãos? É hora de nos darmos oportunidades, sair do casulo. Perdoar. Ter esperança. Mudar. A insistência no ódio já provou não ser o caminho para diminuição da violência.

Não seria o início de um novo ano a hora de abrir a mente?


REFERÊNCIAS

CORREIA, Andréia Lígia Vieira; GONZAGA, Katherinne Rozy Vieira. Comportamento Adolescente: Rebeldia ou Doença? Rio de Janeiro: Ciência Moderna Ltda, 2009, p. 01.

MEIRELLES, Renato; ATHAYDE, Celso. Um país chamado favela: a maior pesquisa já feita sobre a favela brasileira. São Paulo: Editora Gente, 2014, p. 134.

Ingrid

Autor

Advogada (RS)
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