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“Agosto Vermelho”: o caso de envio da Força Nacional ao Rio Grande do Sul

Canal Ciências Criminais

Na última sexta-feira (26), o presidente em exercício, Michel Temer, autorizou o envio de homens da Força Nacional de Segurança para ajudar nas ações de defesa no Rio Grande do Sul. O governador do Estado, José Ivo Sartori, pediu apoio ao presidente para conter a onda de violência em Porto Alegre e na região metropolitana. O pedido faz parte de uma série de medidas tomadas em razão da crise na segurança no Estado, que culminou com o pedido de exoneração do secretário de Segurança Pública, Wantuir Jacini, um dia antes do encontro entre Sartori e Temer. (Veja aqui)

Mas os colunistas devem estar se perguntando. Como será empregada a Força Nacional? Eis a resposta:

A ideia de Sartori é que agentes da Força Nacional façam a segurança externa de presídios no Rio Grande do Sul, liberando, assim, mais policiais militares para atuar nas ruas. (Veja aqui).

Me faz recordar muito essa colaboração do governo federal atendendo a solicitação do Governo do Rio Grande do Sul com o Maio Vermelho em 2006 no Estado de São Paulo. Vejamos:

Para Alckmin, o envio da Força Nacional ao Estado não ajuda a resolver o problema, e o governo federal deveria liberar recursos e se esforçar para mudar a legislação que versa sobre segurança pública no país. (Veja aqui)

Mister se faz mencionar que antes o Estado do Rio Grande do Sul também tinha se negado a ser ajudado:

Governo já havia descartado uso da Força Nacional
Ainda em dezembro de 2015, após uma série de crimes com veículos do transporte coletivo incendiados em Porto Alegre, o então secretário de Segurança Wantuir Jacini declarou que não era necessário solicitar o apoio da Força Nacional. Jacini pediu demissão do cargo após a morte da mãe na quinta-feira. (veja aqui e aqui)

Volto a lembrar que o objetivo da Força Nacional nesse episódio é fazer a segurança na área externa dos presídios. Mas por que essa preocupação com os presídios daquele Estado?

Nunca é demais lembrar que o recluso José Márcio Felício (Geleião) foi transferido para Florianópolis em 01/08/2001 permanecendo lá até 06/08/2001 (veja aqui). E que também o atual líder do PCC Marco Willian Herbas Camacho (Marcola) em 23/02/2002, foi transferido a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueada/RS permanecendo na mesma até 17/04/2002 (veja aqui)

O pouco tempo que eles ficaram já mais que suficiente para se plantar uma sementinha do PCC naquele “Estado apadrinhador”. Nesse Estado (RS) encontramos outras facções criminosas: Os Manos, Os Brasas e Os Balas na Cara. Citamos alguns trechos do Estatuto dos “Os Manos”, estatuto esse que eles denominam de “Constituição dos Manos”:

Todo integrante que estiver definitivamente com a facção estará por livre espontânea vontade ciente que estará em compromisso com essas regras.

Assim começa o texto contido em quatro folhas impressas com o título “Constituição dos Manos”. As regras básicas estabelecidas no documento são a contribuição de R$ 200 mensais por integrante da facção e a divulgação da marca do grupo, simbolizada pelos números “14-18-12”. Essa contribuição que denominamos como caixinha dessas organizações também é encontrada no Primeiro Estatuto do PCC:

4 – A contribuição daqueles que estão em Liberdade com os irmãos dentro da prisão através de advogados, dinheiro, ajuda aos familiares e ação de resgate.

O Primeiro Comando da Capital também se utiliza de número, mas para se referir à palavra PCC, esse método surgiu na Ilha Grande com o Comando Vermelho, foi denominado como Alfabeto Congo que é a utilização de ordem numeral das letras do alfabeto, no caso do PCC, PCC = 15.3.3)

“Esse dinheiro servirá, conforme o documento, para a criação de um fundo destinado à contratação de advogados, aquisição de armamento e auxílio a familiares de presos. De acordo com Herbstrith, o regulamento estipula regras que devem ser seguidas pelos integrantes que progredirem do regime fechado para o semiaberto. Também existe uma determinação para aqueles que forem colocados em liberdade. Estes devem deixar o número de um telefone para contato, caso exista a necessidade de serem localizados pelo grupo.

Além disso, são impostas normas para a demarcação de território. Os integrantes da gangue são comunicados que poderão colocar a “bandeira” da facção de forma escrita, com a utilização da sequência numérica 14-18-12 (não há explicação do significado destes números – veja aqui). Só espero que no Estado do Rio Grande do Sul a criminalidade organizada não esteja caminhando a passos largos como atualmente estamos em São Paulo. Um grande abraço aos amigos leitores, em especial aos do Sul do nosso país.


P.s: Preferi utilizar-me dessa terminologia no título tendo em vista a analogia com os fatos ocorridos em São Paulo em 2006, só espero que no Rio Grande do Sul não alcance a proporcionalidade com o que sofremos aqui em São Paulo. Para saberem mais sobre os fatos de 2006 recomendo a leitura do artigo “Maio Vermelho: os dias em que o Estado se curvou ao PCC“, disponível aqui).

Autor
Agente Penitenciário. Penitenciarista. Pesquisador
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