• 1 de dezembro de 2020

Agressão à Manchinha e ao João Alberto: não foi coincidência

 Agressão à Manchinha e ao João Alberto: não foi coincidência

Agressão à Manchinha e ao João Alberto: não foi coincidência

Por Gisele K. Scheffer e Renato S. Pulz

A violência é um dos eternos problemas na história da civilização humana, seja de forma individualizada ou contra coletivos. Infelizmente, é uma triste manifestação do comportamento humano, que pode servir numa situação de legítima defesa ou em estado de necessidade.  Todavia, não são esses casos que nos chocam, mas aqueles despropositados, desproporcionais, excessivos, abusivos, injustificados e, principalmente, discriminatórios e preconceituosos.

Acabamos de assistir no noticiário a um homem negro ser espancado e morto pelos profissionais de segurança de um mercado de uma grande rede. Os olhares e gritos das outras pessoas e as lentes dos celulares foram impotentes nas tentativas de impedir o crime. No dia em que se comemoraria o Dia da Consciência Negra estamos lamentando mais um caso flagrante de racismo em pleno século XXI, uma realidade vergonhosa.

O caso, para além da brutalidade, chama a atenção pelo fato de a mesma rede de supermercados ter sido palco, em 2018, da morte da cadela Manchinha por um segurança. Um fato que ganhou repercussão e indignação nacional. Não é objetivo desse texto fazer comparação entre a gravidade dos crimes ou subestimar a dor causada por esse crime bárbaro, mas sim alertar para a relação entre as violências, ou seja, o crime de maus-tratos contra os animais e a violência humana, defendida pela Teoria do Elo ou do Link. O racismo e o especismo são faces da mesma moeda, uma construção social que inferioriza o “outro” autorizando as diversas formas de violência por aqueles que se acham superiores.

A ideia de uma ligação entre crueldade contra os animais e comportamento violento contra humanos é antiga. Quando surgiram, no século XIX, as sociedades de proteção aos animais, foi amplificado o discurso de preocupação sobre a ligação entre a crueldade aos animais e a posterior violência contra seres humanos. Essa relação foi invocada como uma premissa central para melhorar o tratamento aos animais e aperfeiçoar a educação humana (UNTI, 2008).

Margaret Mead foi uma das primeiras pesquisadoras a falar sobre o tema, no ano de 1964. Para ela, matar e torturar um ser vivo podem ser sinais diagnósticos de subsequente violência contra seres humanos (MEAD, 1998).

Para Unti (2008), entretanto, o momento real para o reconhecimento da ligação veio nos anos 1980, quando se levantaram tendências sociais, como o feminismo, e pesquisas sobre o elo homem-animal ajudaram a legitimar a atenção dada aos crimes de crueldade. Afirma que um marco importante ocorreu no ano de 1988, quando a crueldade contra os animais ganhou seu espaço na revisão do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Desorders III (DSM-III-R), nos Estados Unidos da América, como um sintoma de desvio de conduta.

De acordo com Wright e Hensley (2003), foi proposto que muitos assassinos em série começassem a matar animais vulneráveis como um método de resposta à humilhação e para mostrar seu poder e dominação. Esses indivíduos podem, eventualmente, evoluir para os seres humanos, quando os animais não mais atendem às suas necessidades.

Brügger (2004) equipara o racismo, o sexismo e os maus-tratos aos animais como ações de dominação sobre o outro.

Tendo em vista que os dois episódios tema deste artigo ocorreram na mesma rede de supermercados, poder-se-ia criar uma nova subclassificação da teoria do link: a Teoria do Link Empresarial, pois em ambos os casos, o da cadela Manchinha e o da vítima humana, viu-se violência gratuita e exagerada, desproporcional a ponto de causar a morte, omissão de muitos ao redor, discriminação, repetição da agressão no mesmo cenário, vulnerabilidade, e abuso da força sem oportunidades de defesa por parte das vítimas.

Será essa a determinação dada aos seguranças da rede? Agredir sem medidas tanto animais como humanos que, porventura, estejam em seus estabelecimentos e que pretensamente e, até mesmo, não intencionalmente, tenham causado algum incômodo?

Não nos deixemos enganar: uma sociedade que ainda aceita socialmente alguma forma de exploração e violência de qualquer ser senciente e vulnerável, seja humano ou não, não saberá onde pisar nessa linha tênue entre o que é certo ou errado.


REFERÊNCIAS

BRÜGGER, Paula. Educação ou adestramento ambiental? 3. ed. Chapecó: Argos; Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2004.

MEAD, Margaret. Cultural factors in the cause and prevention of pathological homicide.  In: LOCKWOOD, Randall; ASCIONE, Frank R. (org.). Cruelty to animals and interpersonal violence: readings in research and application. West Lafayette: Purdue University Press, 1998. p. 20-31.

UNTI, Bernard. Cruelty indivisible: historical perspectives on the link between cruelty  to animals and interpersonal violence. In: ASCIONE, Frank R. (org.). The international handbook of animal abuse and cruelty: theory, research, and application. West Lafayette: Purdue University Press, 2008. p. 7-30.

WRIGHT, Jeremy; HENSLEY, Christopher. From animal cruelty to serial murder:   applying the graduation hypothesis.  International Journal of Offender Therapy and Comparative Criminology, Thousand Oaks, v. 47, n. 1, p. 71-88, 2003. Disponível aqui. Acesso em: 19 nov. 2020.


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Gisele Kronhardt Scheffer

Mestre em Direito Animal. Especialista em Farmacologia. Médica Veterinária.