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Aileen Wuornos, a dama da morte


Por Bernardo de Azevedo e Souza e Henrique Saibro


“Não faz sentido me manter viva. Esse mundo nada significa pra mim” (Aileen Wuornos)

A PERSONALIDADE

Como boa parte dos psicopatas, Aileen Wuornos sofreu experiências traumáticas durante a sua infância, além de ter convivido em um ambiente familiar para lá de conturbado. Quando Aileen nasceu, seus pais, ainda adolescentes – sua mãe, por exemplo, tinha apenas 15 anos –, estavam separados. O casal já possuía outro filho, Keith Wuornos.

Após a separação, o seu pai, Leo Dale Pittman, foi condenado e preso por abusar sexualmente de crianças. Foi considerado, pelos médicos que o examinaram durante seu julgamento, como um “sociopata”. Acabou enforcando-se na prisão em 1969.

Sua mãe, Diane Wuornos, queixando-se de “bebês chorosos e infelizes”, decidiu abandoná-los e entregá-los a seus pais – os avós maternos de Aileen. Com 6 anos, em uma brincadeira de “mau gosto” com seu irmão mais velho, deformou o seu rosto por ter sofrido uma queimadora com fluido de um isqueiro.

Segundo a própria Aileen, praticou, reiteradas vezes, sexo com o seu irmão mais velho. Coincidentemente (ou não), engravidou aos 14 anos. Há quem diga que o pai seria realmente o seu irmão. Nunca se soube se essa informação era verdadeira, pois Keith não estava mais vivo para confirmá-la. Quando da gravidez, internou-se em um abrigo para mães solteiras. Digamos que ela não era muito bem quista perante suas colegas; reclamavam que era antissocial e temiam a sua hostilidade.

Com o nascituro de seu filho, entregou-o para a adoção. Aileen nunca aceitou o fato de seus avós não serem seus verdadeiros pais, aliado ao fato de que exerciam uma educação severa. Assim que sua vó faleceu, sua mãe ofereceu-se a recebê-la juntamente com seu irmão. Ambos recusaram o convite.

Diante desse contexto, Aileen decidiu abandonar a escola e prostituir-se. Sua “casa” era um carro abandonado e, quando não estava se prostituindo, drogava-se constantemente. Com o passar do tempo, seu irmão faleceu em razão de um câncer na garganta e seu avô Lauri suicidou-se.

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Aileen Wuornos em sua juventude

Mudou-se para a Flórida e casou-se com um sujeito muito mais velho. O casamento foi relâmpago. Seu ex-marido divorciou-se em razão de ter conhecimento de que Aileen teria agredido a cabeça de um barman com um taco de sinuca. A partir daí, iniciou sua carreira criminosa.

Antes de inaugurar sua senda de assassinatos, envolveu-se em crimes de roubo, falsificação, embriaguez ao volante e porte ilegal de arma de fogo. Aos 18 anos, já utilizava nomes falsos para despistar seus antecedentes policiais.

Aos 30 anos, conheceu, em um bar GLS, “a sua alma gêmea” – Tyria Moore. Acabaram namorando e viviam de forma inseparável. Aileen seguiu prostituindo-se para manter a própria subsistência, apesar de não ter deixado de lado os assaltos e furtos. Afinal, eles eram mais “rentáveis”.

Especialistas consideravam que Aileen era doente mental e sofria de transtorno de personalidade fronteiriça (borderline) –, cujos sintomas mais conhecidos são instabilidade emocional, autodepreciação, insegurança, impulsividade e comportamentos antissociais –, mas plenamente capaz de entender suas ações.

VÍTIMAS 

Aileen não ficou mundialmente conhecida somente por seus roubos e furtos. Ela foi uma serial killer. Costumava vitimar seus clientes de prostituição, que normalmente lhe abordavam nas estradas. Eram todos eles homens de meia idade.

As autoridades policiais demonstraram que as suas vítimas foram mortas por disparo de arma de fogo, sempre com um revólver de calibre 22. À exceção do corpo de Peter Siems, todos foram localizados dentro de veículos ou perto do automóvel. A dama da morte costumava, depois de assassinar suas vítimas, apropriar-se de seus bens – como, por exemplo, o Cadillac e um barbeador elétrico de Richard Mallory, ferramentas de David Spears e o cassetete de Walter Antonio (todas vítimas fatais).

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As vítimas da ‘dama da morte’

Tyria Morre, sua namorada, sabia de tudo isso. Por pressão da polícia, acabou fazendo com que Aileen confessasse via telefone – que estava sendo interceptado pela polícia –, a autoria de alguns assassinatos. No caso, Morre fez uma pressão psicológica contra a dama assassina, pois lhe falava que, se não admitisse seus crimes, era ela quem seria presa. A tática funcionou.

Há muitas pessoas que acreditam que Aileen apenas matou clientes que lhe maltratavam ou que lhe ameaçavam de morte – o que, no submundo da prostituição, não é tão incomum. O fato de Richard Mallory, um dos assassinados, já ter cumprido uma pena de 10 anos de reclusão por crime sexual, acabou fazendo com que diversas pessoas acreditassem na sua inocência, realizando protestos nas ruas – chegando ao ponto de redigirem uma carta à Suprema Corte da Flórida requerendo um novo julgamento.

Em contrapartida, a casa de Aileen foi depredada. Ela também era bastante odiada na região. Advogados que questionavam as suas condenações eram ameaçados de morte. Independentemente das manifestações públicas, Aileen tornou-se uma católica rigorosa, rogando o perdão para os familiares de suas vítimas. Achava que, dessa forma, Jesus não a rejeitaria após a sua morte.

O JULGAMENTO

Em janeiro de 1992, Aileen Wuornos foi levada a julgamento pelo homicídio de Richard Mallory. A Acusação, capitaneada pelo Promotor John Tanner, apresentou diversas testemunhas. Todas eram especialistas e forneceram declarações técnicas e precisas. O depoimento do Dr. Arthur Botting, responsável pela autópsia do corpo da vítima, foi extremamente prejudicial à tese defensiva. Botting relatou que a vítima agonizou entre 10 e 20 minutos antes de morrer. As declarações do legista trouxeram danos irreparáveis à Defesa, mas a exibição de um videotape aos jurados, em que Wuornos confessava seus crimes para a polícia, foi o fator determinante para a condenação.

A defensora pública Tricia Jenkis, representando Aileen Wuornos, alegou que a confissão fora obtida de forma involuntária, e requereu sua exclusão como prova durante o julgamento. Apesar dos esforços, a moção foi negada. A supressão da confissão gravada, em verdade, de nada adiantaria, pois já havia sido vazada pela mídia, influenciando a percepção dos jurados sobre o caso.

A Defesa sustentou, durante todo o julgamento, que Wuornos agiu sob legítima defesa. A tese, para os jurados, não fazia sentido. Era possível, sim, que o crime contra Richard Mallory tivesse sido praticado de tal forma. Mas, no momento em que tomaram conhecimento dos demais delitos praticados, era improvável que todos eles tivessem ocorrido em estado de legítima defesa.

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Wuornos durante o julgamento

Mesmo com todas provas em seu desfavor, a dama da morte se mostrava autoconfiante e desafiadora: queria contar sua versão dos fatos aos jurados. Aileen Wuornos era, em síntese, sua única testemunha de defesa. Relutante, a Defensora não viu alternativas. Wuornos subiu ao banco das testemunhas e disse aos jurados que havia sido estuprada, sodomizada e torturada pela vítima. O resultado foi desastroso: a Acusação derrubou história a história, apontando todas mentiras e inconsistências do relato. Wuornos fez um escândalo e evocou a 5ª Emenda (direito de permanecer calado e evitar a auto-incriminação) por 25 vezes. Estava, de fato, condenada.

Após duas horas de deliberação, o júri considerou Wuornos culpada de todas as acusações, incluindo homicídio em primeiro grau e assalto à mão armada. Inconformada, a dama da morte vociferou:

“Que suas esposas e seus filhos sejam estuprados, direto no ânus!”

Mal sabia que os jurados que recebiam as ofensas seriam os mesmos a definir sua pena no dia seguinte. A explosão, ao que tudo indica, permaneceu na memória do Conselho de Sentença: por unanimidade, Wuornos foi condenada à pena de morte no dia 31 de janeiro de 1992.

A EXECUÇÃO

Aileen Wuornos não foi mais a julgamento, tampouco contestou as acusações de assassinatos das demais vítimas. Em menos de um ano (março de 1992 a fevereiro de 1993), foi condenada a mais seis penas de morte.

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A ‘dama da morte’ um dia antes de sua execução

A execução ocorreu em 9 de outubro de 2002, na Prisão Estadual da Flórida. A injeção letal foi ministrada em seu braço direito às 9h30min. Dois minutos depois, Wuornos parou de se mexer, sendo declarada morta oficialmente às 9h47min. As últimas palavras que disse antes de fechar seus olhos não foram exatamente claras:

“Eu só gostaria de dizer que estou velejando com a Rocha e retornarei como no Independence Day com Jesus, 6 de junho, como no filme, na nave-mãe e tudo. Eu voltarei”.

A história de Wuornos foi representada nos cinemas, no filme Monster: Desejo Assassino, de 2003. A atriz Charlize Theron, que interpretou a dama da morte na película, foi premiada com o Oscar pela atuação.


REFERÊNCIAS

CASOY, Ilana. Serial killers: louco ou cruel? Rio de Janeiro: Darskide, 2014.

WUORNOS, Aileen; BERRY-DEE, Christopher. Monster: my true story. Londres: John Blake, 2004.

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Autor

Advogado. Mestrando em Ciências Criminais. Especialista em Ciências Penais. Especialista em Compliance.
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