• 31 de outubro de 2020

Ainda dá tempo de falar sobre ‘O Coringa’?

 Ainda dá tempo de falar sobre ‘O Coringa’?

Ainda dá tempo de falar sobre O Coringa?

Era uma quinta-feira de outubro e eu e Plínio decidimos ir ao cinema depois do trabalho. Assim como eu, Plínio é advogado criminalista e, terminando o expediente daquele dia, fomos direto.

O filme era O Coringa e confesso que fui sem muitas expectativas, senão a de talvez tirar um cochilo durante o filme – arte que domino bem.

Mas, ao contrário do que pensei, em poucos minutos aquele filme já havia me ganhado. Cenas impactantes e sensíveis sobre uma pauta de importância inconteste estavam ali postas para um público indistinto.

A revolta e a impotência me tomaram durante o filme todo. Ao mesmo tempo, um estranho alívio também. Finalmente o sentimento diário que move o criminalista estava chegando àqueles que tanto nos questionam, mas que se negam a tentar compreender.

Havia um Arthur por trás do Coringa. E havia um corpo social por trás de Arthur.

E melhor: a mensagem estava sendo passada de forma sensível. Incômoda, mas sensível.

Enfim, o filme terminou e, antes que eu pudesse me virar para o lado e dividir os pensamentos com quem eu sabia que estava sentindo exatamente o mesmo, fomos surpreendidos:

Um homem a algumas fileiras de nós se levantou e esbravejou: “esse filme é uma hipocrisia”. Disse alto, com vontade. E saiu da sala. Nosso riso desconcertado e irônico foi inevitável. Mas, o tempo passou e eu fiquei presa naquele acontecimento e naquela frase durante um bom tempo.

Por óbvio que o filme havia mexido comigo. Minha revolta já tinha nascido nos primeiros minutos do longa, mas, não era uma revolta inédita ou um incômodo que eu me surpreendesse em sentir. As pautas que envolvem o enredo sempre me angustiaram, fazem parte de pequenas lutas diárias e protagonizam grandes anseios pessoais e profissionais.

Meu problema foi aquela frase final, aquela experiência que só os presentes naquela sessão de cinema vivenciaram. Aquilo ressignificou e intensificou a revolta natural que o filme me havia feito reviver.

Onde estaria, afinal, a hipocrisia que aquele senhor esbravejou no cinema?

Coringa representou tanto, que a resposta a essa pergunta me parecia óbvia, mas, ao mesmo tempo, nela ainda cabia muito.

Ele é a negação. É o conhecido que a gente insiste em desconhecer. Coringa retrata o abismo social que divide a nossa sociedade e escancara a crueldade com que lidamos com aqueles que acenam das margens. Ele representa a tentativa de (re)inserção social, e seu insucesso. Ele representa muitas minorias em um personagem só.

E então…Teria aquele homem-do-cinema sido tomado por uma verdadeira sensação de hipocrisia, ou teria se sentido incomodado ao perceber sua condição de pertencimento à classe da qual tanto sentiu raiva durante o filme?

No longa, a elite incomoda mais que o marginalizado. Seus defeitos causam danos e sofrimentos irreparáveis. E isso perturba o espectador. Incomoda se solidarizar com aquele incomum protagonista e perceber que, na verdade, você pertence ao grupo pelo qual chegou a torcer contra durante o filme.

O sofrimento daquele anti-herói é quase palpável, e é inevitável sentir empatia pelo personagem.

Nós, criminalistas, temos contato com esse sofrimento diariamente e, por (muitas) vezes, defendemos quem o sente na pele. Mas, essa é uma realidade distante de muitos. E é por isso que o filme é essencial. É por isso que aquela quinta-feira de ida ao cinema foi fundamental.

A arte fez a mensagem, enfim, chegar àqueles que se negam a enxergar a realidade por outros meios.

Coringa não é um mero anti-herói. Coringa é tudo aquilo que você precisava entender, e até hoje se negou.

E aquela indignação que fez o espectador intitular o filme de “hipócrita” é, nada menos, que o incômodo do pertencimento. O filme escancara a culpa em pertencer ao seleto grupo dos “cidadãos de bem” – representados no filme pela sociedade de Gotham no geral.

Torcer pelo Coringa não faz de você um apologista ao crime. Não faz de você um hipócrita. Faz de você humano. Faz com que você enxergue Arthur por trás do Coringa e queira entender seus percalços até ali. Faz você perceber que os crimes são verdadeiramente seletos e que o sistema de justiça criminal é seletivo.

Inesperadamente, o filme faz nascer empatia do espectador em relação ao protagonista. E como essa empatia é indigesta, ela é nomeada de hipocrisia.

E isso acontece porque, para muitos, aquela foi a primeira vez que a empatia pelo marginalizado bateu à porta. Ah, e isso causa um reboliço na cabeça do cidadão de bem. Como entender aquela torcida interna pelo anti-herói que representa tantas minorias em um só?

Aceitar esse sentimento, e digeri-lo, demanda uma desconstrução pessoal que poucos são os dispostos a fazer. Desconstruir suas verdades e preconceitos exige muito. É mais fácil negar. É mais fácil fingir que não sentiu. É mais fácil renomear e chamar de hipocrisia.

Penso que aquele senhor terminou o dia se questionando o porquê em ter se solidarizado com um criminoso. E o que eu gostaria de tê-lo perguntado é “por que não se solidarizou antes?”

Ainda dá tempo de falar sobre O Coringa. Sempre é tempo de falarmos sobre os coringas.


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Giovanna Penhalbel Sigilló