• 30 de setembro de 2020

Analisando o perfil em ‘Dragão Vermelho’

 Analisando o perfil em ‘Dragão Vermelho’

Analisando o perfil em Dragão Vermelho

Dragão Vermelho é um filme de 2002 baseado no livro homônimo de Thomas Harris. É o terceiro filme de uma quadrilogia, mas sua história se passa antes de todos os outros. O filme conta como um ex-agente do FBI, após prender Hannibal Lecter, procura a sua ajuda para descobrir a identidade de um serial killer que mata famílias.

Dragão Vermelho

Logo no início do filme, Will Grahan, agente do FBI até então, e Hannibal Lecter, psiquiatra forense, conversam sobre um assassino em série. Grahan acredita que o perfil criminal elaborado por eles está errado e sabe o motivo: eles haviam conversado sobre o rancor doentio e conhecimento de anatomia do assassino. Definiram anteriormente que provavelmente seria um médico sem licença, um aluno que abandonou a faculdade de medicina ou alguém recém-demitido do necrotério.

Mas Grahan diz que os dois estão errados na presunção de que a precisão do corte era utilizado como souvenir. Na verdade, o assassino não estava guardando partes dos corpos das vítimas e sim comendo-as.

Ele explica que todas as partes que faltavam nas vítimas eram usadas na culinária, como fígado, timo, língua, rim e carne presente atrás das costas. Hannibal percebe que está próximo de ser desmascarado como sendo o assassino e diz que Grahan tem capacidade de assumir o ponto de vista emocional de outras pessoas, mesmo que enojem ou assustem.

Esse é um belo exemplo de elaboração de perfil criminal. Ao analisar racionalmente uma característica de um criminoso em série, é possível definir o que essa característica significa juntando as peças e vendo a imagem como um todo. É preciso analisar o comportamento do criminoso, da vítima e as características do crime para entender o significado de seus atos.

Saber a diferença entre guardar partes de um corpo ou comê-las vai depender de diversos fatores que precisam ser observados atentamente. E é preciso ter não só a técnica, mas conhecimentos abrangentes de outras áreas também. Aqui vemos de onde surgiu a dúvida, a análise feita e a conclusão de acordo com uma percepção ampla do ato.

Outro detalhe importante é conseguir se colocar no lugar do outro, mesmo que você não concorde com o ponto de vista daquele indivíduo. Grahan entende que o assassino possui motivações e perspectivas sobre a vida e por isso ele age de uma determinada forma. Isso não costuma ser falado nos estudos de Criminal Profiling, pois pode ser visto de forma abstrata, mas, no momento em que é preciso traduzir o comportamento através de evidências, fica claro que esse entendimento é mais fácil quando existe a abertura para compreender o outro.

Além disso, durante o filme é possível observar o processo dedutivo de Grahan, a partir do momento em que ele analisa a cena do crime de um homicida em série. A forma como ele observa as fotos, as posições das vítimas e como elas foram deixadas, detalhes como espelhos quebrados pela casa, a falta do animal de estimação e a escolha da entrada do assassino são cruciais para entender como ele age e quem ele é. Detalhes que podem parecer insignificantes dizem muito sobre o comportamento de alguém. E, quanto mais específicos, melhor.

Por ser um filme, vemos uma versão romantizada e exagerada do trabalho elaborado por agentes especiais do FBI. De qualquer forma, é possível entender um pouco de como esse trabalho funciona mesmo que superficialmente, principalmente do ponto de vista de Grahan e das evidências que surgem no decorrer da investigação.

Uma curiosidade interessante: assistindo ao filme eu notei a falta da abordagem das teorias do FBI no trabalho utilizado. Não se falou em organizado ou desorganizado e também não foram usadas comparações de outros casos como se costuma ver em séries da área. Aqui vemos muito mais a teoria da Análise dos Vestígios Comportamentais (AVC) por meio do método idiográfico.

Não podemos dizer que os detalhes mostrados no filme condizem com a realidade, mas, pelo menos, é possível ter uma ideia de como funciona a linha de pensamento do profiler. Querendo ou não, o Criminal Profiling é muito mais complexo do que se imagina, mas que desperta muito interesse.

É curioso perceber o fascínio do grande público sobre esse tema, principalmente quando ligado ao FBI, e que demanda a criação de produções em tantos segmentos do entretenimento durante tantos anos até os dias atuais, como vemos em Mindhunter.


Quer estar por dentro de todos os conteúdos do Canal Ciências Criminais?

Então, siga-nos no Facebook e no Instagram.

Disponibilizamos conteúdos diários para atualizar estudantes, juristas e atores judiciários.

Verônyca Veras

Especialista em Criminal Profiling. Advogada.