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Análise da linguagem corporal para detectar mentiras no interrogatório

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análise da linguagem corporal

Análise da linguagem corporal para detectar mentiras no interrogatório

Mentir é o processo pelo qual uma pessoa tenta convencer outra de que algo é verdadeiro enquanto sabe que é falso. Apesar de ser vista negativamente, a mentira é um fenômeno natural na comunicação humana. É um aspecto presente em interações sociais cotidianas e pode ser utilizada para vários fins. Um indivíduo pode vir a mentir para aumentar as chances de conquistar algum objetivo, ou até para evitar ser punido ou prejudicado por algo que tenha feito.

Mentir também é um comportamento aceito e até incentivado em certas ocasiões sociais – quando esta é utilizada para demonstrar polidez, por exemplo. No âmbito jurídico, a mentira é um fator relevante pelo fato da mesma causar danos materiais ou morais às pessoas envolvidas, portanto é importante que os operadores do direito e agentes da lei utilizem formas eficazes para identificar quando alguém está mentindo.

Análise da linguagem corporal

Entretanto, os treinamentos que têm o objetivo de capacitar profissionais na detecção de mentiras estão repletos de informações que não são validadas cientificamente. Atualmente, acredita-se que a interpretação da linguagem não verbal (ou linguagem corporal) é uma técnica bastante eficiente para detectar mentiras, e um dos fatores que contribuem para essa crença é a disseminação de uma visão exagerada sobre o método. Outro fator é a escassez de literatura sobre o assunto. No brasil, há raros estudos disponíveis sobre detecção de mentiras e análise de linguagem corporal.

Na literatura atual, a linguagem não verbal é uma forma de comunicação que consiste em uma série de fatores, como: gestos, aparência física, postura do corpo, distância entre interlocutores, organização de objetos no espaço e até modulações na voz.

A movimentação dos músculos da face também é um desses fatores, e atualmente existem métodos de interpretação de expressões faciais. Tal prática ficou bastante conhecida por ter sido aperfeiçoada pelo cientista Paul Ekman, entre outros, onde o mesmo estruturou a teoria das microexpressões faciais a partir de fontes que indicavam a sua provável existência.


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A análise de linguagem corporal (que também engloba as microexpressões) parte do pressuposto que, ao mentir, um indivíduo não consegue esconder todos os sinais fisiológicos que estão acontecendo em seu corpo, e um observador treinado poderia atentar para tais sinais e concluir se alguém está dizendo a verdade ou não.

Atualmente, a observação da linguagem corporal é vista como uma metodologia que permite descobrir com uma alta frequência de acertos quando alguém está mentindo, e essa crença está presente também no contexto jurídico-policial.

Entretanto, como demonstrou um estudo, pessoas treinadas com métodos policiais de detecção de mentiras obtiveram uma taxa de sucesso inferior às pessoas que não foram treinadas. Uma metanálise envolvendo 30 estudos concluiu que diversos treinamentos aumentam a confiança dos indivíduos, mas causam melhorias pouco significativas na capacidade de detectar mentiras.

A crescente utilização de análise de DNA para revisões e exonerações em casos de condenações injustas também demonstra erros de agentes da lei ao interpretar o comportamento de suspeitos, podendo resultar na prisão de inocentes ou na falta de punição de culpados. Em muitos casos, os agentes concluíram erroneamente que sinais de nervosismo eram evidências de comportamento mentiroso.

Além disso, falharam em perceber que muitas alegações de inocência eram verdadeiras. Tais erros podem ocorrer pelo fato de pessoas que estão mentindo demonstrarem comportamentos semelhantes com quem diz a verdade. No contexto de um interrogatório, ambas estariam tentando controlar sinais corporais de nervosismo enquanto articulam um discurso que atesta sua inocência.

Erros na esfera de investigação criminal também ocorrem devido às crenças errôneas sobre detecção de mentiras que são ensinadas aos agentes da lei durante os treinamentos. Uma série de aspectos de linguagem corporal são considerados indícios de mentira, como: inquietude de pés e mãos, estresse vocal, alterações na postura corporal e desvio de contato visual.

Entretanto, estes sinais possuem fraca correlação com o comportamento mentiroso. Um estudo demonstrou que treinamentos baseados nestas crenças raramente geram taxas de sucesso superiores ao acaso (50%). Ou seja, a capacidade pessoas de treinadas em identificar quando alguém está mentindo não é superior à de pessoas sem treinamento na maioria dos casos.

Além disso, tanto indivíduos que estão mentindo quanto os que estão dizendo a verdade aumentam a duração do contato visual para parecerem mais sinceros quando estão tentando convencer alguém de sua inocência, o que contraria a hipótese do desvio do olhar.

O contato visual e movimentos oculares são objetos de estudo da programação neurolinguística (PNL). Profissionais da PNL alegam que é possível identificar comportamento mentiroso ao observar os movimentos feitos pelos olhos, pois teoricamente eles se movimentariam de maneiras diferentes a depender do discurso produzido – se é uma verdade ou uma mentira.

A teoria ensinada afirma que quem está mentindo olha mais frequentemente para o lado direito, e quando diz a verdade, para o lado esquerdo. Esta teoria não possui embasamento cientificamente válido. Um relatório publicado pelo High Detainee Interrogation group – entidade Estadunidense composta pela Agência Central de Inteligência (CIA), Departamento Federal de Investigação (FBI) e o Departamento de Defesa (DoD) – declara que a programação neurolinguística (PNL) não possui fundamentação científica validada no campo da neurociência e nem da linguística.

Outra metodologia problemática que conduz a falsos positivos e falsos negativos é a análise de microexpressões faciais. Apesar de também ser avaliada como confiável e ser bastante valorizada em treinamentos para detecção de mentiras, esta técnica possui embasamento científico questionável.

A hipótese teoriza que as microexpressões são contrações involuntárias dos músculos faciais causadas por alterações fisiológicas decorrentes de estados emocionais. Elas podem durar de 1/12 a 1/5 de segundo. O questionamento surge com o fato de que ainda não foi descoberta uma relação de reações somatoviscerais específicas para cada emoção.

Além disso, o comportamento de mentir pode eliciar uma variedade de reações no indivíduo, desde medo e ansiedade ou até prazer e felicidade. Paralelamente, ainda existem múltiplas intensidades de expressividade das emoções, o que torna sua interpretação ainda mais difícil. Se os riscos de ser pego forem baixos, um indivíduo pode não demonstrar expressão alguma.

Ainda existem outras complicações no campo da detecção de mentiras com base em microexpressões. Muitos dos movimentos faciais presentes em humanos são aprendidos socialmente, o que significa que os indivíduos possuem certo controle sobre o fenômeno e podem confundir observadores exagerando, minimizando ou mascarando o aparecimento de uma microexpressão. Apesar disso, agentes da lei aprendem que microexpressões são uma base confiável para detecção de mentiras.

Técnica confiável ou pseudociência?

Identificar quando alguém está mentindo é uma tarefa difícil e não existe um comportamento que indique mentira por si só. Uma metanálise envolvendo aproximadamente 25 mil participantes demonstrou que as pessoas obtêm em média uma taxa de 54% de acertos. Tal resultado é bastante próximo do acaso (50%).

Apesar de existirem treinamentos que alegam aumentar bastante o índice de sucesso, há diversas fontes se posicionando contra a classificação da observação de linguagem corporal como um método confiável para detectar mentiras. A União Americana pelas Liberdades Civis (ACL) se posicionou por meio de um relatório, onde avalia a observação do comportamento como sendo uma abordagem enviesada e cientificamente frágil.

Existem hipóteses alternativas no campo da detecção de mentiras pela linguagem não verbal. Uma delas é a hipótese do Efeito de rigidez (Rigidity Effect). Ela teoriza que, ao mentir, o indivíduo empreende grande esforço para controlar as reações fisiológicas automáticas do seu corpo enquanto tenta construir um discurso plausível, além de tentar parecer relaxado e/ou confiante.

Esse esforço pode causar um efeito de inibição de expressividade corporal, de forma que uma pessoa se encontraria com a postura rígida e com redução na gesticulação e emissão de expressões faciais. Outros estudos demonstram concordar que há uma redução na movimentação de pés, mãos e cabeça em pessoas que estão mentindo. Também ocorre diminuição na frequência do piscar de olhos e na emissão de expressões faciais.

Tais resultados podem corroborar a hipótese do efeito de rigidez, que possui certa fundamentação científica demonstrada por algumas pesquisas. Entretanto, é importante que sejam feitos mais estudos para averiguar a confiabilidade deste método. Priorizar indicadores cognitivos (ao invés de emocionais) de mentira tem se mostrado como uma abordagem promissora e já é aplicada atualmente no Reino Unido.

A abordagem cognitiva constitui um modelo de interrogatórios e detecção de mentiras denominada Entrevista Investigativa. Esta técnica tem apresentado resultados superiores aos outros modelos vigentes nas agências policiais, e demonstra ser um caminho produtivo que precisa ser investigado mais profundamente com estudos científicos. Existem diversas abordagens alternativas que oferecem múltiplos caminhos a serem pesquisados, e isso pode gerar contribuições bastante positivas para o fortalecimento de hipóteses e validação de métodos futuramente.

Este artigo demonstrou uma parcela da problemática envolvendo a detecção de mentiras no contexto jurídico-policial. Foram expostos argumentos questionando a validade de técnicas ensinadas em treinamentos de agentes da lei que podem trazer falsos positivos e falsos negativos, gerando consequências graves no âmbito penal.

Uma investigação influenciada por uma inferência errada de comportamento mentiroso pode enviesar a produção de provas e causar condenações injustas ou permitir que culpados não recebam as devidas penas.

Desta forma, fica demonstrada a importância de se estudar mais profundamente o campo da detecção de mentiras, tanto para corrigir erros cometidos diariamente na rotina penal quanto para desenvolver técnicas mais confiáveis que podem servir como ferramentas úteis para a elucidação de crimes.


REFERÊNCIAS SOBRE ANÁLISE DA LINGUAGEM CORPORAL

  1. Mentira: Aspectos Sociais e Neurobiológicos – Danilo wágner de souza martins
  2. Lying as a form of social interactions – Jenifer A. Guthrie
  3. Interrogation: A review of the Science – High Detainee Interrogation Group
  4. The eyes don’t have it: Lie detection and Neuro-Linguistic Programming – Richard Wiseman et al
  5. Microexpressions are not the best way to catch a liar – judie K. Burgoon
  6. Perspective: Detecting deception – Joe Navarro
  7. Cues to catching deception in interviews: A brief overview – National Consortium for the study of terrorism and responses to terrorism
  8. Deception and Truth detection when analyzing nonverbal and verbal cues – Aldert Vrij
  9. How good we are at detecting deception? A review of the current techniques and theories – Alicia Nortje et al
  10. Reading lies: Nonverbal communication and deception – Aldert Vrij et al
  11. A linguagem das emoções – Paul Ekman
  12. From third-degree  to third-generation interrogation strategies: putting science into the art of criminal interviewing – Desmond S. O’Neil
  13. Detecção de Mentiras: A hipótese do efeito exponencial – Rui Mateus Joaquim

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Autor
Instrutor de Criminalística e Técnicas de Entrevista. Pós Graduando em Ciências Criminais. Membro da Sociedade Brasileira de Ciências Forenses.
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