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Angústias de uma Inspetora de Polícia


Por Silvia Furtado


Horário de almoço, e ainda restam alguns minutos. Ouço gritos indicativos de que as coisas não estão nada bem na Área Judiciária do Palácio da Polícia. Percorro o trajeto até lá, lembrando dos tempos em que fui aluna da ACADEPOL, do entusiasmo, do idealismo; uma realidade tão distante… Penso no tanto que, mais adiante, já formada e professora de meus futuros colegas, falei, de forma espontânea e sincera, na necessidade de atuar com respeito e dedicação, e sobre o cotidiano policial, o meu dia-a-dia, do qual sentia tanto orgulho e para o qual me sentia plenamente vocacionada.

Cinco anos de atividade podem parecer pouco; mas, nesse lapso temporal, houve em mim uma transformação desoladora. Se, de início, as péssimas condições do sistema carcerário, em contraste com o surrealismo da Lei de Execuções Penais, representavam o grande desafio; hoje, no meu sentir, isso já perdeu a supremacia, em vista do intrincado e insolúvel cenário em que vivemos, no qual a polícia experiencia a descrença da sociedade na eficiência da instituição, enquanto padece com o desrespeito oriundo do alto escalão do Poder Executivo e dos marginais.

A sociedade clama por justiça, e a polícia prende, prende e prende. E os policiais correm riscos e mais riscos, por contingências de um trabalho vocacionado, embora os governantes pretendam arrolar para si os frutos do empenho dos agentes. É verdade, muitos policiais são dedicados em suas tarefas por guardarem em si o desejo de bem realizá-las. Conformados com a falta de investimentos, buscam adequação com o pouco disponibilizado, encarando suas atividades com a percepção de que as possibilidades, os recursos, a esperança, tudo se afunila e parece apontar para a falta de saída. Só quem convive internamente com a situação conhece o nível das dificuldades enfrentadas.

Os passos que me conduziram ao interior da Área Judiciária do Palácio da Polícia tiveram a força de um choque brutal. Entrei em um recinto cujo cheiro insuportável parecia estar maculando até a alma dos policiais que ali trabalhavam. Estranho expressar assim, mas de que outra maneira se poderia definir a influência de um ambiente tão insalubre naqueles que lá permanecem por 24 horas consecutivas? São muitos presos dentro de uma cela sem a possibilidade de ser encaminhados ao presídio. Gritos e protestos audíveis de longe, assim como igualmente de longe é possível sentir o cheiro insuportável que impregna o amplo espaço da delegacia, da porta de entrada a todos os ambientes do local.

Ali estão presos os infratores e os policiais. O Judiciário impede o ingresso de novos presos no Central pela falta de condições. Os policiais da Área permanecem longas horas registrando ocorrências, envolvidos pelo ar irrespirável, ao som de gritos, orquestração dos presos amontoados numa cela quente e fétida. Tudo transpira falta de respeito. Observo os olhares dos colegas e o que interpreto é doloroso. São jovens policiais cujo idealismo e entusiasmo sufocam gradativamente pela falta de condições de trabalho. Lá rondam as sombras dos males que fazem adoecer e esmorecem o profissional que escolheu servir e proteger a sociedade. Estão eles condenados ao menosprezo de um sistema absurdo e desorganizado, cujas determinações supremas emanam de gabinetes impecavelmente limpos, muito distantes daquela realidade malcheirosa e degradante.

O intervalo para o almoço está encerrando. Saio da área judiciária e retorno a minha sala de trabalho. Lá não há odores e gritos, só virtualidade precária e carência de investimentos: outra ponta de um segmento mantido com a vontade de cumprir a atividade fim, e só, como é lugar comum nos demais setores. Os policiais têm necessidades peculiares, fundamentais ao desempenho de suas funções, mas são seres humanos, para os quais, também, o respeito é fator fundamental. Quem discorda?

SilviaFurtado

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