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Apocalypto: a violência dos sacrifícios nas sociedades da América Hispânica

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Apocalypto: a violência dos sacrifícios nas sociedades da América Hispânica

O filme apresentado por Mel Gibson, Apocalypto (2006), é uma soma de todos os elementos culturais das sociedades que compunham toda a ampla civilização, que se estendeu pela vasta América Hispânica, até a invasão (descoberta/massacre/colonização) advinda do europeu.

Entre as civilizações da era pré colombiana o culto aos personagens metafísicos, mas que ainda assim, compunham o imaginário tangível do significado do sol, das estrelas e da lua, era administrado pelos homens santos.

Apocalypto se passa na península de Iucatã envolvendo a cultura Maia, pouco antes da invasão espanhola. O fato de ter todo o roteiro empregando o dialeto local, incluindo em grande parte de seu elenco atores da região, enaltece a história e o espirito de inclusão, tão carente nos grandes conglomerados de Hollywood nos dias de hoje.

A história é de sobrevivência em uma sociedade estrangeira, que preza pelo sacrifício aos deuses em uma assombrosa violência institucionalizada.

E toda a agressão e bestialidade que geralmente eram impostas aos membros de tribos forasteiras que eram caçados para tal intuito, ou aos soldados derrotados, tinham o propósito de amainar a fúria dos deuses em épocas em que as situações não eram tão favoráveis à sociedade.

Quando a seca em uma intempérie causada pela forte estiagem em épocas de sol forte extermina a vegetação e morre a colheita, ou, em épocas de incessantes chuvas ou de iminentes guerras, o sacrifício era a demonstração de penitência e de abstenção da própria vida em prol dos favores dos deuses.

Por regalias e benesses dos imortais, a violenta ação contra outras pessoas era determinada pelo sacerdócio. Ainda, quando ocupantes de outras vilas ou soldados inimigos eram postos no lugar devido, o de oferenda, oferecia o sangue impuro do derrotado ou do outro, que não era nunca semelhante, mas sim, menor em todos os sentidos.

Assim, valorizavam-se as oferendas. Os soldados tinham um peso maior, pois matava-se aos deuses um combatente que buscava pela força dominar a tribo, e pela força contraria foi vencido. Por outro lado, os citadinos de outras paragens eram tidos como bicho, sem raça, sem vontades ou receios; serviam apenas como coisa para o desígnio dos deuses, portanto; menor era a oferenda.

Ocorre que para chamar a atenção dos deuses para uma oferenda tão irrisória, somente seria possível pela força da cor, que vista do alto atiçaria a vontade dos eternos: a coloração do sangue.

Esse deveria ser espremido, esmagado, retirado e escrachado pelos degraus dos gigantescos templos, pois somente assim seria firmado pelos deuses. Uma vez a oferenda parca como um bicho qualquer, os grunhidos/gemidos de dor misturados à tonalidade e pigmento forte do sangue fariam os deuses desviar seus olhares/favores para a tribo em penitência.

Porém, quando a crise é tamanha e chega a abalar todas as estruturas da sociedade, rachando seus pilares e causando grande desconforto, era prudente substituir a oferta.

Virgens moradoras dos templos desde o início da vida, escolhida a dedo pelos sacerdotes, nobres soldados veteranos sem utilização mais para a guerra, pessoas viventes da própria vila, seriam escolhidas, nesta ordem, para realçar um sacrifício mais benéfico e sadio, para que melhor aproveitassem os deuses e dessa forma, afastasse sua ira, mas presenteando com sua boa vontade.

Apocalypto surge da palavra bíblica apocalipse, revelada por João, apostolo de Cristo, quando numa visão cedida por anjos na ilha de Patmos clareou sua mente para o porvir bíblico: a guerra de Deus contra os exércitos do mal e a seguinte destruição do iniquo. Ocorre que apocalipse significa desvendar, erguer o véu, demonstrar aquilo que está escondido ou que ainda não conhecemos.

Por esse motivo, apocapypto: depois de tanto sacrifício vem a demonstração do que não é habitual, ergue-se o véu e o novo mundo jaz a frente, boiando no mar em forma de montanha/caravela, trazendo do além-mares a real destruição.


REFERÊNCIAS

REDFIELD, Robert. The Folk Culture of Yucatan. Chicago, University of Chicago Press, 1941.

Autor

Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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