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Aquém da superfície: verdades e mitos da Deep Web

Por Bernardo de Azevedo e Souza

No início do mês de março de 2014, foi intensamente veiculado nas redes sociais um vídeo promocional de uma empresa até então desconhecida, chamada HUVr Tech. Na descrição constava somente a expressão “Belief”, sem maiores informações sobre o conteúdo. Ao abrir o link de acesso, o internauta se deparava, logo no começo, com a chegada de um DeLorean DMC-12, veículo produzido nos Estados Unidos, no início dos anos 80, que adquiriu status principalmente pelas aparições na trilogia Back to The Future (De Volta para o Futuro), dirigido por Robert Zemeckis.

O automóvel é conduzido até um estacionamento e, após a abertura das portas “asas de gaivota”, dele sai, em slow motion, ninguém menos que Christopher Lloyd, o ator que interpreta o Doctor Emmett Brown na saga de ficção científica. Com um sorriso estampado no rosto, Lloyd caminha portando consigo uma caixa preta com o logotipo “HUVr”. Um grupo de pessoas o aguarda e aplaude a chegada. O recipiente é então entregue ao famoso skatista Tony Hawk. O conteúdo é desvelado: trata-se do famoso hoverboard. O sonho de muitos jovens e adultos parecia ter, enfim, torna-se realidade. Em poucos meses a famigerada “prancha voadora” seria lançada no mercado mundial, para todos que almejassem adquiri-la.

Mas a reação inicial, de forma geralizada, foi de incredulidade. A despeito de todos os avanços tecnológicos dos últimos anos, não soava crível a possibilidade de “sobrevoar” diversos locais com tamanha facilidade. O vídeo, no entanto, era uma produção de alta qualidade e apresentava o design original do hoverboard. Além dos depoimentos de Tony Hawk e Christopher Lloyd, a propaganda também contava com as participações do músico Moby, do atleta Terrell Owens e do ator Billy Zane.

O internauta cético que procurasse maiores informações na rede logo encontraria o sítio eletrônico da empresa. Para além do enigmático sloganThe future has arrived (O futuro chegou) –, a página contava sobre a história do projeto, desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Física do Massachusetts Institute of Technology (MIT); mencionava alguns dos elementos empregados na confecção do equipamento (tais como bateria íons-lítio de alta potência) e também apresentava a equipe: cinco profissionais especializados em ciências de materiais, eletricidade e magnetismo. No website era possível ainda “baixar” dois modelos do equipamento, nas tonalidades rosa e cinza.

Tudo indicava que o futuro havia mesmo chegado e que, em menos de um ano, qualquer pessoa poderia adquirir seu próprio hoverboard. Contudo, não levou 24 horas para que a verdade fosse desvelada: HUVr Tech era uma empresa fictícia e o projeto, uma farsa. Tratava-se, em verdade, de um hoax. A expressão, oriunda da língua inglesa, significa “embuste” ou “engano” e é utilizada atualmente para representar toda e qualquer história falsa veiculada na Internet.

As finalidades dos hoaxes são as mais diversas, buscando desde a divulgação de correntes filantrópicas até a brincadeira pura e simples. A cada dia as farsas assumem novas formas e exibem novos contornos. À semelhança da Surface Web, que está repleta de hoaxes, a Deep Web também é palco para a propagação de mitos. Ainda que não se possa afirmar com exatidão a origem destas lendas, muito se afirma que teriam sido criadas pelos próprios usuários da rede profunda, no intuito de mantê-la para aqueles que realmente sabem operá-la. Nesse viés, enquanto alguns (poucos) usuários acessariam a Deep Web movidos pela curiosidade, muitos acabariam não a adentrando por receio de se deparar com materiais desagradáveis e ilegais, havendo a possibilidade de eventualmente ser objeto de investigação criminal e/ou responder como suspeito da prática de delitos. Há verdades e mitos que merecem, no entanto, ser desvelados, como veremos a seguir.

Mitos da Deep Web:

Bonecas sexuais humanas: o leitor que pesquisar sobre a Deep Web certamente encontrará a informação de que nesse ambiente seriam comercializadas, como bonecas sexuais humanas, crianças retiradas de orfanatos ou compradas de famílias miseráveis. Os sítios eletrônicos que fornecerem tais dados mencionam, ainda, que a confecção das bonecas seria realizada pelos chamados Dolls Makers. Um texto misógino, subscrito em tese por um suposto médico aposentado do Leste Europeu, adquiriu fama por narrar como seria feito o procedimento nas denominadas Lolita Slave Toys. Contudo, as informações constantes no teor do documento não são consistentes por diversas razões. Primeiro, porque com toda a estrutura das polícias internacionais e as agências governamentais dos Estados Unidos não foi descoberto, até hoje, qualquer indício da existência dos Dolls Makers. Segundo, porque a descrição do procedimento (amputação de membros, retirada de cordas vocais) demandaria, além de atento acompanhamento médico, um alto custo cirúrgico, com a aquisição de equipamentos e medicamentos, o que se confrontaria com o preço de comercialização das bonecas (entre 30 e 40 mil dólares). Terceiro, porque o usuário (não médico) a que se destinaria o brinquedo sexual teria de seguir um ritual de instruções para manter viva a boneca, o que seria inviável. Quarto, porque a “aquisição” de crianças e adolescentes nas instituições públicas não se trata de fácil tarefa, e sucessivos sequestros durante anos ou meses não passariam ao largo sem levantar suspeitas, principalmente diante da hipótese de que alguns orfanatos entregariam as crianças na residência dos próprios Doll Makers. Em suma, ainda que não se possa negar a existência do tráfico de pessoas para fins de exploração sexual, a existência dos Dolls Makers e das bonecas sexuais humanas se trata, até prova em contrário[1], de mito, pois a descrição, além de pecar em conceitos básicos da medicina, traz elementos exagerados que não se mostram plausíveis.

Lutas de “gladiadores”: Um dos serviços oferecidos, em tese, na rede profunda seria uma espécie de UFC de “gladiadores” (modern gladiator battles). Mediante o pagamento de bitcoins, os usuários poderiam acompanhar, via streaming, pessoas lutando com espadas ao vivo. O duelo somente cessaria quando um dos adversários tivesse sua vida suprimida. Não soa verossímil a existência destas lutas, seja pelo altíssimo valor cobrado, o que limitaria o “serviço” prestado para um seleto grupo de “clientes”, seja também pelo fato de que jamais foram identificados quaisquer indícios desta atividade pelas polícias internacionais até o momento. Alguns textos podem ser encontrados na Internet com os relatos mais absursos sobre estas lutas, inclusive mencionando que há uma versão de gladiadores versus animais. Até prova em contrário, tais lutas permanecem, portanto, no campo dos mitos da Deep Web.

Verdades da Deep Web:

Comércio de armas e drogas: Em novembro de 2014, foi realizada a Operação Onymous, por meio de uma cooperação internacional entre a Europol, o FBI e outras agências governamentais, resultando no fechamento de mais de 400 (quatrocentos) websites da darknet, que comercializavam armas, drogas e outros objetos ilegais. A operação, que resultou na apreensão de milhares de bitcoins, entorpecentes, ouro e prata, envolveu os Estados Unidos e alguns países da Europa, tais como França e Alemanha.

Pedofilia e pornografia infantil: No mês de outubro de 2014, foi executada, em todo o Brasil, a intitulada Operação DarkNet, com vias ao enfrentamento da pedofilia. Coordenada pelo Rio Grande do Sul, a ação contou com mais de 500 (quinhentos) agentes e ocorreu de forma simultânea em diversos estados da Federação, com a consequente prisão de mais de 50 indivíduos. Um dos presos foi condenado, em dezembro do mesmo ano, a 56 anos de reclusão pela prática dos delitos de transmissão, publicação e disponibilização de fotos e vídeos de crianças submetidas à violência sexual, aliciamento de menores para fins de ato libidinoso e submissão de crianças a experiência sexual dolorosa e abusiva. Outro indivíduo preso durante a operação foi condenado, em fevereiro de 2015, a 4 anos, 9 meses e 15 dias de reclusão por transmitir, trocar e divulgar na Internet imagens e vídeos contendo cenas de sexo explícito e pornografia envolvendo crianças, além de armazenar em mídias, em sua residência, o material pornográfico.

Canibalismo: A prática de canibalismo na Deep Web adquiriu notoriedade sobretudo a partir do caso “O Canibal de Rotenburg”. No ano de 2001, o alemão Armin Meiwes conheceu Bernd Jürgen Armando Brandes num fórum na Internet e os dois marcaram um encontro na casa daquele. Em março do referido ano, ambos se relacionaram sexualmente e, após o ato, Meiwes decepou o pênis de Brandes, com o consentimento deste. O órgão genital foi cozido, temperado numa frigideira e servido para que os dois comessem. Em seguida, Meiwes ceifou a vida de Brandes, decepou todos os seus membros e filmou todo o episódio. O corpo foi mantido em um freezer durante meses, sendo a carne ingerida em refeições diárias. Meiwes acabou sendo preso posteriormente pela prática e narrou todos os detalhes do ocorrido em extensa entrevista concedida no ano de 2007. O caso teve repercussão mundial e chegou a ser representado no cinema.

Na coluna de hoje procuramos apresentar algumas verdades e mitos da Deep Web. Há diversas outras questões relacionadas à rede subterrânea, havendo relatos de contratação de assassinos de aluguel e experimentos humanos, que não serão neste momento objeto de análise. Salienta-se que o acesso à Deep Web, por si só, não é ilegal: trata-se um ambiente de navegação que não sofre qualquer regulamentação ou controle até o presente momento. Em suas entranhas existem, sim, os mais diversos conteúdos ilegais, mas que, ao contrário do que se possa pensar, não “saltarão” (como pop-us) na tela do internauta.[2] Portanto, aquele imergir nas profundezas não se deparará involuntariamente com conteúdos ilícitos.

Na Deep Web, o usuário encontra somente aquilo que procura.

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[1] A ressalva é, a nosso juízo, fundamental. Isso porque, por mais absurdo que seja o conceito das bonecas sexuais humanas, e por mais desmedida que seja descrição da atividade, a história da humanidade já demonstrou o potencial lesivo do ser humano, não sendo descartável a possibilidade de que, num futuro próximo, seja desvelada prática semelhante.

[2] Destaca-se que, assim como há conteúdos ilícitos na Deep Web, há inúmeros pontos positivos nesta rede, como abordaremos na próxima coluna.

Autor

Advogado (RS)
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