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As 48 horas do Júri que parou uma cidade (Parte 1)


Por Jean de Menezes Severo


Fala meu povo! Acabo de chegar da cidade de Dom Pedrito, cidade do interior do Rio Grande do Sul, situada na campanha, na divisa com o Uruguai, acerca de quase 500 km, da capital Porto Alegre. Foi nesta cidade acolhedora e de população gentil e amiga que realizei um dos júris mais difíceis e complexos da minha vida e gostaria de dividir esta caminhada junto com vocês meus amigos leitores. Escrevi esta coluna durante a madrugada; estou há alguns dias sem dormir direito, mas tenho que dividir esta história verídica com vocês. Estão prontos? Vamos lá. Apertem os cintos e prendam a respiração!

Sexta-feira, dia 04/03/16, eu e meu colega, Dr. Gustavo Nagelstein, pai cuja história já foi objeto de colunas anteriores, rumamos para a cidade de Dom Pedrito. São quase sete horas de viagem; saímos de Porto Alegre às 23:00 horas, com previsão de chegada às seis da manha de sábado. O júri estava marcado para o dia 07/03/16, segunda-feira, às nove horas da manhã. Resolvemos chegar dias antes do julgamento para nos instalarmos no hotel e assim ficarmos completamente concentrados no processo e que possuía mais de cinco volumes.

Meu colega já trabalha no processo desde o ano de 2007, quando aconteceu o fato: a morte de um jovem após a final da Copa Libertadores da América, disputada entre o Grêmio e los hermanos do Boca Juniors. No agregado, deu 5×0 para os argentinos, para tristeza da metade azul do Rio Grande do Sul e felicidade da metade vermelha (na qual me incluo com todo orgulho). A vítima, após consumir uma quantidade considerável de álcool, começara a provocar torcedores do time derrotado, com palavras ofensivas e gestos intimidadores.

Agressões contra a vítima ocorreram, vindo ela a falecer. Foi instaurado o respectivo inquérito policial para apuração das prováveis autorias; alguns suspeitos são ouvidos e posteriormente presos; o processo tem sua instrução findada; réus são impronunciados e outros pronunciados; depois de quase dez anos, é realizado o júri, um julgamento que parou a cidade, quase que com transmissão ao vivo do plenário.

Apenas quatro acusados são pronunciados. Nossa defesa defende dois destes réus, os demais são defendidos por outros competentíssimos advogados, ou seja, estamos todos no mesmo barco enfrentando um julgamento midiático de alto grau de dificuldade.

Eu, pessoalmente, ainda não tinha tido um contato maior com os acusados, por isso, decidimos chegar mais cedo na cidade para conhecer melhor os acusados e estudar com mais profundidade a prova os autos.

Sábado à noite dia 05/03, após passarmos o dia preparando os detalhes do julgamento, fomos convidados para jantar na casa de um dos acusados. Aceitamos prontamente, assim, poderíamos conversar melhor com ele e explicar nossa ideia defensiva bem, como lhe transmitir uma palavra de fé e de força.

Chegando lá, fomos tratados com o maior carinho possível por toda a família do acusado; pessoas maravilhosas nos recebem de portas abertas, com um jantar digno dos Deuses e, devido a este tratamento acolhedor, começo a me afeiçoar ainda mais com aquela família. Um fato que me chama muito a atenção: O olhar do acusado para nós defensores. Ele, quando nos olhava, ficava com seus olhos marejados de água, como que pedindo ajuda e isso me fere a alma, ainda mais quando, na hora do jantar, o acusado tem uma crise copiosa de choro ao ver o filho ainda criança brincar. Gente, segurei-me naquele momento para não desabar em lágrimas e, só para situar os amigos leitores: a denúncia do MP é de condenação por homicídio triplamente qualificado, ou seja, uma pena que pode variar de 12 a 30 anos de reclusão.

Retornamos do jantar ao hotel e mal consegui dormir naquela noite. Pela manhã, o outro acusado nos pede para almoçarmos em sua residência. Iríamos conversar com o réu e seus familiares também para explicarmos como a defesa atuaria naquele processo. Fomos recebidos do mesmo modo que a primeira família do outro réu: com muito carinho e amizade, a tristeza e o medo também estavam presentes naquele acusado que não conseguia sequer sorrir; a família estava tensa, triste e angustiada. Eu e meu colega éramos suas únicas esperanças.

De volta ao hotel, minha cabeça não parava de pensar no julgamento e faltavam menos de vinte e quatro horas para seu início. Na cidade só se falava nisso; inclusive, previsões de tempo de condenação para os réus eram feitas nos bares da cidade.

Ambos os réus eram primários, de bons antecedentes, com residência fixa e trabalho lícito. Passados dez anos do fato, esperando o julgamento em liberdade, nunca mais foram acusados de qualquer ilícito penal. Ambos eram casados, com filhos menores para sustentar. Nossa missão era das mais difíceis, mas não pelas condições pessoais dos réus e sim pela pressão midiática que assolava a cidade. Era um júri quase que impossível de se pleitear uma absolvição ou outro resultado favorável à defesa.

Semana que vem termino de contar o final deste julgamento. Confesso que preciso urgentemente dormir um pouco, coisa que não faço há dias. O julgamento foi longo e cansativo, porém, não poderia deixar de escrever aos meus amigos leitores.

Até semana que vem com o fechamento deste júri!

JeanSevero

Foto: Pensante & Livre

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Jean Severo

Mestre em Ciências Criminais. Professor de Direito. Advogado.

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