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As antigas vendas de esposas na Inglaterra


Por Vitor da Matta Vívolo


Séries como Downton Abbey e diversos filmes de época (à la Orgulho e Preconceito, baseado na obra de Jane Austen) nos remetem a todo o glamour da história inglesa: vestidos de cores vibrantes e fraques impecavelmente vestidos, champanhes em taças, chás acompanhados de jantares suntuosos. É esta a memória coletiva que busca-se evocar quanto ao império britânico.

Felizmente, historiadores como Edward P. Thompson – em sua obra Costumes em Comum – nos rememoram que a cultura à superfície nas mídias e mentes geralmente remonta à antiga elite inglesa. A cultura dita “popular”, ou seja, compartilhada e exercida por camadas sociais em diferente nível hierárquico dos lordes e ladies, também é rica fonte no estudo dos costumes do passado e muitas vezes é esquecida. Dentre os episódios por Thompson investigados, um se destaca por sua peculiaridade: a venda de esposas.

Das últimas décadas do século XVIII até, ao menos, 1880, são registrados em jornais, periódicos, cantigas populares e processos judiciários cerca de quatrocentos casos de maridos vendendo suas esposas a outros homens. Não são casos de prostituição, muito menos de venda de “quaisquer” mulheres. São esposas sendo vendidas a novos maridos.

Uma corda, simbolicamente envolta na cintura ou no pescoço da dama, era guiada em sua ponta pelo esposo. Ambos caminhavam até um mercado ou taverna, ambiente de comércio popular da cidade, e iniciavam uma espécie de leilão. A multidão se reunia em torno do casal e elogios eram tecidos sobre a esposa à venda. Seus dotes culinários, sua higiene, seu apetite… Alguns comentários menos agradáveis também podiam ser tornados públicos – como o hábito de falar palavrões, de reclamar demais ou de estar acima do peso -, justificando assim o desejo de venda. Os lances eram dados, geralmente de maneira extremamente jocosa. Por fim, um cavalheiro à paisana – cuja presença já deveria ser previamente marcada – daria o lance final e se tornaria novo marido da dama.

Aos olhos desses sujeitos, esta era a forma mais simples e definitiva de separação. A ritualística (passos a serem seguidos formalmente), o ambiente público de comércio – no qual, de maneira degradante, podia-se também vender gado -, as testemunhas compostas por membros daquela comunidade, traziam ares de legalidade ao processo. Apesar de aparente complacência dos párocos e policiais das regiões, não deixavam de ser atos ilegais e criminosos. Quaisquer um desses “ex-casados” que buscasse contrair matrimônio em cerimônia oficial poderia ser acusado do crime de bigamia. As questões de tráfico humano nem sequer eram discutidas em âmbitos legais, mas escandalizavam a sociedade moralista de 1850:

“As classes mais pobres não tem nenhuma forma de divórcio. O homem rico realiza um novo casamento, depois de se divorciar da esposa na Câmara dos Lordes: o seu casamento novo é legal, os filhos são legítimos (…). O homem pobre realiza um novo casamento, sem ter se divorciado da esposa na Câmara dos Lordes; o seu novo casamento é nulo, os filhos são bastardos, e ele próprio está sujeito a ser julgado por bigamia (….). Eles nem sempre infringem a lei com conhecimento de causa – pois nada é maior do que a ignorância dos pobres a esses respeito. Eles acreditam que um magistrado pode divorciá-los, que uma ausência de sete anos constitui uma anulação dos laços matrimoniais, ou que podem dar um ao outro permissão recíproca para se divorciar. E entre parte das populações rurais prevalece a crença mais grosseira, de que um homem pode legalmente vender a esposa, e assim romper os laços da união! Eles acreditam em qualquer coisa, menos no que é fato – isto é, que eles podem fazer legalmente o que sabem ser legalmente feito nas classes superiores (…).”

O trecho acima, citado por Thompson (p. 342), é retirado de um tabloide da época. Percebamos o quão carregado de sentimento hierárquico e elitista é seu discurso. No entanto, ele revela aquilo que, para Thompson, é um importante cerne de análise: a forma popular de divórcio.

Costume que pode ser visto com ares de resiliência às tais “classes superiores”, é através dele que o desejo de separação e de razoável igualdade perante à Lei transparecem nas camadas populares. Estes “camponeses”, estes “pobres”, estes casais insatisfeitos, acreditavam que seu costume histórico e (por que não?) “folclórico” poderia substituir os obrigatórios e coercivos rituais legais. Obviamente era extremamente mais fácil a um homem da elite obter divórcio, dada sua condição privilegiada de visibilidade social e legal.

As Leis das Causas Matrimoniais, de 1857, estabeleceram pela primeira vez processos de divórcio secular. Rachel Anne Vaessen, historiadora dos estudos feministas, nos diz que “desde 1857, os dois métodos legais para dissolução de um casamento na Inglaterra eram divortium a mensa et thoro e divortium a vinculo”. O primeiro era fornecido por uma corte eclesiástica, essencialmente sendo uma separação de bens sem anulação do vínculo matrimonial (ambos não poderiam se casar novamente). O último seria um divórcio secular, completo, mas cujos trâmites envolviam petições ao Parlamento.

As esposas à venda, em ao menos um quarto dos casos registrados, haviam dado seu consentimento. O desejo de separação era mútuo e, em algumas vezes, o comprador já lhes era amante ou conhecido de longa data. Também existem alguns episódios em que membros da família (mães e irmãos) compraram suas familiares de volta, de forma a libertá-las do matrimônio indesejado. É uma abordagem interessante analisarmos que estas mulheres puderam se utilizar da técnica como forma de apropriação de seus corpos e direitos (mesmo que apenas reconhecidos pela comunidade à qual viviam). Aos olhos de vizinhos e familiares, o ritual da venda apaziguava as fofocas por ser “oficial”. Eram cenários diferentes uma esposa que “simplesmente” foge de casa ou uma que é vendida à sua liberdade.

Rachel Vaessen, no entanto, encontra uma interessante falta na análise de Thompson: o impacto psicológico e humilhante da experiência. O simples desejo de se divorciar pode revelar o quotidiano abusivo ou infeliz em que essas mulheres se encontravam diariamente. Além disso, ser levada de corda no pescoço pela praça pública, assim como fazia-se com o gado, não soa como vivência realmente agradável.

O costume da venda de esposas, portanto, nos revela não só mais um infame episódio da história da mulheres e sua opressão social, mas também as formas como puderam resistir dentro das ferramentas que lhe faziam disponíveis. Muitas vezes, é no seio do estudo das opressões que se revelam as pequenas resistências esquecidas, tão dignas de análise quanto os grandes jantares regados a champanhe francês que nos enchem os olhos de admiração.


REFERÊNCIAS

THOMPSON, E. P., Costumes em Comum. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

KENNY, Courtney, “Wife-Selling in England” in Law Quaterly Review, no. 180 4, 1929.

VAESSEN, Rachel Anne, Humour, Halters and Humiliation: Wife-sale as a theatre and self-divorce. Tese de mestrado. Burnaby: Simon Fraser University, 2003.

_Colunistas-VitorMatta

Autor

Historiador. Mestrando em História. Pesquisador com ênfase no Século XIX e Belle Époque.
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