ArtigosCriminologia Penitenciária

As mudanças da vida no cárcere determinadas pelo PCC (Parte 5)


Por Diorgeres de Assis Victorio


Dando continuidade ao artigo anterior, recebi a informação de que o G.O.E. (Grupo de Operações Especiais) tinha se “apoderado” do Setor de Cozinha da Unidade Prisional (depois nos contaram que os presos que lá estavam saíram correndo quando viram que tal grupo especial da polícia militar descia de rapel por dentro daquele setor). Nos disseram que os presos pareciam uma manada de elefantes correndo, atropelando tudo que encontravam pela frente. Também, imaginem só um grupo de pessoas descendo por cordas (rapel) com metralhadoras em punho e com seus rostos todos camuflados. Como muitos presos me disseram depois, aquilo foi a visão do inferno. Disseram que pensaram que eles iam descer atirando e metralhando todos que ali estavam.

“O estado, eis como se denomina o mais frio de todos os monstros. Frio até na mentira e esta é a mentira que brota de sua bôca (sic): “Eu, o estado, sou o povo…” Nada há maior sôbre (sic) a terra: Eu sou o chamado ordenador de Deus. Nêle (sic) tudo é falso, morde com os dentes roubados, o mordaz… O Estado está onde, bons e maus, todos se embriagam com o veneno: onde todos se descaminham: onde um suicídio lento e universal tem êste (sic) nome: “a vida” – assim escreve Nietzsche. (NOGUEIRA, Ataliba. O Estado é meio e não Fim. São Paulo: Saraiva, 1955, p. 8).

Uma boa notícia chega. Um dos reféns é liberto. Um senhor de quase sessenta anos é liberado em virtude de estar passando muito mal quando de refém. É o crime não perdoa crianças, mulheres grávidas e idosos. Afinal de contas todo “bom” criminoso que se presta sabe as 12 regras do bom bandido não é mesmo?

“5 – Respeitar mulher, crianças e indefesos, mas abrir mão desse respeito, quando sua vida ou liberdade estiver em jogo; (AMORIM, Carlos. Comando Vermelho. A historia secreta do crime organizado. Rio de Janeiro: Record, 1993, p. 319).”

Para nós isso era um bom sinal, pois era sinal que o Primeiro Comando da Capital estava recuando, na verdade pensei comigo que ao invés deles soltarem um refém quando o G.O.E. se apoderou da cozinha eles fossem matar os reféns, mas não, eles ao invés disso resolveram soltar um dos reféns. Eles sabiam que não iriam aguentar muito tempo sem alimentação, já tinha dada a ordem de cortar a água também.

Já havia se passado noventa e seis horas de rebelião, nós agentes penitenciários não aguentávamos mais aquela situação.

“Quem ousará duvidar que não sofre gravíssimo dano alguns até por nada menos do que 96 (noventa e seis) horas (!!) – aquele que se acha a mercê de criminosos de todas as espécies, dentro de um complexo penitenciário de alto risco, subjugado a toda sorte de acontecimentos, temendo pelas suas vidas, pelas suas famílias e filhos, enfim ??

Ninguém, absolutamente ninguém duvidará da resposta, seja o mais insensível dos cidadãos a ser indagado de tanto.

‘Fiado sem contar, evidentemente, que alguns dos lesados sofreram, sobre a dor emocional, também a física, porque lesados igualmente nesta proporção. (Apelação Criminal n° 483.283-3/5, da Comarca de Taubaté (V.D. Tremembé).

Outros reféns foram sendo libertados, o grupamento do batalhão de choque da polícia militar estava se preparando para invadir e tomar a cadeia para que assim nós, agentes penitenciários, pudéssemos verificar o que sobrou da Unidade Prisional, procurar armas de fogo, estiletes, drogas, Maria Louca (cachaça artesanal da cadeia), buracos nas celas, tuneis e presos mortos.

O “Choque” vai entrando na cadeia e a cada passo eles dão uma batida com seus cacetes em seus escudos, os cães são provocados a latir tudo isso faz parte da guerra psicológica. Ouve-se o brado do choque ecoar pelo corredor da cadeia. Presos fizeram barricadas com colchões e jogaram óleo de cozinha para que quem entrasse caísse.

Os primeiros lugares a serem verificados foram a Administração da cadeia. Não sei de quem foi a brilhante ideia de colocar a administração de uma Unidade Prisional em um local em que os presos tivessem acesso quando de uma rebelião, conclusão, os presos tiveram acesso ao cofre do Setor de Pecúlio e furtaram todo o dinheiro. Adentraram ao Setor de Núcleo de Pessoal e tiveram acesso aos endereços de todos os funcionários assim como aos números dos RGs, CPFs e etc., tudo o que um estelionatário precisa para praticar seus crimes.

Fomos seguindo mais para o interior da prisão juntamente como o choque e o grupamento do canil, víamos muitos presos correndo e tentando se esconder, mas nada passava desapercebido aos nossos olhos. O primeiro grupamento do choque ao adentrar ao Raio I (pavilhão) jogou algumas bombas de efeito moral e logo após os cães faziam guarda ao portão de acesso do Raio a Galeria. Dois policiais do Choque ficavam de posse de uma arma de calibre 12 próximo ao primeiro degrau da escada que dá acesso a Ala Superior do pavilhão. As horas foram se passando e foi determinado que os presos ficassem de frente ao paredão que faz fundo ao Pavilhão, todos ficavam sentados e nós agentes penitenciários começávamos a efetuar a “caça” de objetos proibidos. Todos esses procedimentos foram feitos nos três pavilhões, foram encontradas muitas facas, drogas, celulares e etc.

Encontramos um “tatu” (túnel) e lá dentro encontramos um corpo de um preso sem vida. Apresentava uma dezena de furos, lembrei-me do celerado que tinha sido por diversas vezes “furado” em minha frente, com certeza era o corpo desse preso.

Eis que chega a hora da alimentação. Um servidor veio empurrando um carrinho e nele havia lanches para serem servidos aos presos. Os militares do Choque nos mandaram fazer do seguinte modo, era para abrir a porta e eles ficavam em dois portando cada um uma espingarda calibre doze de cada lado da porta e nos diziam, pode abrir a porta e empurrar o carrinho para dentro. Me senti como que estivesse colocando comida para leões em uma jaula.

Os policais militares permaneceram por vários dias dentro da Unidade, enquanto a mesma era arrumada. Nos foi solicitada que fizéssemos uma “lista negra” indicando os presos que deveriam ser transferidos. A lista ficou grande, tendo em vista que o governo tinha reunido os piores presos do sistema prisional paulista em uma Unidade Prisional.

Resolvi procurar facas na cadeia, nisso como não temos uma ducha para tomar banho e etc., procurei um uniforme de preso e o coloquei. Como eu sabia que era comum os presos esconderem estiletes entre a laje e o telhado e eles tinham quebrados muitas telhas eu resolvi rastejar por esse espaço. Levei comigo uma faca e um pedaço de vergalhão para que se por ventura alguma ratazana “gigante” resolvesse me atacar eu teria como me defender e caso algum preso estivesse escondido ali eu poderia tentar ao menos me defender. Rastejei por toda a laje dos três Raios da cadeia e não encontrei uma faca. Isso me deixava muito preocupado, porque sabia que elas estavam escondidas em outros lugares e nós tínhamos que encontrá-las. Os policiais militares nos diziam que éramos loucos por trabalharmos naquele inferno desarmados. Eles tinham razão. Os mesmos permaneceram no interior da Unidade uns quinze dias, até que conseguíssemos arrumar as celas e grades para trancarmos os presos. Após isso, foi uma luta para a Direção conseguir algum agente penitenciário que aceitasse trabalhar no fundão da cadeia. Eu me propus a ficar como zelador do Raio II e lá permanecei por muitos anos.

No primeiro dia de trabalho sem a polícia militar os presos me perguntaram:

“Mestre e agora como que vai ser sem a polícia? (E davam risada)

Respondi que eu estava ali para trancá-los e que essa era a minha missão e que se fosse para alguém ali também me pegar como refém, me furar com estilete ou me matar eu não podia fazer nada, pois essa era minha profissão, mas eu já avisava que se me pegassem que fossem ligeiros porque eu sabia me defender muito bem.

Caros amigos leitores dou por encerrado essa história sobre as mudanças no cárcere determinadas pelo P.C.C. e espero que seja útil a academia. Abraços.

_Colunistas-Diorgeres

Autor

Agente Penitenciário. Penitenciarista. Pesquisador
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