• 15 de dezembro de 2019

Asa Branca e a crueldade nos rodeios

 Asa Branca e a crueldade nos rodeios

Asa Branca e a crueldade nos rodeios

Nos últimos dias, a mídia divulgou a notícia de que Waldemar Ruy dos Santos, o Asa Branca, maior locutor da história dos rodeios do Brasil, encontra-se em estado terminal, vitimado pelo câncer. 

O motivo de Asa Branca ser o tema da coluna de hoje é o fato de, ao mesmo tempo em que se diz arrependido de sua participação em espetáculos em que os animais eram maltratados por ele e pelos outros peões, com incentivo dos organizadores dos shows, revela fatos sobre os bastidores dos rodeios, onde fica evidenciado o sofrimento a que os animais são submetidos. 

Primeiramente cabe relembrar que o rodeio, assim como a vaquejada e expressões artístico-culturais similares, ganhou o status de manifestações da cultura brasileira e foi elevado à condição de patrimônio cultural imaterial do país, estabelecida pela Lei nº 13.364/2016. Além do rodeio e da vaquejada, a lei estabelece como patrimônio cultural imaterial do Brasil atividades como as montarias, provas de laço, apartação e provas de rédeas. 

Entretanto, para Martins (2009, p. 368),

aqui no Brasil, diferentemente do que dito por muitos, a prática do rodeio nada tem de cultural, tratando-se de uma cópia do modelo norte-americano, já que os primeiros bovinos criados por aqui eram da raça caracu, que são animais pesados e com enormes guampas, sendo impossível sua utilização para fins de rodeios. 

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) assinou em 17 de agosto, durante a 64ª Festa de Peão Boiadeiro de Barretos, um decreto que flexibiliza a legislação sobre rodeios e vaquejadas no Brasil e estabelece padrões de bem-estar para os animais utilizados em rodeios.  O decreto define que fica a cargo do Ministério da Agricultura avaliar os protocolos de bem-estar animal elaborados por entidades promotoras de rodeios e libera competições até então proibidas e alvo de contestação por parte de entidades protetoras de animais (BOLSONARO…, 2019). Complementa a Lei nº 10.519, de julho de 2002, que estabelece as normas de promoção e fiscalização da defesa sanitária animal nessas atividades. 

Com o decreto, Barretos e outras cidades passam a ter autorização para eventos como a Prova do Laço.

Além disso, Bolsonaro se colocou no mesmo lado de quem apoia festas de rodeio, afirmando que ‘não existe politicamente correto’ (LOPES, 2019). 

Porém, de acordo com Martins (2009, p. 368),

nos rodeios são utilizados bovídeos, equinos e até mesmo caprinos, todos expostos à pretensa dominação do ser humano, que utiliza diversas artimanhas e apetrechos para que o animal pareça bravio e então seja domado pelos peões. 

Voltando ao Asa Branca, ele corrobora a afirmação acima ao desabafar: “dos rodeios grandes aos pequenos, a festa era de alegria para o público, mas de dor e sofrimento para os bichos” (BATISTA JR., 2019, não paginado). Lembra, ainda, que os competidores usavam

um aparelho para emitir choques de 12 volts com o objetivo de fazer com que os bois saltassem de forma mais frenética, para garantir boas notas diante dos juízes. Havia também tropeiros que colocavam arames no sedém, a faixa de couro enrolada na região da virilha do animal, com o mesmo objetivo.

E complementa:

Eu via tudo isso na época, mas não me importava (BATISTA JR., 2019).

Tuglio (2006 apud MUNARI, 2019, p. 62) assim retrata a crueldade dos rodeios:

[…] os animais utilizados nos rodeios, na sua maioria são mansos e precisam ser espicaçados e atormentados para demonstrar uma selvageria que não possuem, mas que na verdade é expressão de desespero e dor. Para falsear a realidade e demonstrar um espírito violento inexistente, os peões utilizam-se de vários artifícios que, atrelados aos animais ou ao peão que os montam, ou não, causam dor e desconforto aos bichos, revelando cruel e intolerável insensibilidade humana.

Martins (2009, p. 369-372), em seu parecer sobre utilização de animais em rodeios, afirma que entre os instrumentos mais utilizados em rodeios para fazerem os animais corcovearem, podem ser apontados:

Sedém: é uma espécie de cinta de crina e pelo, que se amarra na virilha do animal e que faz com que ele pule. O sedém provoca muita dor, pois comprime a região dos vazios dos animais, na qual se encontram parte dos intestinos e “a região do prepúcio, onde se aloja o pênis.”

[…] Importante também dizermos que sedém macio, como o trazido no bojo da Lei n.º 10.519/02, não evita o sofrimento dos animais, já que a região onde são colocados são extremamente sensíveis, e, portanto, inócua essa tentativa de minimização dos efeitos de danos que os sedéns causam aos animais.

Esporas: as esporas são objetos pontiagudos ou não, acoplados às botas dos peões, servindo para golpear o animal (na cabeça, pescoço e baixo-ventre), fazendo, em conjunto com o sedém e outros instrumentos, com que o animal corcoveie de forma intensa. Além disso, quanto maior o número de golpes com as esporas, mais pontos são contados na montaria. Cabe frisar que, com ou sem pontas, as esporas machucam o animal, normalmente provocando cortes na região cutânea e perfuração no globo ocular.

Peiteira: consiste em uma corda ou faixa de couro amarrada e retesada ao redor do corpo do animal, logo atrás da axila. A forte pressão que este instrumento exerce no animal acaba causando-lhe ferimentos e muita dor também. E ainda na peiteira são colocados sinos, os quais produzem um barulho altamente irritante ao animal.

Martins (2009) enumera também alguns apetrechos e métodos para estimular as acrobacias dos animais, e que são utilizados nos bastidores dos rodeios, sem acesso visual do grande público. São eles, dentre outros: objetos pontiagudos; choques elétricos e mecânicos aplicados nas partes sensíveis do corpo do animal antes de sua entrada na arena; e terebintina, pimenta e outras substâncias abrasivas, que são introduzidas no corpo do animal. 

E, por fim, quando o animal já está velho ou cansado, golpes e marretadas na cabeça, seguido de choque elétrico, costumam produzir convulsões e são os métodos mais usados com a finalidade de provocar sua morte.

Concluo esta coluna afirmando o de sempre: não há justificativa plausível para que seres sencientes sejam cruelmente tratados – ou maltratados – em nome do entretenimento humano, num “espetáculo” bizarro como o rodeio. Infelizmente, os interesses econômicos ainda prevalecem.


REFERÊNCIAS

BATISTA JR., João. Asa Branca entra na luta contra rodeios. Veja [online], 4 out. 2019. Disponível aqui. Acesso em: 5 out. 2019.

BOLSONARO faz “campanha” em Barretos e assina decreto que flexibiliza rodeios. Fórum [online], Santos, SP, 18 ago. 2019. Disponível aqui. Acesso em: 5 out. 2019.

LOPES, Catarina. Em Barretos, Bolsonaro assina decreto a favor de rodeios. Metro1, Salvador, 18 ago. 2019. Disponível aqui. Acesso em: 5 out. 2019.

MARTINS, Renata de Freitas. Parecer: utilização de animais em rodeios. Revista Brasileira de Direito Animal, Salvador, ano 4, n. 5, p. 367-394, 2009. Disponível aqui. Acesso em: 5 out.. 2019.

MUNARI, Amanda Bellettini. Crise de percepção da crueldade animal no entretenimento: a posição do Supremo Tribunal Federal diante da farra do boi e dos rodeios. In: SCHEFFER, Gisele Kronhardt (coord.). Estudos criminais de direito animal. Porto Alegre: Canal Ciências Criminais, 2019. p. 59-67.

PORTAL CURTA MAIS. 1º Rodeio Show de Goiânia traz atrações musicais e competidores de todo o país; confira a programação. 2016. Disponível aqui. Acesso em: 6 out. 2019.


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Gisele Kronhardt Scheffer

Mestre em Direito Animal. Especialista em Farmacologia. Médica Veterinária.