• 1 de dezembro de 2020

Autópsia psicológica

 Autópsia psicológica

Autópsia psicológica

A autópsia psicológica é uma forma de avaliação retrospectiva de vítima de morte suspeita, que procura analisar o comportamento, as emoções e o histórico da vítima antes de morrer, com o intuito de identificar se a morte suspeita foi resultado de acidente, homicídio ou suicídio, ou ao menos chegar em/na maior probabilidade da causa.

Como envolve um método científico de avaliação psicológica, é necessário que, pelo menos, uma das pessoas envolvidas nesse trabalho seja psicóloga ou psiquiatra, tendo em vista que pode envolver análise de psicopatologia e diagnóstico, trabalhando lado a lado com o profiler se ele não for dessas áreas.


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Trata-se de um método de investigação que utiliza informações sobre a vítima para determinar características da personalidade com a intenção de compreender o que ocorreu e como ocorreu, por meio de técnicas desenvolvidas para isso.

Podendo ser utilizado principalmente no âmbito policial para melhor tipificar em compreender um crime, com o Criminal Profiling através da vitimologia e os conhecimentos da área, a autópsia psicológica serve para compreender as características da vítima e do meio através de análise da cena do crime; elementos documentais e de informações coletadas para concluir se houve crime ou não; que tipo de crime; e até adicionar possíveis transtornos ou doenças da vítima ligados ao ocorrido e que corroboraram com o fato, mas que seriam desconhecidos das autoridades sem uma profunda investigação por meio desses métodos e profissionais qualificados para isso.

Esse tipo de avaliação ocorre principalmente em casos de suspeita de suicídio, quando a história pregressa da vítima, além de toda uma gama de informações, possibilita uma percepção de como ela estava, entre outras coisas, momentos antes do ocorrido, permitindo, assim, um meio diferente de compreender a fenomenologia da morte e suas dinâmicas.

Existem também outros tipos de casos que podem utilizar a autópsia psicológica como de pessoas desaparecidas ou em coma. O que é relevante para a autópsia psicológica é compreender que esse tipo de método científico é feito quando a vítima não se faz presente e existe suspeita de crime violento ou os familiares, ou pessoas próximas, querem respostas sobre o que ocorreu.

Em relação aos familiares, isso fica bem claro em casos de suicídio, pois muitas vezes as pessoas próximas afirmam que não perceberam que a vítima estava prestes a cometer suicídio e sentem culpa por não compreender o ocorrido. Nesses casos essas pessoas procuram respostas além do que a polícia está apta a fazer e por isso procuram um parecer complementar.

Além disso, esse método também pode ser utilizado em assistência técnica, tanto da defesa como da acusação em casos que necessitem de provas técnicas para refutar ou comprovar informações que possam favorecer uma das partes em processos criminais, civis, trabalhistas e até previdenciários.

Entre os elementos abordados nos métodos de coleta e interpretação de dados estão os traços de personalidade, o estilo de vida pouco tempo antes da morte, possíveis experiências traumatizantes recentes e gatilhos, e a dinâmica familiar e socioprofissional a vítima.

Concomitantemente aos dados coletados na cena do crime, provas documentais e testemunhais, tudo o que é juntado passa por uma análise psicológica para compreender as dinâmicas do crime e poder fazer um parecer sobre o que realmente aconteceu. Quanto mais elementos forem juntados, melhor para um parecer mais completo.

Serve, inclusive, para melhor delimitação dos tipos de mortes que viram estatísticas e auxiliam na análise de estudiosos, de órgãos da segurança pública e da saúde, que por falta de uma análise mais profunda não possui números mais próximos da realidade, principalmente em se tratando de acidentes, dados esses que poderiam ser utilizados para trabalho de prevenção ao suicídio e de combate à violência, por exemplo.

Para o perfil criminal essas informações são extremamente relevantes, pois, em diversos casos, o que trazia a desconfiança de um acidente ou suicídio pode se tornar um homicídio e trazer informações essenciais para a elaboração do perfil criminal do agressor.

Ademais, o perfil criminal e a autópsia psicológica são métodos complementares que buscam investigar e encontrar respostas trabalhando principalmente com informações relacionadas com traços de personalidade e comportamento, tendo o profissional de Criminal Profiling o conhecimento necessário para isso.

É imprescindível para o profiler entender e trabalhar com a autópsia psicológica como complemento de seu trabalho, uma vez que serve para acrescentar e aumentar o seu ramo de conhecimentos para a prática de atuação envolvendo tanto a vítima quanto o agressor quando existem os dois.

Por fim, a autópsia psicológica é um método com uma visão científica inovadora e que assim como o perfil criminal, basta ter as informações necessárias e profissionais qualificados para auxiliar na melhor definição do que ocorreu. Na autópsia psicológica, alguns exemplos disso são claros, como uma morte que muitas vezes é confundida com um acidente somente com as provas físicas, mas que com essa análise retrospectiva demonstra ser de suicídio, ou a impressão de que alguém fugiu do seu meio, mas que na verdade desapareceu de forma suspeita, e até um coma que poderia ser de uma tentativa de suicídio, mas que na verdade foi uma tentativa de homicídio.


REFERÊNCIAS

SANTOS, Maria de Fátima F. dos. A importância da autópsia psicológica. Disponível aqui.

PAULINO, M. ALMEIDA, F. Profiling, Vitimilogia & Ciências Forenses, Perspectivas Atuais. 2ª Ed. Editora: Pactor, Lisboa, 2013.

Verônyca Veras

Especialista em Criminal Profiling. Advogada.