• 22 de setembro de 2020

Banquete macabro

 Banquete macabro

Banquete macabro. Este, sem sombra de dúvidas, é um dos casos mais “bizarros” que já tive conhecimento nessa minha vida profissional junto ao cárcere. E olha que já passei dos 22 anos “de cadeia”. Gostaria que, no mínimo, aposentássemos bem mais cedo, para que a prisionização e a despersonalização não acabe conosco. Mas isso é o sonho de todo “guarda de presídio” e está bem longe de acontecer. Sem mais delongas, vamos a artigo dessa semana.

Naquela época não existia um grupo especial para conter rebeliões nos presídios como existe hoje[1]. Então, como não existia esse grupo, nós éramos “escolhidos a dedo” para “colocar a cadeia em ordem”. Como o estabelecimento prisional que trabalho era o responsável por receber os presos que vinham do que eles chamavam de campo de concentração[2], os diretores das outras “cadeias” socorriam a nós.

Confesso que nós não tínhamos nenhuma preparação específica (formação acadêmica na Escola de Administração Penitenciária). Inclusive quando compareciam instrutores da polícia militar, eles nos ensinavam a nos defender com facas de cortar carne. Isso era motivo de gozações, pois nos dirigíamos a um depósito de facas encontradas nas Revistas Gerais da Unidade, e mostrávamos aos instrutores. Eles observavam que os estiletes artesanais feitos pelos presos muitas vezes tinham em média de 70 centímetros a 1 metro.

Então, eles nos diziam que, nesse caso, não existia defesa pessoal, e a única solução era correr para salvarmos nossas vidas. Nisso, dizíamos que se fossemos agir assim sempre que “aparecesse” uma “faca”, nós não iríamos trabalhar. Como dizem na cadeia, utilizando-se dos efeitos da prisionização, “faca na cadeia é mato” (empregam palavra “mato” para se referir a grandes quantidades).

Bem, nesse dia eu estava trabalhando no Raio II e, como estava acostumado a ver muitas mortes e facadas, a Diretoria ligou à Gaiola II, que dava acesso ao Raio em que eu me encontrava. Pediram para eu atender. Era para eu “descer”. Avisei o colega que estava trabalhando comigo que precisava descer. Lá na Direção, tomei conhecimento que a “Feminino” tinha “virado” (rebelião), e que eles queriam que eu fosse para lá junto com outros agentes com o objetivo de tentar colocar a cadeia no eixo.

Eu nunca tinha entrado em uma “cadeia de mulheres”. Assim, disse que antes de eu ir lá eu precisava me certificar que o Raio II estava “normal”, pois eu tinha acabado de soltar os presos e não tinha reparado em nenhuma anormalidade. Eles concordaram com meu posicionamento. Nisso, ao chegar ao Raio, fui conversar com o pessoal do P.C.C. Perguntei “como estava a cadeia” e se de tarde estava “agendada” alguma morte na arena.

Eu era bem direto com eles, afinal de contas, tempo na cadeia é vida. Eles riram e me disseram:

Mestre, a cadeia tá numa paz! Bem, essa tá, porque as das meninas viraram né?

Quem deu risada agora foi eu e disse que eles estavam sabendo antes de mim. Responderam:

Mestre, para virar qualquer cadeia tem que ter ordem de nós! (se referiam às ordens do Partido).

Certifiquei-me com outros presos (os línguas pretas – alcaguetes) de que eu poderia sair da Unidade. Não queria deixar o companheiro de serviço em uma fria, até porque os presos que estavam ali iam o “testar” de todas as formas inimagináveis. Avisei o companheiro que precisaria sair, mas que provavelmente iria voltar logo, e que iria solicitar que mandassem um outro guarda para não deixá-lo sozinho. Desejei a ele um bom serviço.

Fomos a tal cadeia das mulheres. Levamos um pedaço de malha de ferro ¾ para qualquer eventualidade, pois naquela época não existia cacete, tonfa[3] nem nada. Estávamos preocupados porque sabíamos que a taxa de pessoas encarceradas aidéticas, assim como portadoras de vários tipos de outras doenças (no caso das mulheres), era grande. Nosso receio era ser mordido ou arranhado por elas.

No caminho fui pensando como elas poderiam fazer “facas”. Lembrei-me dos aparelhos de barbear (com lâminas) e que poderiam ser utilizados em diversas formas como materiais cortantes. O combinado era que não poderíamos deixar a as detentas se aproximar muito porque poderiam esconder esses objetos embaixo da língua, nos cabelos e tentar cortar nossos pescoços.

Chegamos à cadeia. Foi muito interessante porque a Diretora da cadeia entendeu que não deveria muito ficar de “conversinha” com a gente. Ela estava certa, pois já sabia por qual motivo estávamos ali. Fomos ao local onde estavam as rebeladas. Eu gostava de nesses casos usar óculos escuros no rosto. Preocupava em prendê-lo bem. Gostava de usar porque os presos nunca sabiam para onde eu estava olhando, e nisso eu via sempre a preocupação deles. Meu rosto estava virado para um local, mas eu estava olhando para outro.

Ao adentrarmos no pavilhão, mais que depressa uma presa se aproximou. Pedi para se afastar para conversarmos, ela me perguntou:

O senhor é quem?

Respondi que era “guarda de presídios”. E ela voltou a me perguntar:

O senhor trabalha aqui?

Eu disse que não e respondi que trabalhava onde chamavam de “berço do PCC”. Notei a cara de espanto da mesma, saiu mais que depressa. Vi que no fundo do pavilhão tinha uma presa que estava de refém de outras detentas. De repente, uma presa se aproximou. Olhei em seu corpo, possuía mais pelos que eu nos braços (com certeza raspou-os muito para ficar assim), usava uma espécie de bigodinho e uma certa costeleta tentando dar características masculinas a sua face. Ela veio até mim e me perguntou:

O senhor é homem?

Respondi que sim e ela me disse:

O senhor é homem, mas eu sou mais homem que você!

Ela “pulou” em minha direção. Fui feliz, consegui ser rápido e com apenas um golpe ela estava ao chão. Nisso percebi que as presas conversam entre elas e resolveram se entregar e acabar o motim. Pedi para trazerem a presa que estava de refém. Trouxeram-me e a levamos a direção. Pedi permissão para consultar o prontuário daquela presa que tinha sido libertada das outras. A diretora permitiu e disse que era ótimo, e que, enquanto isso, ficássemos mais um pouco na cadeia. Era esquisito: eu nunca me acostumava com aquela situação de ir às outras cadeias quando rebeladas e ver o comportamento de outros funcionários e presos (as) enquanto nossa permanência no local.

Ao compulsar o prontuário penitenciário daquela presa, vi que ela estava encarcerada por força de apenas um mandado de prisão. Já estava condenada e sua guia de recolhimento estava anexada ao prontuário. Só havia assim uma execução de pena a ser cumprida. Sua folha de antecedentes não tinha outros inquéritos nem nada; não tinha praticado nenhuma falta disciplinar. Verifiquei no Boletim Interno da detenta: era uma “boa presa”, mas vivia no “seguro”. Fui ver o tal crime que ela estava cumprindo a pena…

Sem sombra de dúvidas: foi um dos crimes mais cruéis e bizarros que eu já me deparei nesses mais de 22 anos “tirando cadeia”[4]. O processo se referia a uma época em que a mulher estava “casada” com um homem e esse homem tinha um filho de um outro relacionamento. Com o passar do tempo esse relacionamento foi se ruindo e várias brigas foram acontecendo, ela era agredida, ameaçada e etc. Não tinha condições físicas de se defender. Naquela época não existia a Lei Maria da Penha, apesar de eu entender que, em diversos casos, na prática é ineficaz.

Seu marido possuía um filho de seis anos, uma criança que não gerava problemas. Bom, pelo menos é o que ela declarou no processo. Mas ela não aguentava mais essa situação com o homem que ela tinha escolhido para viver. Ela queria se vingar. E foi o que ela fez. Esperou ansiosamente um dia em que seu “amado” estava para a rua e se certificou que nesse dia ele iria demorar. Passado o dia todo, já quase chegando ao horário do jantar, eis que chega o “valentão” da rua e já constata um cheiro de carne assada no ar. Questionou a mulher:

Que cheiro é esse?

Ela respondeu que era um assado feito para ele, com muito amor. Ele, mais que rapidamente, dirigiu-se à mesa de jantar que estava posta e iniciou a refeição. Ficou maravilhado com aquela a refeição e questionou que carne era àquela. Nisso ela só deu uma risadinha e respondeu:

É seu filho que você acabou de comer!

Não precisei ler mais nada. Já tinha entendido porque a presa era tratada daquela forma na cadeia. Eu precisava dar uma volta na cadeia para poder “digerir” aquilo que eu tinha acabado de ler. Eu preferia ter ficado no pavilhão e ficar vendo as mortes, do que ter lido aquilo. Pedi a diretora para ir lá ao pavilhão das presas ver como tudo estava. Ela permitiu. Estava tudo dentro da normalidade. As presas passavam perto de mim e me cumprimentavam com a cabeça e diziam boa tarde. Nossa missão estava cumprida. Agora era retornar ao “Berço do PCC”.

Chegando lá fui ao Raio II e resolvi dar um “pião” (andada), pois ainda estava pensando no tal banquete macabro. Os presos do PCC vieram até mim, e me disseram:

Pô “Seu Jorge” o senhor nos abandonou o dia todo né? Mas a gente entende. O senhor foi lá na “casa das bonecas” desvirar ela né?!

E riram muito. E eu pensando que eles estavam “de chapéu atolado” (não sabiam do ocorrido) até os pés. Aí contei a eles do tal “churrasquinho”. Deram mais risada e me contaram que eles já tinham comido coração de inimigos. Mas churrasquinho dessa forma não. Disseram ainda que as “meninas” de lá era muito boazinhas e que lá na verdade estava precisando de alguém mais “firmeza” para “tocar” aquela cadeia, e que eles iam providenciar isso.

Disseram ainda que já sabiam do caso daquela mulher, mas que o tratamento deveria ser outro. Pensei que eles iam mandar matar a tal presa, mas mal sabiam que eu já tinha advertido a direção da tal penitenciária, que deveria transferir urgente aquela mulher porque corria risco de morte. Ainda bem que a direção tinha se comprometido a fazer o tal bonde (transferência).

Espero que esse artigo não tire o apetite de nenhum dos leitores. Até a próxima semana.


NOTAS

[1] No caso, atualmente a Secretaria de Administração Penitenciária possui o Grupo de Intervenção Rápida (GIR), criado em 2001, mas instituído nas unidades prisionais através da Resolução SAP-69, datada de 20 de maio de 2004. A mesma resolução criou a Célula de Intervenção Rápida (CIR), sendo após alterada pela Resolução SAP-155, de 19 de junho de 2009. A CIR tem como função atuar em rebeliões, motins ou em apoio aos demais agentes penitenciários nas revistas aos presídios.

[2] Art 11. O Primeiro Comando da Capital PCC fundado no ano de 1993, numa luta descomunal e incansável contra a opressão e as injustiças do Campo de concentração “anexo” à Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté (…) Requerimento de Informações nº 1874, D. O.E., Poder Legisl., São Paulo, 107 (93), 20 mai. 1997 -5) (grifo nosso)

[3] O bastão tonfa é um armamento individual, portátil, leve, resistente e durável, destinado ao uso DEFENSIVO nas ações de policiamento, podendo ser utilizado em ações de controle de multidões, obedecendo as peculiaridades da situação. Embora possua como característica básica a defesa, poderá ser empregado com técnicas ofensivas, sendo que as duas técnicas de emprego visam a inibir agressões à mão livre (socos, gravatas, estrangulamentos, agarramentos, etc.), contra chutes, agressores armados com materiais perfuro-cortantes (garrafa quebrada, canivete, faca, punhal, etc.). Fonte: Polícia Militar do Estado de São Paulo, Manual Técnico Bastão Tonfa, 1. ed., 2001.

[4]  Utilizo a expressão “tirando cadeia” porque, de certa forma, nós, agentes penitenciários, cumprimos pena junto aos presos, mesmo que de uma forma diferente. Somos submetidos a prisionização, despersonalização e todas as outras mazelas do cárcere. banquete macabro banquete macabro banquete macabro banquete macabro banquete macabro banquete macabro banquete macabro banquete macabro banquete macabro banquete macabro banquete macabro banquete macabro banquete macabro banquete macabro banquete macabro

Diorgeres de Assis Victorio

Agente Penitenciário. Penitenciarista. Pesquisador