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Black Mirror: a chantagem e o poder entre o impeachment e o golpe

Canal Ciências Criminais

Por Maurício Sant’Anna dos Reis


Apesar de pouco comentada, a série britânica Black Mirror, conjugando ficção científica e suspense, nos propicia uma excelente crônica política e uma grande análise do drama atual da sociedade. O sucesso da série, ademais, pode ser atestado pela promessa da Netflix em lançar ainda esse ano uma temporada com 12 episódios (o que é muito, considerando que a primeira e a segunda temporada tiveram apenas três episódios cada e que a terceira, nada mais foi do que um especial de natal) o dobro de todos os episódios das três primeiras temporadas) o que, se por um lado podem significar perda de qualidade pela quantidade, por outro, mais otimista, podem nos propiciar mais uma excelente produção original com selo de qualidade da Netflix (ostentado, para citar os exemplos mais óbvios que me vem à cabeça, por House of Cards e Narcos).

Uma característica da produção é que seus episódios não estão conectados por uma linha cronológica, ou mesmo sequencial, as personagens não possuem qualquer relação e até mesmo o local e o tempo não parecem ser o mesmo. A ligação entre eles se dá em um plano externo: em todos os episódios verificamos uma crítica brutal sobre a sociedade, mídia, consumo e, dentre outras, política. Do ponto de vista político, o maior destaque ao meu ver está no primeiro episódio da primeira temporada: “Hino Nacional” (2011). É sobre esse episódio que quero tecer algumas considerações hoje.

Em uma manhã o Primeiro Ministro britânico é acordado às pressas por sua equipe em vista de um fato gravíssimo: o sequestro da princesa de maior apelo popular no Reino Unido. Nessa oportunidade lhe é apresentado um vídeo em que ela, amarrada em uma cadeira e aos prantos, informa o sequestro e expõe as condições do resgate: para que libertem a princesa, deverão primeiro ministro, às quatro horas da tarde, em todos os canais de televisão manter relações sexuais com uma porca. Inicialmente incrédulo, a primeira reação é tentar evitar o vazamento sobre o sequestro e o inusitado preço do resgate, o que não será possível, uma vez que lançado no Youtube, o vídeo já contaria com milhares de acesso.

O serviço de inteligência confirma que de fato é a princesa que está no vídeo e a criptografia usada dificulta, se não impossibilita, o rastreio dos agentes. Em suma, a decisão do Primeiro Ministro se pautará em manter relações sexuais com uma porca e acreditar que assim a princesa será salva, ou rejeitar o grotesco resgate e correr o risco de ver a princesa com maior apelo popular do Reino Unida ser morta, sem motivo racional. Em suma, nenhuma decisão razoável é possível no horizonte de possibilidade do Primeiro Ministro; xeque mate para política.

Sem adentrar mais na trama, e evitando maiores spoilers, é possível que se trace um paralelo com o atual cenário político brasileiro. Um governo afundado em escândalos de corrupção que, apesar dos grandes avanços no campo social herdados do governo anterior, agoniza em sua popularidade, muito por conta da crise econômica instaurada, é colocado em xeque pela, até então docilizada, oposição. Nessa realidade, havendo ou não o impeachment da presidenta ou, golpe contra a democracia[1], não existe saída para o governo. Acossado pela chantagem institucionalizada e instigada pela manipulação popular promovida pelos meios de mídia de massa, exitoso o impeachment, a fratura na imagem dos atuais governantes estará indelevelmente registrada (ao menos até que se esqueça) na memória do povo. Inexitosa a manobra, estarão rompidas as já fragilizadas relações com o legislativo e impraticável, senão impossível será governar nos longos dois anos que martirizarão, mais uma vez o povo.

O abandono da política, no entanto, poderá trazer em seu vácuo espaço para perpetuação de práticas autoritárias. Afinal, se é verdade que hoje a democracia brasileira é pródiga em produzir presos políticos[2] e desrespeitar os mais caros direitos fundamentais, fato é que ainda é possível resisitir à essa opressão como o fazem entidades da sociedade civil organizada, coletivos populares e, em casos mais raros do que o desejado, instituições públicas. Instituído o regime autoritário, a polícia seguirá abusando de suas atribuições, juízes continuarão decidindo ao arrepio das leis e das normas constitucionais ou convencionais e advogados bajuladores, bem, continuarão bajulando; todavia, o espectro da resistência cairá na clandestinidade e a defesa de direitos hoje tão pouco compreendida, será considerada subversiva.

Aconteça, todavia, o que acontecer, o que temos hoje é a vitória da violência, do discurso do ódio e de intolerância. Não existe exemplo mais claro disso do que o muro erguido em Brasília para separar, à direita e à esquerda, manifestantes contrários e favoráveis ao governo. Esse reboot da guerra fria à brasileira atesta o perigo do futuro que nos será legado. Apesar de todo ódio, contudo, à espaço para manifestações de amor como o beijo sobre o muro do casal separado espacial e politicamente, mas não afetivamente. Que seja esse beijo o símbolo da resistência contra a opressão. Do contrário, aguardemos a porca.


NOTAS

[1] Dependendo do ângulo que se olhe, se da direita ou da esquerda, respectivamente.

[2] O caso Rafael Braga, então morador de rua que foi preso nas manifestações de 2013 pelo porte comprovado de desinfetante sanitário é, ao meu ver, o exemplo mais sintomático disso: preto, pobre não teve qualquer chance contra a seletividade covarde inequívoca do Estado.

MauricioReis

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Professor
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