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Eles não usam black tie e a criminalização do justo: a infâmia da greve

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Eles não usam black tie e a criminalização do justo: a infâmia da greve

Em 1958, Gianfrancesco Guarnieri escrevera a peça que ficou marcada por seu neorrealismo e pela incondicional arte de transformação do rudimentar para o cinema e teatro: Eles não Usam Black Tie. Em 1981, a obra foi transportada aos cinemas tendo o próprio autor como personagem principal nas telonas.

Numa síntese: a simplicidade, tanto da obra cinematográfica mesmo quando exibida em teatros, concedeu ao empreendimento um entusiasmo inaudito, pois tratava-se da vida comum do sofredor trabalhador brasileiro.

Pela primeira vez assuntos sociais que permeavam as dificuldades do proletário conhecido como “chão de fábrica” alcança tanto salas de cinemas quanto teatros Brasil afora.

Calcado por suas mazelas, Otavio, fatigado dos mandos e desmandos de patrões que só fazem enriquecer com sua força e sua necessidade em receber o simplório salario ao fim do mês, passa a se debater contra os empregadores fomentando entre os seus igualmente sofredores, revoluções que o levaram inúmeras vezes à cadeia, por vandalismo.

Antes mesmo do início de qualquer greve, somente os rumores já eram necessários para a criminalização de Otavio, que vivia em uma sociedade que convivia com a ditadura militar desde em 1964.

Nesses aspectos formadores da estrutura política nacional que se desenvolvia em partes em prol de um regime rígido, mas que também possuía seus próprios fantasmas, como as lutas de classes e o terror de um espectro que rondava pessoas como Otávio, a penalização era a única base concisa e consistente possível para infligir medo e pânico nos revolucionários porvir.

Nesse ponto, o protagonista da trama estava certo ao pensar que somente a luta e a paralisação de seu trabalho fariam o grande empresário e o País sentir aquilo que sentiam os grevistas no interior de suas simples moradias: o pânico da força do outro e o despreparo para lidar com a reivindicação do desigual.

Nesse ponto a citação de La Boétie em sua Servidão Voluntária é precisa: “o tirano tudo abate porque tudo teme”.

Foi o que aconteceu: a prisão, as torturas e a marcação dos trabalhadores grevistas pelos mecanismos do sistema penal e pela seletividade dos postos de trabalho que não mais empregavam aqueles que se rebelaram contra as barbaridades do sistema.

Contudo, Eles não Usam Black Tie pode ser equilibrada pelas dificuldades que a família do personagem principal tinha, entre elas, um pai dedicado, mas considerado líder das revoluções em prol do assalariado, e por outro lado, seu filho prestes a se casar com sua noiva que aguardava o primogênito, amedrontado pela perda do emprego em caso de envolvimento nas balburdias de seu velho. Como, sem salário e serviço, levaria para frente sua família que estava em formação?

Só que sua esposa concordava com o sogro e não pensava como o futuro marido; envolvendo-se nas greves e nos levantes, abandonando-o ao fim, bem como fez também seu pai.

O filho, alienado por medo, receio e pela aceitação cega de seu lugar distanciava-se do pai e da família, que seguia em marcha a luta contra uma tirania crescente nos anos 80.

De toda forma, a criminalização dos trabalhadores que reivindicavam melhorias é sensivelmente demonstrada em película e teatro realizada em plena atividade de uma ditadura militar que lutava em várias frentes na época e perdia sua força diante aos novos ares que eram importados de fora do País e transformavam o novo, bem como inflamavam os sentidos de libertação.

Todavia, criminalizar, prender e insuflar discórdia era a primeira razão de um direito penal do inimigo que enxergava terroristas todos aqueles que levantavam a voz contra um sistema que teimava no uso do medo e da força.

Dessa forma, todos grevistas que lutavam em prol da “minoria”, ou seja, daqueles operários viventes em insalubres olarias, fábricas e dos despojos dos grandes empresários, eram os opositores da lei e ordem atribuída pelo sistema governamental estabelecido e pelos cidadãos constituídos nesse sistema como a qualificação do bom e do justo.

O inimigo estava ali nas ruas carregando bandeiras, faixas e gritos de protestos contra os abusos das longas jornadas de trabalho, da ausência de horário para almoço, das extenuantes horas extra não pagas pelo patrão, dos míseros trocos que recebiam ao final de um cansativo mês.

O inimigo não usava, E NUNCA, usará black tie.

Ele se move em direção de seus direitos e ao encontro de um poder do Estado convocado para punir os menores e proteger aqueles que garantem a continuidade do sistema como está, incluindo gordas propinas em dinheiro ao alto comando cedidas por grandes empresários para que este aja sem pestanejar, em nome da ordem e progresso.

Nesse sentido, o inimigo, cansado e mal alimentado, com seu macacão e suas mãos sujas de graxa da sua laboriosa jornada, troca as chaves de fenda e martelos por um ideal que atinge a todos, num uníssono grito demonstrando ser maior do que o animal de carga que pensam que é.

Mas o proletário está abaixo de um poder estatal que enxerga sua política de higienização das ruas acima de tudo como um epiteto da lei e ordem, trazendo a violência de uma punição às grades do confinamento sórdido e letal onde se inicia a serrada marcação social: o primeiro desvio.

O debate de Eles não Usam Black Tie entre o individualismo e o coletivismo está nas entrelinhas. Na época se discutia como seria o mundo sem uma coletividade a qual fazer parte, segregado pela individualidade e pelo poder que cada um, ao seu modo, pode exercer.

É dessa forma que vigora o individual: entendendo que a luta dos outros é a luta dos outros e nunca chegará a ser a sua também. Percebendo que o direito penal e o poder de polícia devem agir contra todos os arruaceiros de forma enérgica pois aqueles direitos não fazem parte de seu rol de deveres para com os outros, pois encontra-se em um patamar acima.

As liberdades são postas de lado; não há direitos especiais nem ao menos o chamamento de leis que vigorem em favor dos grevistas.  Em Eles não usam Black Tie, num cenário militar e de supressão de quaisquer direitos, a greve nunca foi uma saída digna, sempre foi a entrada para o cárcere e para o sistema penal.

Pelas evidencias atuais fica claro que as situações se repetem e se prolongam no tempo, e ainda hoje, o inimigo dos empresários e dos estabelecidos NÃO usam black tie.


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Autor

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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