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Bob Irwin e a Páscoa Sangrenta de 1937


Por Vitor da Matta Vivolo


Sex sells”, nos ensina o famoso ditado americano. As relações entre erotismo e capitalismo midiático remontam a própria história dos meios impressos. Sabemos que o apelo sensacionalista por detalhes mórbidos e mixoscopia ainda persiste, basta sintonizar alguns programas da tarde na televisão, cujos casos criminais e escândalos da semana se estendem como pauta de discussão por horas a fio (muitos, inclusive, sem chegar a conclusão alguma); devidamente alternados por anúncios de produtos como vitaminas, iogurteiras e planos dentários. A audiência serve de fim aos meios.

Cerca de oitenta anos atrás, na páscoa de 1937, os tabloides norte-americanos deliciavam-se com um acontecimento que, aos seus olhos, era muitíssimo mais rentável do que ovos de chocolate: um triplo homicídio ocorrido na madrugada do dia 28 de março, em meio aos preparativos para a ceia pascoal, no apartamento da família Gedeon, localizado no meio de Manhattan.

Joseph Gedeon, um estofador imigrante, visitava a casa de sua ex-esposa a fim de passar o feriado com suas filhas. Ao adentrar o apartamento 316, encontrou sua caçula, Veronica, de 20 anos de idade, seminua e morta sobre a cama do quarto. Mary, mãe da garota, deitava numa poça de sangue, escondida embaixo do mesmo móvel. A polícia foi chamada, também localizando Frank Byrnes, pensionista, já sem vida em seus lençóis, aparentemente golpeado múltiplas vezes na cabeça com um instrumento pontiagudo.

A cena compunha material riquíssimo para o melodrama jornalístico típico de 1930: vegetais e o assado para o futuro jantar em família ainda encontravam-se semiprontos na bancada da cozinha, diligentemente organizados pela sra. Mary, dona de casa exemplar; e sua filha Veronica havia chegado de madrugada em casa, visivelmente embriagada (segundo vizinhos), acompanhada por um rapaz. Como se já não bastasse, descobriu-se que Ronnie (apelido de Veronica) trabalhava como modelo fotográfica para capas de “crime magazines”, revistas que publicavam contos e quadrinhos sobre crimes e horror, muitas vezes utilizando-se de poses sensuais.

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A perícia determinou que Ronnie havia adentrado o apartamento sozinha, deixando seu acompanhante na porta, despindo-se de seu casaco e vestido no banheiro. Lavou suas meias-calças de seda, deixando-as estiradas no canto da banheira para secar, besuntou o rosto de creme e aplicou bobes nos cabelos loiros. Somente vestida com suas pantufas, caminhou até seu quarto, onde sofreu uma pancada e caiu inconsciente, antes de ser estrangulada. Detalhes esses todos devidamente publicados, em narrativas que tornavam o assassinato um verdadeiro roteiro de filme noir.

Edições especiais sobre o caso pipocavam nos jornais novaiorquinos, Joseph Medill Patterson (do tabloide “News”) chegou a publicar um número cuja capa, contracapa, uma folha dupla interior (similar aos pôsteres de celebridades das revistas adolescentes atuais), mais cinco páginas, expunham diversas fotografias, alternando entre a equipe policial responsável pela investigação e ensaios fotográficos pessoais de Ronnie Gedeon. Nove das fotos da vítima eram nuas, seminuas ou vestida apenas com uma camisola transparente. Nas semanas seguintes, diversas colunas trariam um questionamento sobre a ética e os motivos de tal abordagem. Em plena depressão econômica, qualquer tentativa era válida na venda de jornais.

O sensacionalismo do assassinato de 1937 vai além… Após certa investigação, os policiais desvendaram o nome “Bob” nos diários da modelo. Casada aos 16 anos com um rapaz chamado Robert, a principal suspeita foi de que a anulação do matrimônio havia dado motivo a um crime passional. No entanto, o ex-esposo possuía álibi forte para noite do crime e aparentava realmente abalado com os acontecimentos noticiados pela mídia. Até mesmo o pai da garota foi tomado como suspeito e detido, sendo espancado na delegacia, em busca de uma confissão (no estilo mais estereotípico possível para os detetives dos anos 30). Enfim, certo escultor chamado Robert George Irwin destacou-se, por ter sido pensionista na casa dos Gedeon alguns anos antes. Além disso, um sabonete ligeiramente esculpido em contornos faciais havia sido encontrado na casa.

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“Bob” Irwin

Robert Irwin havia se tornado pensionista dos Gedeon, no fim de seus vinte e poucos anos, praticamente recém chegado a Nova Iorque. Uma infância conturbada, resultado de uma sífilis congênita (aos oito anos de idade) e o simultâneo abandono paterno, fez com que Irwin permanecesse anos de sua vida em instituições psiquiátricas. Sua sensibilidade artística o aproximou da escultura, sendo aprendiz de renomados astros como Lorado Taft, mas também causava acessos de mania e neurose incontroláveis. Em um deles, chegou a tentar decepar o próprio pênis por afirmar que seu forte desejo sexual o impedia de se tornar um artista completo.

Ethel, irmã mais velha de Veronica, tornou-se musa inspiradora de Irwin. Sua devoção a garota não era recíproca, apesar de haver grande carinho entre ambos. O escultor afastou-se da família conforme Ethel contraiu noivado com outro rapaz, casando-se logo em seguida. Apesar de despertar certa desconfiança em devidos momentos, os Gedeon jamais desconfiaram de Irwin. Tanto o psiquiatra de Robert, quanto sua musa Ethel diziam às mídias duvidarem de sua capacidade como homicida.

Três meses após sua fuga de Nova Iorque, impulsionada por seu nome e retratos circulando em jornais e revistas como principal suspeito, Robert – agora trabalhando em um hotel como barman – foi desmascarado por uma de suas colegas de trabalho, leitora das tais revistas, em Chicago. Decidiu, então, entregar-se, fazendo uma ligação ao “Chicago Tribune” que, obviamente, tomou seu contato como um trote. Insistente, contactou outro jornal, o Chicago Herald-Examiner”, que aceitou sua oferta. Irwin solicitava cinco mil dólares (e um terno branco) por um entrevista exclusiva na qual faria sua confissão. Diversos repórteres reuniram-se num quarto de hotel, ouvindo atentamente aos sórdidos detalhes do homicida e tirando diversos retratos seus. A polícia foi contornada pelos jornais de Chicago, que receberam em primeira mão a confissão e só posteriormente informaram as autoridades.

Robert Irwin havia visitado os Gedeon naquela noite. “Eu estava esperando por Ethel, ela que eu deveria matar para concluir meus planos”, disse enquanto esclarecia que a morte da mãe da garota deu-se por ela insistir que ele fosse embora, irritada com suas incessantes perguntas em relação à localização de sua filha (que nem sequer morava naquela casa). Para sua decepção, Verônica foi quem abriu a porta em seguida. “Eu não queria matá-la. Eu não queria matar toda a vizinhança, mas não tinha o que se fazer. Não queria machucá-la por ela ser bonita, eu odiaria destruir sua beleza”. O pobre pensionista, que era surdo, foi assassinado em seu sono para garantir a não existência de testemunhas.

O escultor foi condenado a 139 anos de prisão, em meio a diversas tentativas de sua defesa em comprovar insanidade. Todas foram rejeitadas, visto que suas faculdades mentais ao descrever os assassinatos soavam perfeitamente claras. Nenhuma jurada foi convocada, somente homens constituíram o júri. Detalhe que causou revolta nos jornais americanos, possibilitando maior visibilidade à presença de mulheres como juradas em julgamentos.

Até hoje o caso causa repercussão, sendo um dos episódios de 2015 da série “A Crime to Remember”, dos especiais do “Investigation Discovery”.

Os anos de 1930 são interessantíssimos por sua peculiar relação entre mídia e investigação policial. Não dispunham de tecnologias de rastreamento como as atuais, tendo de recorrer aos jornais a fim de compartilhar com o público leitor suspeitos e pedidos de ajuda e identificação. Não era incomum uma cena de crime ser visitada simultaneamente por fotógrafos forenses e jornalistas, cotovelando-se pelo melhor angulo dos cadáveres. Eticamente enuviados, os limites das publicações alimentavam a criação das donzelas sensuais indefesas como celebridades, já povoando filmes como King Kong ou Drácula. Erotismo, investigação e capitalismo andavam de mãos dadas.


REFERÊNCIAS

A Crime to Remember, 3a Temporada, ep. 4 “Such A Pretty Face”. Christine Connor, Investigation Discovery, 2015.

“Irwin, Slayer of three, gives up”, Chicago Tribune, 27/06/1937.

“Life on the American Newsfront: The Case of the Murdered Model”, Life Magazine, 12/04/1937, p. 31.

“Press: Murder for Easter”, Time Magazine, 12/04/1937.

“The Mad Sculptor Murders”, David J. Krajicek. Daily News, 25/03/08.

_Colunistas-VitorMatta

Autor

Historiador. Mestrando em História. Pesquisador com ênfase no Século XIX e Belle Époque.
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