• 10 de dezembro de 2019

Capitães da areia e a marginalização do indivíduo

 Capitães da areia e a marginalização do indivíduo

Capitães da areia e a marginalização do indivíduo

Escrito pelo baiano Jorge Amado em 1937, o romance narra as vidas de um grupo de crianças e adolescentes de rua em Salvador. Entre o numeroso grupo se destacam Pedro Bala, Sem-Pernas, Gato, João Grande, Boa Vida, Volta Seca, Professor, Pirulito e Dora, única garota a ser aceita por eles.

Meninos de rua, sem pais ou parentes vivos ou conhecidos, só resta aos garotos uma alternativa: o furto. O grupo fica conhecido como os Capitães da Areia e são demonizados pelos jornais da cidade. Mostrando já naquela longínqua época de 1937 a influência da mídia, o escritor inclui na obra trechos de jornais, que demonizavam o pequeno grupo como os maiores criminosos de toda a Bahia, uma crítica de Amado à forte influência exercida pelo chamado “Quarto Poder”, que impõem as suas narrativas como verdades absolutas:

CRIANÇAS LADRONAS

AS AVENTURAS SINISTRAS DOS ‘CAPITÃES DA AREIA’ – A CIDADE INFESTADA POR CRIANÇAS QUE VIVEM DO FURTO – URGE UMA PROVIDÊNCIA DO JUIZ DE MENORES E DO CHEFE DE POLÍCIA- ONTEM HOUVE MAIS UM ASSALTO

(…) Esse bando, que vive da rapina, se compõe, pelo que se sabe, de um número superior a cem crianças das mais diversas idades, indo desde os oito aos dezesseis anos. Crianças que, naturalmente, devido ao desprezo dado à sua educação por pais pouco servidos de sentimentos cristãos, se entregaram no verdor dos anos a uma vida criminosa. (AMADO, 1937, pg. 11). 

Capitães da areia

O mérito do romance é tratar seus heróis, ou anti-heróis, sem maniqueísmo. Os garotos não se enquadram como heróis ou vilões: são garotos de rua, furtam, cometem crimes, tratam as mulheres e meninas com violência. A violência sexual é comum entre o grupo: para não se tornarem vítimas, os garotos decidem ser agressores. É a regra das ruas: matar ou morrer. Como criaturas completamente marginalizadas, há poucas alternativas deixadas aos protagonistas a não ser o submundo dos crimes. 

Nesse cenário de profunda violência e marginalização, o padre José Pedro é um dos poucos adultos que se esforçam para aliviar a miséria em que os garotos vivem. Querido-de-Deus, João de Adão e Don’Aninha são outros dos adultos que ganham a confiança dos meninos. Querido-de-Deus é um capoeirista, que ensinou golpes de luta aos garotos. Don’Aninha é mãe-de-santo em um terreiro. João de Adão é um estivador do porto, com participação nos movimentos operários da cidade.

Mesmo nesse cenário de miséria, a lealdade começa a nascer entre os garotos. Um sentimento de amizade começa no grupo, alimentado pelos ensinamentos do padre.

Professor, apelido de João José, furta livros e tem talento para a pintura. Pirulito fica tão encantado com os ensinamentos do Padre José Pedro que decide se tornar padre. Volta Seca jura que Lampião é seu padrinho, e tem como objetivo encontrar o grupo do cangaceiro. Gato vive com a prostituta Dalva e se beneficia do dinheiro que ela ganha. Pedro Bala começa a ouvir estórias sobre seu pai, o Loiro, morto pela polícia em uma greve, e começa a se interessar pelo mundo dos trabalhadores do porto, influenciado também pelo amigo João de Adão.

Dora, uma garota de treze anos, perde tanto o pai quanto a mãe em pouco tempo, e vai parar nas ruas com seu pequeno irmão, Zé Fuinha. Para garotas pobres como Dora, há pouquíssimas alternativas: o casamento precoce, ser criada em casa de família, o que a deixaria ao alcance do assédio de patrões e filhos de patrões, ou a vida nas ruas.

Dora vai para as ruas e encontra acolhida entre os Capitães. Professor e João Grande são seus protetores, deixando-a fora do alcance do assédio dos demais. Pedro se apaixona quase de imediato por ela, chamando-a de sua noiva. A proteção do chefe dos Capitães faz com que ela permaneça no grupo e ganhe o respeito e até a amizade dos demais garotos. 

Nessa vida de furtos, logo os jornais começam a falar da nova garota do grupo; com grande visibilidade na mídia, os garotos são presos pela polícia. Pedro é mandado ao reformatório, onde sofre com surras e maus tratos, até conseguir arquitetar sua fuga. Dora vai para um orfanato de freiras.

O reformatório é mostrado como um pequeno presídio para menores: não há a menor possibilidade de um “menor delinquente” sair dali pronto para a vida em sociedade. Surras, maus tratos, violência entre os garotos, sexualização precoce, o local mais parece um pedacinho do inferno. A crítica social de Amado a essas “Febens” do passado é uma das marcas do romance, razão pela qual os jovens preferiam a vida nas ruas.

Embora a vida no orfanato tivesse menos violência que o reformatório dos garotos, Dora logo entra em depressão profunda. A garota é resgatada pelos seus protetores, os Capitães, e reencontra Pedro, que conseguiu fugir do reformatório. A doença já tomou conta dela: Dora morre ardendo em febre. 

A morte de Dora muda tudo: os garotos começam a deixar o trapiche, esconderijo dos Capitães. Professor logo parte para o Rio de Janeiro, onde faz sucesso como pintor; ele amava Dora e nunca a esqueceu.

João Grande decide se tornar marinheiro, e um dia parte em um navio, prometendo a Pedro Bala que eles voltariam a se ver.

Gato parte com Dalva para Ilhéus, que vive a febre do cacau, atraindo toda sorte de aventureiros; ele se torna um malandro, vivendo de pequenos golpes e de casos com prostitutas. Pedro pensa que, se seu amigo tivesse tido uma oportunidade, poderia usar sua inteligência para o bem, mas que oportunidades garotos de rua como eles tiveram?

(…) Pedro Bala o vê ir embora todo elegante. Pensa que se ele tivesse demorado mais algum tempo no trapiche, talvez não fosse um ladrão. Aprenderia com Alberto, o estudante, o que ninguém soubera lhe ensinar. (…). (IDEM, pg. 238).

Boa Vida também se torna um típico malandro: vive nas festas tocando seu violão e fugindo da polícia

Padre José Pedro ganha uma paróquia no interior e deixa os garotos; antes, consegue uma vaga para Pirulito na ordem dos franciscanos. O garoto segue sua vocação para a Igreja.

O destino de Sem Pernas é o mais triste: sem família, negro, manco, o garoto sempre tinha sido o mais sofrido de todos. Tinha ódio do mundo desde que apanhara da polícia certa feita; esse ódio nunca o abandonou. Um dia, em mais um furto que dá errado, fugindo da polícia, ele se joga duma altura fatal e morre à vista de todos, numa calçada das ruas de Salvador.

Volta Seca pega um trem e encontra o mítico Lampião: realmente o cangaceiro conhecia sua falecida mãe. Volta Seca se torna logo, aos dezesseis anos, um dos cangaceiros mais vorazes do grupo; quando é preso pela polícia, seu julgamento é um acontecimento:

Meses depois a edição se esgotou novamente, porque trazia a notícia da prisão de Volta Seca, enquanto dormia, executada pela coluna volante que percorria o sertão dando caça à Lampião. Anunciava que o cangaceiro chegava no outro dia à Bahia. Vinham vários clichês, onde Volta Seca aparecia com seu rosto sombrio. O Jornal da Tarde dizia que era ‘rosto de criminoso nato’.

O que não era verdade, como o próprio Jornal da Tarde noticiou tempos depois, ao relatar, em edições extraordinárias e sucessivas, o júri que condenou Volta Seca a trinta anos de prisão por trinta mortes conhecidas e provadas. No entanto, seu fuzil tinha sessenta marcas. E o jornal lembrava esse fato, repetindo que cada marca era um homem morto. Mas publicava também parte do relatório do médico-legista, cavalheiro de honestidade e cultura reconhecidas, já então um dos grandes sociólogos e etnógrafos do país, relatório que provava que Volta Seca era um tipo absolutamente normal e que se virara cangaceiro e matara tantos homens e com tamanha crueldade não fora por vocação de nascença. Fora o ambiente… e vinham as devidas considerações científicas.

O que aliás não despertou tanta curiosidade entre o público, como a descrição do belíssimo, vibrantíssimo e apaixonadíssimo discurso do doutor promotor público, que fizera os jurados chorar, e até o próprio juiz tinha limpado as lágrimas, ao descrever o doutor promotor, com sublime força oratória, o sofrimento das vítimas do feroz cangaceiro menino.

O público ficou indignado porque Volta Seca não chorou durante o júri. Seu rosto sombrio estava cheio de estranha calma. (IDEM, pgs. 228/229). 

Influenciados pelo estudante Alberto e por João de Adão, os Capitães começam a se interessar pelo mundo dos trabalhadores e suas greves. Pedro deixa os Capitães sob a liderança de Barandão. Torna-se, assim como seu pai foi, um conhecido líder grevista, um militante proletário.


REFERÊNCIAS

AMADO, Jorge. Capitães da areia. São Paulo, 1937: Círculo do Livro Ltda.


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Maria Carolina de Jesus Ramos

Especialista em Ciências Penais. Advogada.