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Uma carona para o inferno

Uma carona para o inferno

Fala moçada! Quinta-feira, dia de coluna. Hoje decidi escrever sobre um processo que atuei logo após a formatura. Trabalhei na defesa de um grande amigo e também advogado; inclusive foi ele quem me sugeriu escrever sobre o caso para a coluna de hoje.

Evidentemente, vou preservar seu nome, aqui chamado de F, um advogado muito conhecido e que atua exclusivamente no Direito Tributário e Empresarial. O cara é chique mesmo, mas, acima de tudo, meu grande amigo que passou maus bocados há cerca de muitos anos. Pois bem, coluna no ar!

Conheci F, no antigo curso pré-vestibular Mauá na cidade de Porto Alegre, isso na década de 1990. Escrevendo este artigo, percebi o quanto estou velho. O tempo é implacável, contudo, voltando ao meu brother, eu e F ficamos amigos logo de cara. Um homem alto astral, parceiro de fé, aquelas amizades para a vida toda.

F já vinha de uma família de advogados e prestava vestibular para a faculdade de Direito assim como eu. Ao final do cursinho, prestamos vestibular para instituições diferentes, o que nos afastou um pouco, todavia, volta e meia arrumávamos tempo de tomar uma cervejada e colocar a conversa em dia.

F e eu nos formamos no mesmo ano de 2003 e fizemos a prova da OAB na mesma época onde ambos fomos aprovados e assim nos tornamos aptos a trabalhar na condição de advogado.

Eu decidi atuar de pronto na área criminal, eis que sempre fiz estágio em escritórios criminais; F assumiu o escritório do pai atuando na esfera cível e comercial.

Recordo-me que já fazia alguns meses que nós não nos encontrávamos. Lembro que era verão, um calor insuportável em “Forno Alegre”, então, recebi uma ligação no meu celular tijolão Nokia e do outro lado da linha quem me ligava era meu camarada F apavorado, pedindo-me que fosse ao seu encontro, pois estava sendo preso.

Confesso que na hora até brinquei com ele, porque achei que fossem aquelas brincadeiras de amigo do tipo: “Fulano fui preso, vem me soltar”, mas logo a voz embargada de F me fez entender que não se tratava de uma brincadeira. A coisa era séria e eu realmente fiquei muito preocupado.

Perguntei a F onde que ele se encontrava. Saí do Foro Central e fui ao seu encontro. Ele me informou que estava sendo preso pela Brigada Militar em uma avenida de uma cidade da grande Porto Alegre.

Quando já estava próximo, F novamente me ligou e informou que já se encontrava na DPPA, apenas aguardando a presença do advogado para iniciar o flagrante.

Cheguei extenuado na delegacia. Já estava gordo há uns dez anos e não acreditei quando vislumbrei meu grande amigo ali preso atrás das grades. De imediato pedi para conversar em separado com F para entender aquela terrível situação. Eu conhecia o cara, de excelente conduta familiar, com vastos recursos financeiros.

O que será que ele tinha feito para estar ali?

F me contou que havia sido contratado por um cliente para acompanhá-lo em uma audiência no foro, assistindo-o em processo cível. O cliente inclusive buscou F no escritório e iria levá-lo de volta após a solenidade, porém, o cliente não havia lhe dito que o veículo era clonado e pior: ele mantinha dentro do veículo um 38 com numeração raspada e meio quilo de maconha. Resumindo: um “buffet” criminal para o delírio da autoridade policial.

O veículo foi parado em uma abordagem de rotina e logo os policiais perceberam que se tratava de um veículo clonado.  Daí, os milicianos dissecaram o veículo, encontrando a droga e a arma. O cliente de F logo confessou tudo e disse que F não sabia de nada, mas não adiantou.

Para a polícia, basta aquele ditadinho: Diga com que andas que eu te direi quem és. E assim F foi parar na delegacia de policia, não como advogado, mas sim como preso.

Achei que o delegado iria ouvir F como testemunha, eis que o cliente de F “abraçou toda a caminhada” e informou que F iria apenas o acompanhar em uma singela audiência. Ledo engano meu.

Delegado arrogante, ignorante, também indicou F no trafico e apenas me disse em tom irônico: Agora é com juiz doutor. O GOE já está vindo buscar seu cliente para que assim ele conheça as dependências do Presídio Central mais a fundo”. Dê poder ao homem e saberás quem ele é; aquele “delega” era o demônio em pessoa.

Semana que vem eu termino o artigo, mas já adianto que o pior para F ainda estava por vir!

Autor

Jean Severo

Mestre em Ciências Criminais. Professor de Direito. Advogado.
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