• 11 de dezembro de 2019

A atualidade da obra “Casa Grande e Senzala”

 A atualidade da obra “Casa Grande e Senzala”

A atualidade da obra Casa Grande e Senzala

Alguns romances se tornaram referência ao tratar, durante uma longa passagem de tempo, de toda a trajetória de uma família, um povoado, um país.

Érico Veríssimo nos trouxe “O tempo e o vento”, Gabriel García Márquez nos trouxe “Cem anos de solidão”.

Jorge Amado retratou com absoluta fidelidade sua Bahia, transformando os “meninos de rua” em heróis no clássico “Capitães de Areia”.

Lima Barreto transformou em protagonistas de romance personagens da periferia do Rio de Janeiro, antes das favelas começarem a se espalhar pelas capitais brasileiras.

Casa Grande e Senzala

Gilberto Freyre nos trouxe a história do povo brasileiro, no período colonial, em Casa Grande e Senzala, obra fundamental para a compreensão das consequências da colonização no panorama histórico, social e político do Brasil. O índio, o português, o escravo africano, a mulher, nenhum arquétipo escapou de sua rigorosa análise.

Lançado em 1933, a obra mais influente de Freyre logo repercutiu nos meios intelectuais e acadêmicos, levando seu autor a ser reconhecido internacionalmente. Mais do que uma obra que retrata o Brasil colonial sob o aspecto histórico, a análise sociológica é fundamental, inclusive, para compreender o atual momento político do Brasil.

O autor, em sua extensa obra, dá maior importância à questão da escravidão e demonstra as chagas sociais, econômicas e culturais deixadas pelo modo de produção escravagista.

Primeiramente, convém enfatizar porque as populações indígenas foram “poupadas”, em parte, da escravidão, diferindo nesse ponto a história brasileira da verdadeira chacina perpetrada pelos espanhóis e outros contra os astecas e incas na chamada América Espanhola.

Um ponto primordial da colonização pelos portugueses era a importância da Igreja Católica dentro da estrutura da sociedade lusitana. Logo que a nova colônia começou a ser colonizada, a fim de evitar as barbáries que estavam ocorrendo em outras colônias, e também para evitar o excesso de liberdade nos costumes, a Igreja Católica começou a enviar os primeiros missionários, a fim de trazer os costumes católicos tanto aos colonos quanto aos indígenas.

Então, o autor enfatiza o papel dúbio exercido pela Igreja Católica: ao mesmo tempo que catequizou as populações indígenas, descaracterizando aspectos culturais importantes dos ameríndios, foi o escudo que protegeu, em parte, os indígenas da matança e da escravidão que poderiam vir do europeu invasor.

O autor destaca o quanto foi negativo, para a economia brasileira, a monocultura, primeiro do açúcar, depois do café. Sem investir em outros produtos, a colônia tinha de importar todos os outros produtos básicos, deixando, desde aqueles tempos, de ter uma economia forte e diversificada.

Na esteira da monocultura da cana-de-açúcar, chegaram os africanos para “trabalhar” nas lavouras. Centenas de africanos, vindos dos mais diferentes países, com culturas diferentes, tribos diferentes, linguagens diferentes, religiões diferentes, chegaram em navios abarrotados, tratados da chegada até à morte como animais. O autor ressalta em inúmeras passagens da obra o verdadeiro sadismo dos senhores de engenho no trato com escravos. Com as escravas, era ainda pior: violentadas pelos senhores e castigadas pelas senhoras.

Nos tempos coloniais, como forma de “justificar” a escravidão dos africanos, estudiosos pretensamente sérios e a sociedade europeia como um todo acreditavam na “inferioridade” da raça africana. Freyre repudia essa tese com veemência:

Superstição em que se baseia muito do julgamento desfavorável que se faz da capacidade mental do negro. (FREYRE, pg. 296).

Aliás, muitos escravos, arrancados de suas terras e de sua cultura, sabiam ler e escrever em sua língua materna:

É que nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez maior número de gente sabendo ler e escrever do que no alto das casas-grandes. (Idem, pg. 299).

O autor ressalta a influência da cultura árabe no caldeirão de culturas que formaram a atual identidade brasileira. Afinal, havia muita influência da cultura árabe na própria Portugal, e muitos escravos professavam a religião islâmica. No entanto, no Brasil Colonial onde predominava a religião católica muitos escravos eram batizados por influência de seus senhores.

Casa Grande e Senzala e Doze anos de Escravidão

O autor enfatiza as semelhanças históricas do Brasil com o sul dos Estados Unidos. De fato, quem comparar Casa Grande e Senzala com o narrado em “Doze anos de escravidão”, de Solomon Northup, percebe como o sistema escravocrata funcionava de maneira semelhante.

Em ambos, percebe-se a degradação física e moral deixada pelo sistema escravagista nas sociedades. A naturalização da violência contra o negro explica o racismo no Brasil e as leis “Jim Crow” nos EUA.

A sociedade patriarcal do Brasil colônia traz uma explicação razoável para a falta de apreço a uma sociedade democrática e igualitária percebida ainda hoje em muitos brasileiros. Num sistema em que o senhor de engenho tinha poderes de vida e de morte sobre escravos, filhos e esposa:

Por outro lado, a tradição conservadora no Brasil sempre se tem sustentado do sadismo do mando, disfarçado em ‘princípio da Autoridade’ ou ‘defesa da Ordem’. Entre essas duas místicas – a da Ordem e a da Liberdade, a da Autoridade e a da Democracia – é que se vem equilibrando entre nós a vida política, precocemente saída do regime de senhores e escravos. (Idem, pg. 52).


Esse duro costume modificou-se, porém, no século XIX. (…). Até então, esposas e filhos se achavam quase no mesmo nível dos escravos. (Idem, pg 421).

A situação das mulheres, mesmo as mulheres brancas, nessa sociedade colonial, patriarcal e profundamente atrasada é retratada por Freyre com pioneirismo e olhar crítico. Afinal, quando a obra foi lançada, em 1933, arrisco dizer que a situação das mulheres em matéria de liberdades civis não havia evoluído muito desde os tempos de Brasil Colônia.

A mulher brasileira conquistou o direito ao voto em 24 de fevereiro de 1932, ironicamente no governo de Getúlio Vargas. Ainda assim, mulheres casadas somente com autorização do marido, viúvas e solteiras com renda própria.

Resultado da ação persistente desse sadismo, de conquistador sobre conquistado, de senhor sobre escravo, parece-nos o fato, ligado naturalmente à circunstância econômica da nossa formação patriarcal, da mulher ser tantas vezes no Brasil vítima inerme do domínio ou do abuso do homem (…) (Idem, pg. 51).


À menina, a esta negou-se tudo que de leve parecesse independência. Até levantar a voz na presença dos mais velhos. (Idem, pg. 421).

A situação das mulheres brancas no Brasil colonial era, de fato, medonha. Sem educação, sem colégio, sem saber ler nem escrever, com uma obediência cega primeiro ao pai, depois ao marido. Quando mais cedo se casassem, melhor.

Foi geral, no Brasil, o costume de as mulheres casarem cedo. Aos doze, treze, catorze anos. (Idem, pg. 346).


Um fato triste é que muitas noivas de quinze anos morriam logo depois de casadas. (…). Morriam de parto (…). (Idem, pg. 349).

Gabriel García Marquéz, em seu clássico “Cem anos de solidão”, passado na fictícia Macondo, demonstra que o casamento infantil parecia ser algo corriqueira na sociedade patriarcal da América colonial, através da personagem Remedios, menina que aos nove anos é prometida em casamento a Aureliano Buendía, homem de 29 anos. A criança se casa e morre no primeiro parto:

Uma semana antes (…), a pequena Remedios acordou à meia-noite, ensopada por um caldo quente que explodira nas suas entranhas, com uma espécie de arroto rasgante, e morreu três dias depois, envenenada pelo próprio sangue, com um par de gêmeos atravessado no ventre. (Márquez, 1967, pgs. 87-8).

Conclusão

O Brasil atual, uma das sociedades com maior desigualdade social e econômica, é reflexo direto de sua história colonial. Os índios, as mulheres, os negros, continuam a ser tratados como inferiores, sem alcançar a plenitude de seus direitos constitucionais e civis. Pior, cada pequeno avanço dessas categorias é visto como um favor por uma elite política e econômica que não difere em nada do Brasil Colônia, descendentes da mentalidade dos senhores de engenho.


REFERÊNCIAS

FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. 25. ed. Rio de Janeiro. Editora José Olympio, 1987.

MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. 60. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2006.

NORTHUP, Solomon. Doze anos de escravidão. Título original: Twelve Years a slave. 1. ed. São Paulo: Penguin Classics. Companhia das Letras, 2014.


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Maria Carolina de Jesus Ramos

Especialista em Ciências Penais. Advogada.