• 14 de dezembro de 2019

O caso Abagnale: farsa e redenção

 O caso Abagnale: farsa e redenção

O caso Abagnale: farsa e redenção

Quando dois ratos caíram num pote de nata elementar seria imaginar o afogamento. Todavia, um deles superou-se e tanto nadou que transformou a nata em manteiga, excedendo ao outro e vendo o colega afogar-se.

A rudimentar história repetida algumas vezes no filme Prenda-me se for capaz, de 2002, significa a suplantação de um estado anímico para a vida em cores e pujante. Essas abundantes colorações estão lá fora, seduzindo e influenciando.

Frank Abagnale Jr. teve sempre a vida sonhada por muitos: uma família influente. Sua infância e adolescência foram preservadas por pais presentes em um mundo de grandes realizações.

Todavia, após ser descoberto pelo fisco norte americano, seu pai perde tudo. A sonegação de impostos teve seu prestigiado fim: a sanção que levou o pai de Frank a vender seus bens, perder sua estima e sua família.

Agora divorciados, o jovem de quinze anos se encontra numa situação inaudita, mas entre resolver por permanecer com pai ou mãe, prefere sair mundo afora em uma aventura de sobrevivência, crimes e farsas.

A história de Frank Abagnale Jr. e das ilusões que causou ao sistema bancário, de emissão de documentos e da verificação de autenticidade de certidões e registros, demonstrou como o sistema poderia ser tapeado quando a audácia, perspicácia, necessidade e dom encontram-se em um meio capaz de interpor-se à natureza dos atos criando uma realidade diversa: a farsa.

Ao sair pelo mundo, Frank lutou por sua sobrevivência no início de sua carreira, fraudando cheques de bancos, alterando seus números e assim criando uma nova verdade. Ao retirar o número correto da agencia bancária e sobrepujar por outro, o sistema levaria semanas para identificar a fraude, uma vez que o cheque levaria certo tempo para ser apresentado na agencia, agora alterada.

O sistema encontrou um desleal concorrente e este encontrou uma brecha. À época não haviam possibilidades tecnológicas para a busca e identificação de uma fraude desse calibre, considerada original até então. A data era 1964.

Só que Frank não parou por aí, continuou em seu mundo de mentiras fraudando documentos como a carteira de piloto profissional, diploma médico e de direito. Passou a imprimir cédulas de cheques, folhas timbradas que tornavam sua fraude obra de arte.

Durante cinco anos, Frank Abagnale Jr. possuiu diversas identidades, causando um rombo de quatro milhões aos cofres públicos americanos e internacionais.

Ao ser preso na França, mais de vinte países pediram sua extradição para que fosse julgado por crimes cometidos em suas fronteiras, todavia, extraditado aos EUA, foi sentenciado a doze anos de prisão pelas fraudes bancárias e por falsidade ideológica.

Só que o próprio sistema enganado e dilacerado pelo adolescente precisava dele.

Após certo tempo em prisão federal, veio a proposta: Frank ajudaria a agencia de inteligência do governo contra fraudes monetárias, mais precisamente na falsificação de cheques.

O adolescente, julgado como adulto por seus erros e crimes, deixado em prisão federal, seria o ideal para desmascarar as fraudes as quais acostumara-se a criar. Engendrar e transmutar o farsante em um detetive de primeira era a intenção, pois conhecia bem tanto os caminhos quanto os atalhos para a enganação e o falseamento.

Destarte, a redenção fez-se presente.

A pena não seria mais passar dias perdidos em uma cela de alta segurança, num sistema degradante da pessoa e de sua história.

Seria agora a hora para transformar sua prisão num mundo de conhecimento que se abria em sua frente; a ressocialização de seus conhecimentos era necessária e dessa forma, a inclusão de um jovem no mundo legal que jamais conhecera.

Conta a história que Frank, em uma de suas folgas na agência federal, dirigiu-se a um banco contando toda a sua narrativa de farsas em cheques, apresentando seu trabalho sujo, mas imperceptível para o sistema e para qualquer observador não treinado.

Disse também que somente ele poderia evitar fraudes e calotes, supondo uma possibilidade que se tornou real: Frank palestraria aos funcionários do banco ensinando como defender-se de falsários e de situações que envolvessem cheques duvidosos, em troca, receberia um pequeno pagamento, mas o banco teria que divulgar os seus serviços às outras agencias bancarias. Se não gostassem das aulas, não receberia nada e iria embora.

Dessa maneira, começou a fortuna de um homem multimilionário, pai de três filhos, casado e respeitado empresário do ramo da segurança monetária de grandes instituições financeiras, bem como, do Banco Central Norte Americano, onde presta seus serviços até os dias de hoje.

Se jogado numa prisão federal, Frank retornaria após cumprir sua pena integral de doze anos, fadado ao estigma de ex presidiário que acompanha aquele que por lá esteve. Certamente as coisas seriam mais difíceis, caminhando pelas ruas como mais um Jean Valjean atrás de uma redenção que provavelmente nunca viria.

Por mais que nadasse a nata nunca iria se transformar em manteiga e a remição poderia ser um sonho intangível e inimaginável.


Leia mais textos da coluna Crime, Arte e Literatura aqui.

Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.