• 31 de outubro de 2020

Caso Amanda Knox: vítima da mídia ou autora de um crime perfeito?

 Caso Amanda Knox: vítima da mídia ou autora de um crime perfeito?

Caso Amanda Knox: vítima da mídia ou autora de um crime perfeito?

O caso que chocou a Itália e tomou conta dos noticiários internacionais ainda é um mistério para muitos. Amanda Knox foi acusada pelo assassinato de sua colega de quarto, Meredith Kercher, e posteriormente condenada pela Justiça Italiana.

Amanda sempre afirmou ser inocente e mesmo após conseguir reverter seu julgamento e ser absolvida pelo Tribunal Italiano, ainda é alvo de especulações sobre o crime.

O CRIME

No dia 1º de novembro de 2007, em Perugia (Itália) a jovem britânica Meredith Kercher, com 21 anos de idade, foi encontrada morta em seu quarto na casa onde morava com mais três jovens (duas italianas – Filomena Romanelli e Laura Mezzetti e uma norte americana – Amanda Knox).

Quando a polícia chegou ao local do crime, Amanda Knox estava acompanhada de seu namorado, Raffaele Sollecito. Os investigadores encontraram o corpo de Meredith em cima de sua cama. A garganta continha um corte profundo e haviam sinais de agressões e violência sexual.

O cenário descrito pelos investigadores é assustador: as paredes estavam sujas de sangue e o corpo estava coberto por um edredom, ficando visível somente parte dos pés da jovem Meredith.

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O local do crime

Em depoimento, Amanda e Raffaele afirmaram que passaram a noite do crime na casa de Raffaele e pela manhã do dia 02 de novembro Amanda foi sozinha até sua casa para tomar banho e pegar mais roupas.

Após tomar banho, Amanda se deparou com a porta do quarto de Meredith trancada, motivo pelo qual resolveu buscar seu namorado para ajudá-la a abrir a porta. Não conseguiram. Foi aí que decidiram chamar a polícia para verificarem o local.

A VÍTIMA

Meredith Susanna Cara Kercher nasceu em 28 de dezembro de 1985 em Londres (Inglaterra). Filha de John Kercher (jornalista) e Arline Kercher (dona de casa), Meredith teve uma criação modesta e sua família não possuía grandes posses.  

Mudou-se para a Perugia cerca de um mês antes de seu assassinato para iniciar um intercâmbio na Universidade de Perugia, conhecida na região por acolher alunos estrangeiros.  

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A vítima Meredith Kercher

A jovem dividia uma casa localizada na Via Della Pergola com outras três estudantes e era conhecida por seu jeito cuidadoso, inteligente e popular.

Eram comuns os desentendimentos entre Meredith e Amanda Knox em razão da desorganização do ambiente, mas nada que tornasse o convívio entre as duas insuportável ou as fizessem rivais.

À primeira vista Meredith não tinha inimigos, motivo pelo qual a polícia descartou de pronto a hipótese de vingança ou algo do tipo.

AS ACUSAÇÕES

Amanda Knox e Raffaele Sollecito eram os únicos no local do crime quando a polícia chegou. No documentário Amanda Knox, lançado em 2016, a jovem afirma que assim que o corpo foi encontrado no local a polícia pediu para ambos esperarem do lado de fora da casa.

Talvez o que tenha despertado suspeitas para o casal de namorados desde aquele momento foi o fato de ambos manterem-se relativamente calmos e trocando carícias enquanto o local do crime era periciado.

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Raffaele Sollecito, o namorado de Amanda Knox

Além disso, desde o início o promotor do caso, Giuliano Mignini (que chegou ao local do crime poucas horas após) cogitou a hipótese do crime ter sido cometido por uma mulher, pois segundo ele “Quando a assassina é uma mulher, tende a cobrir o corpo de uma vítima mulher. Isso nunca ocorreria a um homem”.

Certamente os dois argumentos iniciais são bastante rasos e insuficientes para cometer uma acusação tão grave. As investigações continuaram.

Após a realização da perícia no corpo de Meredith, foi constatado que havia de fato ocorrido violência sexual contra a jovem.

A partir de então as especulações sobre o caso tomaram maiores proporções, de maneira que os grandes tablóides mundiais começaram a vincular o cometimento do crime ao uso de drogas e práticas de orgias que fugiram do controle.

O fato de Amanda ter permanecido cerca de cinco dias na casa de um rapaz que acabará de conhecer, alimentou a ideia de que a jovem estadunidense era promíscua e libertina demais. Chegou a ser chamada pela mídia Italiana de “fria e assassina” por sua postura frente às câmeras.

Outro fato que chamou bastante a atenção dos investigadores foi que, quando Amanda foi chamada na casa onde morava com Meredith para verificar se faltava alguma faca na cozinha a jovem simplesmente começou a gritar e tampar os ouvidos ao olhar para a gaveta de facas.

Para o promotor do caso, naquele momento a jovem teria se lembrado de cenas do crime praticado por ela.

De fato, o argumento mais concreto que levou a prisão de Amanda Knox e Raffaele Sollecito no dia 06 de Novembro de 2007 foi uma faca encontrada na casa de Raffaele que continha no cabo o DNA de Amanda e na lâmina o DNA de Meredith.

O casal permaneceu detido sob o argumento de que soltos poderiam fugir do país ou atrapalhar as investigações. Naquele momento a polícia acreditava que na noite do crime Amanda teria planejado uma noite de sexo grupal na casa onde as jovens moravam e que Meredith não teria aceitado a ideia, motivo pelo qual foi estuprada e morta.

Além do casal, Amanda e Raffaele, o jovem Rudy Guede foi acusado de ter praticado o crime, pois segundo a perícia o DNA de Rudy foi encontrado no corpo de Meredith. Na sequência Rudy foi localizado na Alemanha e extraditado para Itália onde permaneceu preso desde então.  

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Rudy Guede é preso pelas autoridades policiais

Por fim, o dono do bar onde Amanda trabalhava, Patrick Lumumba, também foi acusado, pois em um de seus depoimentos a jovem americana afirmou ter visto Patrick na cena do crime.

Patrick chegou a ficar preso por alguns dias, mas foi solto logo após Amanda ter mudado de versão e dizer que havia se confundido no momento do seu depoimento.

Além disso, o álibi trazido por Patrick foi bastante convincente para polícia, que não conseguiu encaixar o proprietário do bar na cena do crime.

OS ACUSADOS

Amanda Knox nasceu em 09 de julho de 1987 em West Seattle, Washington (Estados Unidos), em uma família rica. Seus pais, Edda Mellas (professora de matemática) e Curt Knox (vice-presidente de finanças do Macy’s local), se divorciaram quando Amanda tinha alguns anos.

No mais Amanda Knox era conhecida por seu jeito extrovertido e sedutor. Em suas redes sociais ostentava viagens e muitas festas. Mesmo assim, mantinha um currículo escolar exemplar.

A jovem estudou linguística na Universidade de Washington e mudou-se para Itália em meados de setembro de 2007 para realizar um intercâmbio e estudar na Universidade de Perugia por cerca de 10 meses. Já em Perugia, conseguiu trabalho de garçonete em um dos bares da cidade.

Cinco dias antes do assassinato de Meredith, Amanda havia conhecido em um recital de peças de Schubert o jovem Raffaele Sollecito. Na sequência, ambos sentiram uma afinidade instantânea e a partir de então iniciaram um namoro.

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Os três suspeitos (Amanda, Rudy e Raffaele)

O jovem casal teve um relacionamento intenso desde o início. Amanda passou os dias seguintes em sua casa e segundo os dois eles mal saíram da cama.

Raffaele Sollecito nasceu em Bari (Itália) em 26 de março de 1984 e estudava engenharia da informática na Universidade de Perugia. O jovem morava sozinho e era conhecido por seu jeito tímido e calado.

Já Rudy Guede não era Italiano. Nasceu na Costa do Marfim e foi adotado por um homem bem sucedido da região. Tinha 21 anos na época do crime e em sua ficha criminal constavam pequenos tráficos de drogas.

Rudy foi localizado devido às mensagens que trocou com Meredith na noite do crime combinando um encontro naquela noite. Rudy afirma que se encontrou com a jovem no dia do crime e que praticaram sexo, mas que não a matou. Segundo ele alguém entrou na casa enquanto ele foi ao banheiro e cometeu o crime. Ele não conseguiu identificar quem era e fugiu do local logo após.

OS JULGAMENTOS

O julgamento breve de Rudy Guede foi realizado em outubro de 2008 e a justiça Italiana o condenou a 30 anos de prisão pelo estupro e auxílio na morte de Meredith Kercher. Rudy continua negando que tenha matado a jovem, e após recorrer conseguiu diminuir sua pena para 16 anos, segue preso na Itália.

Já Amanda e Raffaele foram levados a júri em dezembro de 2009, sendo condenados em 26 e 25 anos, respectivamente, pelo assassinato de Meredith Kercher.

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Amanda Know durante o julgamento

A reviravolta do caso se deu em 2011 quando foi julgado o recurso da defesa que culminou na absolvição do casal.

Contudo, em 2013 a justiça italiana cancelou a absolvição e pediu um novo julgamento. Em 2014 Amanda e Raffaele foram novamente condenados. Por pouco tempo.

Finalmente, em 27 de março de 2015 a mais alta Corte Italiana absolveu o casal das acusações e determinou o encerramento do caso.

AS FALHAS NA INVESTIGAÇÃO

A absolvição de Amanda e Raffaele fundou-se basicamente em falhas das investigações realizadas pela polícia italiana.

Peritos apontaram que a quantidade de material genético encontrado na faca que continha o DNA de Amanda se mostrou insuficiente para provar que havia também o DNA de Meredith.

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Amanda esboçando reação de alívio ao tomar conhecimento da absolvição

Ademais, a defesa alega que o caso sofreu fortes interferências da mídia, pois as notícias negativas veiculadas sobre a jovem influenciaram tanto a polícia nas investigações quanto o poder judiciário no julgamento.

No documentário Amanda Knox, o repórter Nick Pisa, que cobriu o assassinato desde o início, defendeu a mídia no seu papel de informar, mas ressaltou:

“Eu acho que no fim das contas os responsáveis foram a polícia e a promotoria, eles cometeram erros crassos e se concentraram em teorias absurdas. Ficaram totalmente obcecados por elas”.

As possíveis injustiças cometidas no caso são tamanhas que Amanda Knox decidiu ingressar com uma ação contra a justiça italiana, que foi aceita pela Corte Europeia de Direitos Humanos em 2016.

A jovem alega que sofreu maus-tratos durante os interrogatórios sobre o caso. Para Raffaele Sollecito “Já passou da hora de as pessoas começarem a abrir os olhos para esse caso. Amanda foi interrogada por 15 horas sem advogado e com um tradutor não oficial. Houve abusos nunca divulgados pela imprensa”.

Para Amanda nada justifica o tratamento degradante que recebeu na Itália. Afirmou em uma entrevista a rede ABC: “Eu estava no tribunal quando eles me chamavam de diabo. Uma coisa é ser chamada de certas coisas pela mídia, outra é estar sentada em um tribunal, lutando por sua vida, e ver as pessoas te chamando de diabo”.

ENFIM, LIVRES

Atualmente Amanda Knox vive Seattle (Estados Unidos). Terminou seus estudos na Universidade de Washington e trabalha em uma livraria.

Em 2013 Amanda lançou sua biografia Waiting to Be Heard (Esperando para ser Ouvida, na tradução livre) e segundo o repórter David Willis da BBC, ela lucrou mais de 4 milhões de dólares com a obra.

No ano passado foi lançado o documentário Amanda Knox que reúne entrevistas com os acusados (Amanda e Raffaele), repórteres, promotores e peritos, todos envolvidos no caso. Os diretores do documentário Rod Blackhurst e Brian McGinn afirmam que não tiveram a intenção de esclarecer o caso, mas apenas mostrar o lado humano envolvido naquela trama ainda sem explicações.

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Recentemente foi lançado um documentário sobre o caso Amanda Knox

Já Raffaele Sollecito vive uma vida simples na Itália e diz ter sido vítima de um sistema judicial coberto de falhas que o tirou oportunidades de ter uma vida digna. Por este motivo ingressou com ação contra a Itália pleiteando uma indenização de 500 mil euros, que foi negada pela justiça italiana em junho deste ano.

Mesmo após a absolvição do casal Amanda e Raffaele o caso não foi desvendado por completo. Talvez, um crime perfeito e sem vestígios. Ou talvez, um ataque midiático em um caso que chamou a atenção ao ser transformado em uma trama digna de Hollywood.  

Mariana Andrade

Pós-graduanda em Direito Processual. Pesquisadora. Advogada.