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Causa e efeito: quando a culpa também é nossa (reflexões sobre rap, política e sociedade)

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Por Frederico de Lima Santana 

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Pouco se diz sobre o Rap por aí, mas ele tem muito a dizer a todos nós, ainda que ignorado. Outro dia resolvi ouvir uma música do MV Bill cujo nome é “Causa e Efeito” (acesse o videoclipe aqui). Ao parar e ouvir o MV Bill falando que “pouca coisa mudou. O responsável pela nossa tragédia não assimilou que pra mudar é necessário mais que um discurso”[1], parei tudo o que estava fazendo e passei a prestar atenção à letra. Soou como um soco no meu estômago, motivando então este escrito.

Muito se fala sobre política criminal de drogas, redução da maioridade penal, desmilitarização da polícia e outros assuntos polêmicos, todavia, apenas uma pequena parte da população se mobiliza efetivamente acerca dos temas buscando ir além do lixo cotidiano midiático que prejudica a produção de conhecimento e impede o amplo debate sobre todo e qualquer tema complicado ou delicado, citado aqui ou não. Conhecimento nunca é demais, principalmente quando o mesmo faz-se necessário para nossa evolução social, bem como para impedirmos abusos do Estado.

Neste sentido, certamente pode-se dizer que a parte negra e sofrida da história não só continua esquecida, mas é mantida na obscuridade com discursos e ações utilitaristas de membros do legislativo, judiciário ou executivo, além de grande parte da sociedade. Sim, comumente dizem que o problema é sempre do outro, nunca nosso, mas esse problema é seu também. Somos nós, sociedade, que aceitamos tais (in)consequências mantendo a elite minoritária branca dominante sem refletir sobre as diversas situações que atingem não só nossa individualidade, mas também toda, realmente toda coletividade.

Quando “elaboramos” um contrato social (ROUSSEAU, Jean-Jacques) concebendo assim o Estado como nosso administrador, foi “pactuado” que este serviria ao povo, a todos do povo, e não só às elites ou aos detentores do poder. Nesta feita, é impossível aceitarmos o direito burguês vigente, uma vez que, após as Revoluções Francesas (1789 – 1799), com a burguesia ascendendo à elite, bem como com toda força capitalista/liberal somada ao jogo, todo o Direito e a Política daí gerados foram e continuam sendo feitos visando tão somente a sua fatia maior do bolo, e não sua repartição igualitária.

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Para não parecer tão abstrato, a todo o momento vemos pessoas sendo assassinadas pelo Estado (Amarildo, DG, Cláudia, Eduardo e outros tantos…), manifestantes e músicos sendo comparados a “criminosos” (Caio, Fábio, Rafael, Elisa “Sininho”, a banda Planet Hemp, o músico Cert da Cone Crew Diretoria, Branco Melo do Titãs, Tim Maia e muitos outros…), vemos hospitais sem condições de atendimento, ausência de professores em escolas, assim como número insuficiente de escolas, presos sendo torturados inescrupulosamente pelo nosso Brasil, instituições públicas e privadas roubando dinheiro nosso até não poder mais e querem ainda mais punição? Como podemos ser tão sedentos por sangue assim e depois termos a cara de pau de irmos à rua pedir “impeachment” ou fazer o “símbolo da paz” se somos também colaboradores nestas vidas prejudicadas, violentadas, ceifadas ou interrompidas e nessa corrupção toda?

Somos apáticos, insensíveis, não conseguimos parar para pensar no problema dos outros, só conseguimos pensar na sexta-feira “com a cerveja gelada e o pagode comendo solto porque o bicho vai pegar”! Isso que querem de nós. Querem submissão. Aceitação total. Anestesia na veia. Querem que você aceite tudo sem reclamar para que possa ser você a próxima vítima e eles os vencedores de sempre. Isso é tão nítido que vemos seletividade em tudo (embora não seja tão perceptível assim para todos, mas desde já as cito pra mostrá-los que estão, sim, presentes cotidianamente na vida de todos nós).

Se todos pudessem visitar um presídio veriam quem são nossos presos, pois, sem demagogia, são quase todos negros, pobres e/ou “favelados” (“excluídos”). Nas escolas e faculdades, sejam públicas ou privadas, vemos que muitos dos “excluídos” não fazem parte do grupo. Aqui no Rio de Janeiro, quando pegamos ônibus, se vamos para a parte “rica” da cidade eles são os melhores, com ar condicionado e sem barulho, porém, se vamos pra parte “pobre” da cidade os mesmos não têm ar, são velhos, sujos, com bancos soltos… Se isso não é seletividade, o que é? No metrô, a linha que vai para os bairros “ricos” é rica em “gente ignorante que trata gente humilde de forma arrogante”[2] e a linha que vai para os bairros “pobres”, classe mantenedora de todo o sistema, “paga caro, com o corpo e com a alma, e entrega na mão de um Pastor pra ver se salva”[3]. São escravos disfarçados de assalariados. É isso que queremos manter?

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Não podemos esquecer que a política deve ser pensada para o povo, para toda e qualquer classe. Não esqueçam que sem nós eles não existem. Precisamos nos politizar. Não temos que nos adequar às leis, elas que devem ser adequadas a nós. Cumpre informar aqui que toda lei, querendo ou não, é política, uma vez que todo o seu processo de elaboração e todos os membros participantes são representantes, em grande parte do legislativo e em menor parte do executivo, dando assim ar político à lei stricto sensu.

Assim sendo, temos que exercer nosso direito de resistência, nossa liberdade de expressão, usar melhor as ferramentas e os mecanismos que temos em nossas mãos para alcançarmos o que lá atrás foi dito e até hoje não cumprido. Devemos parar de nos fazermos de vítima. A cada vez que fechamos os olhos, viramos o rosto para os problemas de todos, para políticas e leis que favorecem uma minoria e excluem uma maioria, estamos sendo coniventes com a situação e, com isso, tendo co-participação em todo esse sistema desigual.

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Se não acham suficientes os argumentos aqui narrados para uma efetiva evolução social, porque então teríamos tanta verdade no rap, música negra por excelência que fica, preconceituosamente, à margem da sociedade, e tanta alienação, decorrente da política e da grande mídia dominada pela minoria branca, tão bem recepcionada por nós?

Certa vez o Deputado Estadual carioca Marcelo Freixo proferiu algumas palavras para alunos de uma faculdade de Direito (assista o vídeo aqui). Ele dizia que optaríamos pela senzala ou pela casa grande, que dependeria de cada um de nós optar pelo lado do jogo, pelo garantismo ou utilitarismo e defender essa bandeira. Quanto mais passa o tempo, pela riqueza do conhecimento e pela beleza e sinceridade nos sorrisos, prefiro ficar na senzala.

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[1] MV BILL. “Causa e efeito”, in.: Causa e efeito. Rio de Janeiro, Chapa Preta, março de 2011. 1 CD. Faixa 1 (5’43’’).

[2] MV BILL, op. cit.

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[3] PLANET HEMP. “Stab”, in.: A invasão do sagaz homem fumaça. Rio de Janeiro, Sony Music, 2000. 1 CD. Faixa 5 (4’30’’).

FredericoSantanaImagem do post – “Grafitti morto”. Disponível em: http://bit.ly/1GkgKcL

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