• 24 de setembro de 2020

Cerol fino: a arte da decapitação

 Cerol fino: a arte da decapitação

Por Diorgeres de Assis Victorio


Mais uma vez estou em um artigo percorrendo o caminho de uma ciência transdisciplinar pouco enfrentada pelos “doutrinadores”, a Criminologia Penitenciária.

Muitos leitores nesse momento devem estar se perguntando sobre o que trataria essa Ciência, pois muitos infelizmente nem ao menos tiveram a oportunidade de terem dentre as disciplinas da faculdade onde estudaram a cadeira de Criminologia (em algumas tem a disciplina como optativa), mas há em nosso país poucos estudos relacionados a Criminologia aqui tratada, a Criminologia Penitenciária, nem na graduação, muito menos em “doutorados”. Poderíamos aqui tentar definir a Criminologia Penitenciária como uma ciência transdisciplinar, na qual o Direito Penitenciário é esmiuçado sob uma ótica mais aprofundada da Criminologia.

Feita essa pequena introdução (que entendo ser muito necessária) passarei agora a tratar de uma facção criminosa “nova” que vem sem sombra de dúvidas causando muitos comentários dentro do cárcere. Em outros artigos de minha autoria os senhores tiverem a oportunidade de terem um conhecimento relativamente básico sobre algumas facções criminosas do cárcere paulista: a SS (Seita Satânica), o CRBC (Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade), o CDL (Comando Democrático da Liberdade), o CJVC (Comando Jovem Vermelho da Criminalidade), o CDL (Comando Democrático da Liberdade) e a SN (Serpente Negra). Apresento aos leitores a facção criminosa paulista Cerol Fino.

É necessário primeiramente mencionar o que seria “Cerol”. Cerol, nada mais é do que um subterfúgio que algumas pessoas utilizam para que quando forem soltar pipas não venham a perdê-las por outros “soltadores” de pipa. Como isso ocorre? Bem, vemos que nos ares há diversas pipas (brinquedos feitos com varetas de bambus, cola, linha, papel ou plástico, etc.), onde é feita uma armação, possuem também uma “rabióla” feita com tiras de papel ou plástico que tem por finalidade dar mais estabilidade a pipa no ar)) arraias e outras variedades e há uma espécie de batalhas no ar e as pessoas quando não querem perder suas “pipas” moem vidros e misturam com cola e passam essa mistura na linha que é amarrada na pipa. Nisso travam batalhas no ar um tentando cortar a pipa do outro. E entendo que propositalmente esse é o nome escolhido por essa facção.

Formada no ano de 2013 essa facção criminosa é atualmente uma das mais temidas dentre as existentes no Estado de São Paulo, e esse fato se dá tendo em vista o modo como a mesma age para dar fim aos seus inimigos. Escolheram usar o nome de “Cerol Fino” tendo em vista o mesmo ter um grande poder de corte, trazendo inclusive várias mortes aos que passavam de motocicleta e esbarravam nessas linhas cortantes.

“A facção criminosa Cerol Fino, formada há cerca de dois anos nas prisões paulistas, é suspeita de assassinar, de modo cruel, dois rivais na Penitenciária 1 de Presidente Venceslau: além de sofrer estrangulamento, os detentos tiveram a região do abdome cortada à navalha e as vísceras arrancadas. Os dois casos ocorreram neste mês. Agentes penitenciários afirmaram que, desde sua criação, ao menos outros 11 homicídios foram cometidos pela facção em unidades prisionais do Estado (veja aqui).

Como todas as facções criminosas, lutam pelo domínio dos estabelecimentos prisionais em uma luta incansável pela hegemonia dos cárceres paulistas. São inimigos mortais do Primeiro Comando da Capital e de seus encontros pela busca do poder já ocorreram batalhas tão sangrentas, que sem sombra de dúvidas dariam um filme de terror dos mais fortes que já estamos acostumados a assistir.

“Ele foi decapitado. O coração foi arrancado. A barriga foi cortada e a cabeça, colocada dentro dela” (veja aqui).

No depoimento confirmamos a cena macabra:

Utilizei sim uma lâmina, o asfixiei e retalhei o corpo, arranquei a língua, pulmão, coração e a cabeça, em seguida coloquei a cabeça dentro da barriga da vítima, simbolizando meu sinal de luta entre as organização(sic) criminosa rival”, detalhou o reú(sic) com requintes de crueldade” (veja aqui).

Não sabemos ao certo qual seria o número de membros dessa facção criminosa, mas temos uma pequena noção:

“Ao menos 1.000 detentos já fariam parte da Cerol Fino. O líder é conhecido pelo apelido de “Lúcifer” (veja aqui).

Estaríamos diante de no mínimo dois crimes, um homicídio e um vilipêndio de cadáver.

Estudos demonstram a existência desse bando sedicioso em ao menos nove Unidades Prisionais paulistas que são as da cidade de: Presidente Venceslau, Serra Azul, Sorocaba, Tupi Paulista, Andradina, Balbinos, Guareí, Itirapina, Presidente Prudente, mas há boatos que estão se espalhando por outras cidades em busca de outros territórios prisionais.

Já alertei no artigo CRBC: Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade (veja aqui) que o Estado tem a “mania” de confinar facções criminosas inimigas em um mesmo presídio, provocando mortes e danos ao patrimônio público, é o mesmo caso quanto ao Cerol Fino.

“A penitenciária é considerada um “barril de pólvora” por comportar detentos de diversas facções em diferentes raios. Além da Cerol Fino, integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital), do CRBC (Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade) e da carioca ADA (Amigos dos Amigos) estão detidos no presídio.” (veja aqui)

Se os leitores prestaram atenção verificaram que em uma Unidade Prisional Paulista está presente uma facção criminosa carioca a ADA (Amigos dos Amigos) (um nome não muito sugestivo para uma facção não é mesmo?). Vemos aí presente uma demonstração clara da contaminação do sistema prisional brasileiro e a ineficácia dos Estados e da União em resolver tal problemática nefasta. Tratarei da ADA em um outro artigo, mais precisamente quando eu for tratar das facções criminosas do Estado do Rio de Janeiro.

Alguns membros da facção criminosa Cerol Fino têm tatuado em seu corpo a palavra “Lúcifer” (apelido de seu fundador e líder), simbolizando assim o estreitamento de seu vínculo criminoso. Como a Seita Satânica também possui alguns rituais.

O líder da nova facção criminosa seria conhecido como ‘Lúcifer’ e que seus membros realizam rituais satânicos semanalmente e logo após as execuções. O líder teria sido homem de confiança do PCC, mas acabou expulso da facção, como retaliação ‘Lúcifer’ iniciou a montagem de um grupo de execução. Ele foi decapitado. O coração foi arrancado. A barriga foi cortada e a cabeça, colocada dentro dela.” (veja aqui)

Eis aqui umas pequenas “pinceladas” sobre a facção criminosa Cerol Fino. Em outros artigos darei continuidade aos estudos de Criminologia Penitenciária tratando de outras facções e organizações criminosas do cárcere de nosso país.

_Colunistas-Diorgeres

Diorgeres de Assis Victorio

Agente Penitenciário. Penitenciarista. Pesquisador