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O cliente idiota e o policial esperto

O cliente idiota e o policial esperto

A advocacia é profissão para quem tem estômago. Quando se trata do âmbito criminal, então, o negócio fica ainda mais punk. Em certas ocasiões, o desrespeito lançado em face de alguns advogados é sutil. Já em outras, infelizmente esse desrespeito é nítido.

E antes de continuar esse texto, queira deixar registrado que na carreira policial há bons e maus profissionais. Como em toda profissão. Talvez seja uma visão romântica, mas acredito sinceramente que a grande maioria desempenha um primoroso trabalho na defesa da sociedade e no combate à criminalidade. Por esse grupo de policiais é que nutro um profundo respeito e admiração.

Infelizmente tratarei de um caso cujo vilão faz parte dessa pequena parcela de policiais que não respeitam o preso e nem mesmo seu advogado.

Vamos ao caso.

Certa vez eu estava ajudando a fazer uma mudança. Já tínhamos passado a manha inteira levando móveis para lá e para cá. Quando já era no final da tarde o telefone toca. Do outro lado da linha uma pessoa que estava com o familiar preso por suspeita de receptação.

Tomei um banho rápido, coloquei uma roupa adequada e rumei à delegacia. A prudência nos ensina que o ideal é ligar na delegacia antes e confirmar se o cliente deu entrada na central de polícia, porém na prática raras vezes o telefone da polícia é atendido…

Ao chegar, imediatamente solicitei que o policial verificasse se o cliente já havia dado entrada no distrito. Instantes depois ele veio confirmando que o cliente já estava lá. Até aqui tudo perfeitamente normal. Mas ele logo acrescentou que o procedimento iria demorar um pouco. Que eu poderia voltar depois de uma hora ou mais.

Falei educadamente (parece óbvio, mas quero deixar claro que em nenhum momento fui grosseiro) que iria esperar ali mesmo e gostaria de falar com o meu cliente para tranquilizá-lo.

POLICIAL: – Doutor, vou ter que falar com o delegado.

Peguei uma revista e comecei a esperar. Passaram-se uns 50 minutos e nada. Fui até o balcão e fiquei olhando para o policial. Ao perceber, ele perguntou de longe se eu já havia sido atendido. Fiz um sinal o chamando.

POLICIAL: – Pois não?

EU: – Estou aguardando sua resposta. O senhor disse que iria conversar com o delegado para que eu pudesse ter contato com meu cliente.

Ele se fez de desentendido e disse que tinha esquecido, mas logo iria conversar. Só que antes de sair ele diz:

POLICIAL: – É até melhor o doutor falar com o cliente antes do interrogatório. Vai que o idiota esquece o que é pra falar.

EU: – Amigo, você esqueceu o que iria fazer e me deixou aqui esperando por quase uma hora e nem por isso eu lhe chamei de idiota. Tenha mais respeito.

É como eu costumo dizer: nem sempre uma pessoa que está presa é ruim, do mundo do crime. Às vezes, estamos falando de uma pessoa de bem, que, por algum motivo, foi selecionado pelo poder punitivo do estado. O problema é que os profissionais que lidam todos os dias com a criminalidade partem do princípio que todo preso é “idiota”.

A questão é que todos os cidadãos merecem respeito, independentemente de ter cometido algum crime ou não. E situações como essas, de ofensas sutis, devem ser combatidas com veemência por quem muitas vezes é a única voz do preso: seu defensor.  

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Pedro Wellington da Silva

Pós-graduando em Ciências Penais. Advogado.

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