• 25 de setembro de 2020

Como a folia chegou ao Brasil e por que devemos falar sobre as marchinhas de Carnaval

 Como a folia chegou ao Brasil e por que devemos falar sobre as marchinhas de Carnaval

Como a folia chegou ao Brasil e por que devemos falar sobre as marchinhas de Carnaval

O Carnaval é uma das festas mais populares no Brasil e, para iniciarmos o presente artigo, é de suma importância salientarmos como a folia chegou ao país.

A história nos relata que seu surgimento se teve no período colonial, diante de uma brincadeira denominada “entrudo”, na qual a população ocupava as ruas e as casas da cidade, com a finalidade de sujar uns aos outros. Os mais brandos utilizavam água nas brincadeiras; outros, mais radicais, lama ou até mesmo urina. 

Ocorre que a conduta de adentrar nas casas sem permissão começou a incomodar algumas das famílias que formavam a elite da época,  que passaram a visualizar no jogo popular uma ofensa ao código moral e dos bons costumes.

Muitas famílias, inclusive, evitavam transitar pelas ruas no período festivo, para não participarem da manifestação popular. Foi, então, que ao ser proibido o entrudo em meados do século XIX, a população reprimida, ensejando festejar os três dias que antecediam a quaresma, passou a recriar a atividade de outras maneiras.

Hoje, o carnaval brasileiro, especificamente o que ocorre no Estado do Rio de Janeiro, é comemorado e apresentado orgulhosamente ao mundo de diversas formas: seja através do som das baterias das escolas de samba que competem no Sambódromo da Marquês de Sapucaí; seja nos blocos de rua, cuja manifestação popular é mais sanguínea; seja, para os mais reservados, nos tradicionais bailes de máscaras. 

De todo modo, o importante sempre foi  se divertir e festejar. No entanto, referindo-se à diversão, não podemos negligenciar as diversas alterações estruturais e legislativas ocorridas ao logo do tempo na sociedade brasileira, que passaram a tutelar direitos de grupos que anteriormente eram invisibilizados.

Tais mudanças fizeram com que a festa mais tradicional do Brasil, cuja expressão cultural se manifesta historicamente por marchinhas e fantasias, começasse a refletir os evidentes conceitos antiquados e discriminatórios incompatíveis com a sociedade atual.  

Obviamente, muitos foliões, por força do hábito, acabam não enxergando as condutas discriminatórias nos elementos que compõem a festa, mas é de suma importância que comecemos a validar a necessidade de determinadas concepções. 

Na marchinha “Dá Nela”, de Ary Barros, nos trechos “Essa mulher há muito tempo me provoca, dá nela! Dá nela! É perigosa, fala mais que pata choca, dá nela! Dá nela” e  “Agora deu para falar abertamente, dá nela! Dá nela”, encontramos um discurso extremamente violento contra a mulher, no qual, em tempos da Lei Maria da Penha – lei 11.340/06 , se torna ainda mais desprezível, sua cantoria.

Outra marchinha que também em sua letra menospreza, ridiculariza e coisifica a mulher é a “MARIA ESCANDALOSA”, interpretada por Dalva de Oliveira, no trecho “Depois a Maria cresceu, juízo, que é bom encolheu. É a Maria escandalosa, e muito prosa, é escandalosa, mas é gostosa”.

Já nas marchinhas “MARIA SAPATÃO” , no trecho “Maria sapatão, sapatão, sapatão. De dia é Maria, de noite é João”  e na “OLHA A CABELEIRA DO ZEZÉ”, na parte “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é” e “Será que ele é bossa nova, será que ele é Maomé. Parece que é transviado, mas isso eu não sei se ele é. Corta o cabelo dele!”, nos deparamos nitidamente com o desprezo as pessoas LGBTS, que sempre enfrentaram a ridicularizarão social por expressarem, simplesmente, suas orientações sexuais e identidades de gênero diversas.

Tamanha violência proferida nas marchinhas nos permite entender o porquê ocupamos, no ranking mundial, a vergonhosa posição de um dos países que mais mata LGBTS. Em meados do ano de 2019, o STF, através da ADO26, equiparou o crime de homotransfobia ao de racismo, na tentativa de reprimir a violência contra a comunidade, enquanto o legislativo se encontrar inerte. 

O presente artigo não tem por objetivo polemizar as marchinhas clássicas do carnaval nem tampouco discriminá-las; mas trazer a reflexão sob a perspectiva do Direito contemporâneo do quão inapropriadas e violentas muitas delas são, na tentativa de compreender o porquê uma parcela da sociedade, mesmo perante a letras tão preconceituosas, não se incomoda. 

No tocante à parcela que se incomoda, vislumbramos um novo termo surgir, o “politicamente correto” no meio social, no qual começou a propagar um posicionamento menos tolerante às opiniões que excluem e marginalizam determinados indivíduos, unicamente pelo seu gênero, sexualidade, cor ou classe social. 

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Portanto, não podemos negar que muitas das marchinhas aclamadas e passadas de geração em geração, como as supracitadas, sempre denotaram em suas letras um desprezo imenso a diversos grupos sociais; logo, não discuti-las é permitir, de certa forma, que conceitos retrógrados continuem sendo partilhados, mesmo que tipificados como crimes ou contravenções penais. 

Debatê-las é necessário para deslegitimar o pensamento segregador e intolerante inserido na construção social, tendo em vista, na próxima geração, a chance de exercerem a cidadania de forma inclusiva e, enfim, alcançarem os objetivos consagradas na Constituição Federativa do Brasil de 1988, em seu artigo 3°,  IV, dispõe sobre a a promoção do bem todos e sem preconceitos.


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Luan Milhoranse