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Lie to Me e a comunicação não verbal

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Lie to Me e a comunicação não verbal

Lie to Me (Engana-me Se Puder) é uma série de 2009 sobre uma empresa liderada por Dr. Cal Lightman em parceria com Dra. Gillian Foster, que trabalham detectando mentiras por meio da observação de microexpressões faciais e linguagem corporal das pessoas.

Na série, vemos Lightman como um psicólogo excêntrico que trabalha para várias entidades como a polícia, o FBI e empresas privadas, e consegue descobrir se alguém está dizendo a verdade ou não. Ele conversa e observa os movimentos da pessoa para compreender o que ela está verdadeiramente sentindo e, com isso, também consegue persuadir as pessoas a serem honestas com ele.

Assim, ele consegue descobrir a verdade e resolver diversos casos que necessitariam de informações dos envolvidos ou confissões de suspeitos. Essa faceta serve de auxílio para investigações e na série é muitas vezes crucial para a sua resolução.

Dr. Cal Lightman é baseado em Paul Ekman, psicólogo real que estudou as emoções e as expressões faciais e, ao visitar uma tribo isolada em Pápua-Nova Guiné, concluiu que as expressões faciais das emoções eram universais, decidindo a partir daí a se dedicar a compreender como as emoções e expressão faciais se complementam e como ele poderia utilizar esse conhecimento para analisar e compreender o que as pessoas estão sentindo, podendo também encontrar dissimulações no comportamento.

Comunicação não verbal

Paul Ekman escreveu diversos livros sobre as microexpressões, as emoções, as mentiras e como demonstramos isso na nossa comunicação não verbal muitas vezes de forma não voluntária. Esses estudos científicos possibilitaram que profissionais de diversas áreas da saúde e do meio jurídico pudessem perceber quando as pessoas estavam tentando mentir através da fala ou na forma de agir.

As microexpressões faciais, como explica Ekman em seu livro A Linguagem das Emoções, são

movimentos faciais muito rápidos, que duram menos de um quinto de segundo — são fonte importante de escapamento, revelando uma emoção que a pessoa está tentando ocultar.

A partir desses movimentos faciais que escapam, e que a própria pessoa não percebe, é que podemos analisar se o indivíduo está mentindo ou não, mesmo enquanto está em silêncio.

Ekman, inclusive, desenvolveu um sistema de codificação que explica cada microexpressão e avalia o seu significado dependendo da situação. Essa é a parte mais famosa do trabalho dele e que é mais significativo cientificamente, apesar de já existirem controvérsias sobre esse assunto. Apesar disso, tudo o que envolve a comunicação não verbal é significativo para analisar o que as pessoas estão sentindo e se estão mentido para o seu interlocutor.

Um bom exemplo para explicar como funciona na prática e em casos de investigação é perceber a dissimulação em um interrogatório na delegacia. A pessoa é ouvida e conta a sua versão dos fatos.

Além de avaliar simplesmente o que está sendo dito e confrontar com outras provas, é possível também analisar a comunicação não-verbal através de microexpressões faciais e movimentos do corpo, entender padrões de comportamento e usar tudo isso para compreender quando a pessoa está sendo franca e quando está dissimulando.

Isso pode ser importante quando um pai que matou o filho fala da relação dos dois tentando demonstrar afeto e não consegue. Ou quando alguém faz uma expressão de escárnio ao falar bem de uma vítima. São várias situações que podem trazer pistas de qual é a verdade por trás das palavras.

Algo que passou no noticiário e que pode ser colocado como um exemplo prático é uma foto da Suzane von Richthofen saindo da cadeia em um carro com uma expressão que pode ser interpretada como o prazer do enganador, comumente chamada de duping delight, por especialistas.

Trata-se de um movimento do músculo bucinador (parte superior do lábio) que transpassa o contentamento a longo prazo da pessoa que sabe que fez algo errado e se divertiu com isso.

Especializar-se nessa área é de grande relevância para quem trabalha com Criminal Profiling, pois possibilita que, ao interagir com os envolvidos em um crime, sejam testemunhas, ou possíveis suspeitos, seja possível compreender o que está sendo dito e o que está sendo ocultado, pois muitas vezes as expressões não verbais acabam surgindo de forma não proposital e isso é suficiente para perceber o que a pessoa está sentindo verdadeiramente, até para desenvolver uma estratégia de interação com o indivíduo que está sendo analisado.

Como Criminal Profiling avalia o perfil do autor de um crime, o uso de diversas ferramentas junto ao perfil criminal possibilita uma avaliação mais acurada do criminoso que está sendo procurado. Isso também serve de auxílio em entrevistas e negociações, trabalhos que também podem ser de auxiliados por um profiler.

Lie to Me é uma série que ajudou a disseminar esse tipo de conhecimento através do entretenimento explicando que a comunicação não-verbal pode ser usada como uma ferramenta fundamental para auxiliar em investigações e profissionalizar quem atua na área, sendo de grande valia para os profilers que queiram associar conhecimentos para aperfeiçoar seu trabalho.


REFERÊNCIAS

EKMAN, Paul. A linguagem das emoções: revolucione sua comunicação e seus relacionamentos reconhecendo todas as expressões das pessoas ao redor. São Paulo: Lua de Papel, 2011.

Autor
Especialista em Criminal Profiling. Advogada.
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