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Resenha de “Confiança e Medo na Cidade”, de Zygmunt Bauman

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Resenha de “Confiança e Medo na Cidade”, de Zygmunt Bauman

Em “Confiança e Medo na Cidade”, Bauman analisa o aspecto arquitetônico das cidades, que teriam se constituído em um aspecto defensivo diante da insegurança e do medo que permeiam a sociedade.

O mote que propulsiona o grande afã de se construir grandes fortalezas, casas isoladas, condomínios que se traduzem numa tentativa de se constituir uma espécie de sociedade própria, afastada da cidade em que se situa, seria justamente a sensação de constante insegurança – reflexo do medo que passa a exercer forte domínio sobre a vida de toda a sociedade. Eis um dos fenômenos observáveis pelo sociólogo polonês na modernidade líquida.

Dividido em três capítulos, a obra aborda algumas das características dos centros urbanos, dentre os quais o eminente convício com o outro. O contato com a figura do “estrangeiro” e as possibilidades disso decorrentes (o compartilhamento de diferentes perspectivas e experiências, a diversidade na própria existência…) estão no cerne da própria ideia das cidades. Constituem as bases de sua origem e, quiçá, uma de suas razões de o ser.


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Contudo, Bauman vai apontar que a cidade atual está inserida em outro contexto – do medo e da constante insegurança -, ensejando assim no apartar do “estrangeiro”. O outro é segregado por se tratar, nesse processo, de um estranho, e o estranho é um dos focos e ao mesmo tempo também origem desse medo.

Assim, as grandes cidades, vai apontar Bauman, são movidas pelo medo. As razões dessa mudança paradigmática são várias, mas em “Confiança e Medo na Cidade” o enfoque se dá nas imposições globais que acarretam numa perda de identidade das comunidades – aí estaria a origem do problema atual exposto na obra.

Levando o mesmo título que a obra, o primeiro capítulo trata da “forte tendência a sentir medo e a obsessão maníaca por segurança”, fenômeno este que teria levado a criação da mais espetacular das carreiras – aquela que cria e oferece dispositivos que visam atender à demanda do medo, fornecendo – pelo menos assim se dizendo – a defesa necessária aos indivíduos.

A sensação de insegurança seria caracterizada, principalmente, pelo medo do crime das pessoas que o cometem. A suspeita se dá contra o outro – quais são suas intenções? Não há espaço para a confiança, de modo que rui a ideia de solidariedade. A proteção então passa a ser a grande promessa moderna, a qual, para o autor, constitui o verdadeiro coração do Estado Social (e não a ideia de redistribuição de riqueza).

Com o dissolver da solidariedade, há o consequente findar daquele “universo no qual a modernidade sólida administrava o medo”. Novos atores passam a assumir esse papel, assim como novos passam a ser os protagonistas que representam as classes perigosas – os supérfluos, os incapacitados para a reintegração, não assimiláveis.

Essa exclusão acaba sendo uma via de mão única, pois “é pouco provável que se reconstruam as pontes queimadas no passado”. Os excluídos, portanto, constituem a atual classe perigosa. Bauman classifica então quais seriam as tendências sociais, políticas e culturais mais significativas que ensejariam na passagem de uma fase sólida para a constatada fase líquida da modernidade:

a segregação das novas elites globais; seu afastamento dos compromissos que tinham com o populus do local no passado; a distância crescente entre os espaços onde vivem os separatistas e o espaço onde habitam os que foram deixados para trás.

Em síntese, o que aduz Bauman é que “as cidades se transformaram em depósitos de problemas causados pela globalização”. Daí é que advém a perspectiva das cidades contemporâneas como grandes campos de batalha, cenário do qual surge o estranhamento para com o estrangeiro, uma vez que sua presença causa desconforto. O resultado disso é o paradoxo dos grandes centros urbanos:

as cidades – que na origem foram construídas para dar segurança a todos os seus habitantes – hoje estão cada vez mais associadas ao perigo.

No segundo capítulo, “Buscar abrigo na caixa de Pandora: medo e incerteza na vida urbana”, fala-se da importância que galgou a segurança pessoal na sociedade, acabando por se constituir numa grande ferramenta e estratégia de marketing – a ideia de “lei e ordem” “transformou-se num argumento categórico de venda, talvez o mais decisivo nos projetos políticos e nas campanhas eleitorais”.

A consequência desse afã por segurança, aproveitada pelos agentes que oferecem dispositivos aptos a garanti-la, se dá numa espécie de arquitetura do medo: espaços vigiados constantemente. Isso se consolidou na própria cultura líquido-moderna a ponto de ensejar num grande dilema enfrentado pelos arquitetos e planejadores:

a alternativa à insegurança não é a beatitude da tranquilidade, mas a maldição do tédio. É possível derrotar o medo e ao mesmo tempo suprimir o tédio?

O livro é encerrado com o capítulo “Viver com estrangeiros”, que se trata da transcrição de uma conferência proferida por Bauman em 2004. Em sua fala, o autor aduz que “viver numa cidade significa viver junto – junto com estrangeiros”.

Questiona também a obsessão da demarcação de fronteiras, cuja resposta estaria em algo que deriva do desejo – aquele desejo de “recortar para nós mesmos um lugarzinho suficientemente confortável, acolhedor, seguro, num mundo que se mostra selvagem, imprevisível, ameaçador”. A preocupação contemporânea, defende o autor, deveria residir na compaixão, algo inerentemente humano, devendo ser levada tal solicitude para um grau planetário.

O livro constitui mais um grande acerto do autor. O desafio proposto é o de recuperar o aspecto comunitário da esfera pública, de modo que ao invés da segregação reinante, deve-se levar em conta, como mote propulsor das relações humanas, a solidariedade e a valorização daquele mesmo espaço que é ocupado por muitos – inclusive pelo outro.

Autor
Mestre em Direito. Especialista em Ciências Penais. Advogado.
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