• 14 de dezembro de 2019

O maior conselho que eu poderia dar para um jovem advogado criminalista

 O maior conselho que eu poderia dar para um jovem advogado criminalista

Em uma das últimas palestras que tive a honra de dar, fui perguntado, por um jovem estudante de Direito, sobre qual o maior conselho que eu poderia dar a um jovem estudante de Direito como ele (que desejava se tornar advogado criminalista) ou simplesmente para um advogado recém formado que também tenha vontade de atuar na área criminal?

Confesso que fiquei feliz com a pergunta e pelo fato de possuir uma grande contingência de experiências profissionais no campo do direito penal. Sinto-me apto e seguro para responder tal indagação:

Qual é o maior conselho que eu posso dar para um jovem criminalista?

Respondi a esse jovem que, se ele pretender trabalhar como advogado criminal, saiba ele primeiro, antes de qualquer coisa e que tenha como premissa maior, que o elemento, a força motriz e deflagradora que guia o advogado criminal JAMAIS será o dinheiro, nem mesmo de forma subsidiária. Se esse jovem acha que a advocacia criminal o fará um homem rico “in limine”, engane-se totalmente. O advogado criminalista vive uma irrealidade.

Eu tenho a sensação que a advocacia criminal é uma abstração. O criminalista é um ser humano diferente; o dinheiro não é o alimento espiritual do advogado criminalista. Eu nunca, em minha trajetória como advogado criminal, tive mais vontade ou energia em defender um réu pobre ou um acusado que tivesse me pago bons honorários. A entrega à causa é, e sempre será, a mesma. O advogado criminalista se apaixona por uma causa, por uma história de vida e faz daquele processo o mais importante, assim como o próximo seguinte o mais importante e assim por diante.

É inegável que o dinheiro nos traz conforto e nos propicia condições de dar um conforto melhor para a família, mas, no caso da advocacia criminal, o dinheiro não é o mais importante. Com o tempo e de forma natural, após muito e muito trabalho, conseguimos uma tranquilidade financeira maior. No entanto, após a formatura, tenha a certeza e a convicção que muitas vezes vamos pagar para trabalhar, teremos gastos com cópias, gasolina e outras tantas coisas mais. Uma vez que nosso acusado, pessoa humilde e de poucos recursos, não terá condições de nos pagar.

Mas, então, o que nos move o que nos conduz nessa caminhada que às vezes chega a ser sacrificante? Respondo: A improcedência do pedido, a absolvição do réu, o choro compulsivo daquele que viemos a salvar a vida ao não ser preso e colocado em presídios medievais e que não servem nem mesmo para abrigar um bicho, quanto mais um ser humano.

O que move o criminalista é defesa sólida feita no plenário do júri, que faz o salão inteiro silenciar, eis que todos estão admirados com sua defesa; é a sustentação oral feita com dedicação e força no tribunal que faz o desembargador mais omisso e desligado parar por um instante para ouvir os argumentos daquele tribuno. Todavia, o que mais dá força e alegria para um advogado criminalista é o agradecimento sincero da mãe que teve o filho solto. São as lágrimas daquela senhora meu maior pagamento. Confesso que, quando isso acontece, ouço Deus me sussurrar: Parabéns Doutor.

Dinheiro é consequência de um trabalho bem feito durante alguns anos trabalhando de forma diuturna e comprometida com a advocacia criminal. É a defesa feita com perseverança e dedicação que um dia transformar-lhe-ão em um grande criminalista. É preciso subir cada degrau para atingirmos um patamar de excelência. O advogado criminal é ético e comprometido com seu constituinte, sem envolver-se em situações que possam envergonhar a classe e que, até mesmo, possam causar a cassação de seu registro. Propostas tentadoras de ilicitude ouvirás na tua caminhada, mas não te esquece: o que vem fácil, vai fácil.

Bonito mesmo é ver o advogado experiente com os cabelos brancos trabalhando nestes foros deste mundo de meu Deus e diga-se de passagem: com a mesma energia de um jovem advogado recém-formado. O que lhe move jamais foi o dinheiro. Ele, inclusive, poderia estar aposentado, aproveitando um cruzeiro, fazendo uma volta ao mundo, contudo, então, o que move aquele velho advogado que agora está rico e mesmo assim o faz aguardar pacientemente uma audiência no foro, esperar o processo em um cartório criminal? O que move esse advogado, meu Deus?

Eu te respondo: O amor à profissão.

O sentimento de piedade e de indulgência que moram no coração do advogado criminalista, a vontade de estender a mão ao próximo. Lembro-me do grande Carnelutti ao finalizar este texto, disse:

Que o nome mesmo de advogado soa como um grito de ajuda. “Advocatus, vocatus ad”, chamado a socorrer. Também o médico é chamado a socorrer; mas só ao advogado se dá este nome.

O advogado criminalista veio ao mundo para socorrer ao próximo e aqueles que se desfazem da nossa profissão, nosso mister, quando necessitam da defesa de um criminalista são os que mais choram em nossos ombros e o que fazemos: Socorremo-los!

Jean Severo

Mestre em Ciências Criminais. Professor de Direito. Advogado.