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Criadouros ‘fundo de quintal’: uma das principais razões econômicas de maus-tratos

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Criadouros ‘fundo de quintal’: uma das principais razões econômicas de maus-tratos

Dentre as causas que levam uma pessoa a maltratar animais, uma das principais é a econômica. O animal não humano, desde os primórdios da humanidade, é visto como uma fonte de lucro para o homem, reforçando a perspectiva antropocêntrica. Como exemplo dessa exploração podemos citar o criadouro clandestino, popularmente chamado de “fundo de quintal”.

Os criadouros clandestinos (fundo de quintal) são um flagrante exemplo de crueldade contra os animais. Cães são os maiores alvos – cadelas reprodutoras de raças populares, chamadas de “matrizes”, são compradas para que se forme um plantel, dando início ao canil.

A partir de então, são forçadas a terem ninhadas a cada cio (em média de seis em seis meses), o que pode resultar em perda de peso e fragilização da imunidade, fazendo com que as cadelas fiquem mais suscetíveis a doenças.

Sendo o lucro o objetivo principal, não é difícil imaginar como mães e filhotes são tratados. Criados em um ambiente insalubre, muitas vezes trancafiados em gaiolas minúsculas e com doenças infectocontagiosas e parasitas, os animais são submetidos a péssimas condições de vida, como se pode notar pela passagem e fotos abaixo:

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Alguns exemplos de maus-tratos

As cadelas vivem em condições piores do que as galinhas abusadas em granjas e dão à luz em condições insalubres, sendo que os filhotes são arrancados das mães com apenas quatro semanas e muitas vezes morrem dentro de seis meses. Animais são mantidos em um recinto pequeno, ela [cadela] será impregnada e seus filhotes levados com quatro semanas. Ela pode receber injeções hormonais para produzir mais filhotes […]. Estes animais viverão três ou quatro anos e então terão suas mortes induzidas devido à exaustão. […] Encontramos filhotes em baldes, incluindo alguns mortos. Era um negócio baseado na venda de cães doentes, era crueldade em escala industrial. Havia milhares de cães passando por sua casa e muitos ficam doentes e morrem. Eles não se importam, pois são uma mercadoria. Eles os trazem e os vendem o mais rápido possível para obter lucro (AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DE DIREITOS ANIMAIS, 2016, não paginado).    

 

Além de todo o impacto direto aos animais, há os danos secundários para os compradores. Quem cria os animais nestas condições não zela pelas características da raça, ou seja, o consumidor que pretende adquirir um filhote de uma raça pode acabar pagando mais barato, mas recebendo “gato por lebre”.

Outros problemas muito comuns neste cenário são os comportamentais e de saúde. No momento da compra o animal normalmente já está com alguma doença infectocontagiosa, ainda sem manifestação clínica, o que pode levar o já frágil filhote a óbito.

Não obstante o sofrimento do animal, os donos podem dispender somas consideráveis ​​em tratamentos para o filhote e ainda sofrer perturbações significativas ou riscos pessoais potenciais como, por exemplo, contrair uma zoonose.

Um ponto importante a ser considerado é a venda destes animais, que proporciona oportunidades adicionais para atividades criminosas, em particular através de representações fraudulentas para os potenciais compradores.

Primeiramente, quanto mais novo o filhote fica disponível para venda, mais interesse há por parte dos adquirentes. Isso faz com que os animais sejam desmamados e retirados de suas mães muito cedo e, acrescentando nessa soma o fator estressante que é o transporte, doenças muitas vezes fatais como a parvovirose e a cinomose podem ocorrer. Além disso, vendedores podem tentar lograr consumidores mais atentos.

Parte da população tem sido encorajada a comprar filhotes somente se puderem ver toda a ninhada com sua respectiva mãe. Consequentemente, os criadores “fundo de quintal” podem transportar o filhote para um local em boas condições e vender a ideia de que ali é que ele foi criado. Em muitos casos o comprador é enganado, vindo a adquirir um animal que teve uma qualidade de vida e bem-estar pobres.

Casos de desmantelamento de canis “fundo de quintal”, quando feitos por ONGs, associações ou institutos com reconhecimento nacional, são amplamente veiculados pela mídia. Em São Paulo não são raros os casos em que o Instituto Luísa Mell resgata animais de criadouros clandestinos.

No mês passado, araras, papagaios e 113 cães de diferentes raças foram resgatados de um imóvel na zona leste do município. Cachorros foram encontrados em caixas, gaiolas e até dentro de armários. No momento do resgate, a pessoa que cuidava do canil tentou ainda esconder dois filhotes dentro do sutiã e uma cadela grávida debaixo de um travesseiro.

O responsável poderá responder pelo crime de maus-tratos (art. 32 da Lei 9.605/98), podendo a pena ser aumentada de um sexto a um terço, conforme parágrafo 2º do citado artigo, já que foram encontrados animais mortos no local. Além disso, ainda poderá receber sanções previstas na legislação do município (Lei 14.483/07), que regra a criação e venda de animais.

Apesar da cobertura da mídia nesses casos, percebe-se que o interesse das pessoas por um animal de raça por um preço baixo ainda é grande. Infelizmente não é fácil obter uma mudança desse panorama. Para haver uma alteração significativa da realidade atual, o ser humano necessita deixar de lado a visão antropocêntrica de que os animais não humanos podem ser explorados, neste caso visando ao lucro. Além disso, quem compra de canis não registrados, ou adquire um filhote com um custo abaixo do habitual para a raça, pode estar fomentando esta prática cruel.

Como apenas a fiscalização não consegue coibir esses insalubres locais, onde nascimentos se misturam com morte, é importante haver medidas de conscientização para que as pessoas evitem comprar filhotes de procedência duvidosa, além de estímulos à adoção de animais abandonados.


REFERÊNCIAS

YEATES, James; BOWLES, David. Breeding and selling of companion animals. In: The Palgrave international hadbook of animal abuse studies. London: Palgrave Macmillan, 2017, p. 15-38.


FOTOGRAFIAS

Canal do Pet, ClicRBSGazeta do Povo.

Autor

Gisele Kronhardt Scheffer

Mestre em Direito Animal. Especialista em Farmacologia. Médica Veterinária.
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