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Polícia investiga crime de racismo contra Seu Jorge em show

Ontem, segunda-feira (17), por meio de um vídeo de nove minutos divulgado nas redes sociais, o cantor Seu Jorge manifestou-se pela primeira vez a respeito dos ataques racistas que teria recebido durante um show realizado em Porto Alegre na última sexta-feira (14).

No vídeo, o artista afirma ter escutado vaias, xingamentos e ofensas racistas:

O que eu presenciei foi muito ódio gratuito e muita grosseria racista.

O artista ainda afirmou não ter visualizado pessoas negras entre as convidadas do evento, apenas entre funcionários do clube:

Particularmente, não vi nenhuma pessoa negra no jantar. E as pessoas negras que eu encontrei foram somente os funcionários que, uma coisa que me causou muita espécie, eu ouvi dizer que eles estavam proibidos de olhar pra mim ou falar comigo quando eu chegasse no local do show.

Pessoas presentes no show afirmam que as ofensas teriam ocorrido entre o período em que o cantor e a banda saíram do palco e ainda retornariam para o bis.

Uma testemunha que não quis ser identificada afirma que o show transcorreu tranquilamente e que o  público era de aproximadamente 800 pessoas:

Começaram a gritar ‘mais um, mais um’, mas, logo em seguida, alguns sons de ‘uh, uh’. Primeiro, eu pensei que estavam vaiando. E já parecia estranho pra mim uma pessoa num show começar a vaiar. Depois, eu vi que eram movimentos de macaco. Cheguei a ouvir ‘negro vagabundo, vagabundo’ e, depois, pessoas gritando ‘mito, mito’. Ele não fez nada de diferente, já fui em alguns shows dele. Ele declamou uma música do Racionais MC, que chama ‘nego drama’, fazendo alusão à questão racial. Em um determinado momento, chamou um menino que toca cavaquinho, apresentou ele, disse que tinha 15 anos, falou que era um talento e, nesse momento, falou sobre a maioridade penal, quis dizer que a questão não é prender mais cedo ou mais tarde, e sim dar condições para esses jovens.

Outra testemunha afirmou:

“Ele disse ‘espero que vocês fiquem bem.’ Nesse momento, foi pior, as pessoas gritaram, vaiaram. Colocaram uma música e as pessoas se dispersaram. Mas vi muitas saindo indignadas de lá. Foi muito ruim, foi horrível”, contou a pessoa que estava no show.

A Polícia Civil está investigando o caso.

Assista à manifestação de Seu Jorge:

Clube que convidou cantor para o show se manifesta em nota

O clube Grêmio Náutico União contratou Seu Jorge para realizar um show na reinauguração do Salão União, que passou por reformas este ano. 

Em nota, o clube disse que está apurando internamente os fatos e que os envolvidos serão responsabilizados. Leia o comunicado:

O Grêmio Náutico União está apurando internamente os fatos ocorridos em evento realizado no dia 14 de outubro, durante apresentação do cantor Seu Jorge. Se for comprovada a prática de ato racista, os envolvidos serão responsabilizados. Afirmamos que o União, seguindo seu Estatuto e compromisso com associados e sociedade, repudia qualquer tipo de discriminação.

Ressaltamos que Seu Jorge foi o artista escolhido para realizar show com a presença de associados e não-associados do Clube, considerando sua representatividade na cultura nacional e pelo reconhecimento internacional, e destacamos nosso respeito ao profissional e ao seu trabalho.

Paulo José Kolberg Bing

Presidente

Grêmio Náutico União

Ainda no vídeo, Seu Jorge agradeceu ao apoio dos fãs porto-alegrenses e de outras partes do país:

Não era a cidade que eu reconheci, a cidade que eu comecei a amar e respeitar. Não era a cidade que eu conheci. 

Seu Jorge também se dirigiu especificamente à população negra do RS:

Ao povo negro do Rio Grande do Sul e de toda a região do Sul, quero dizer que amo todos vocês, e admiro, respeito. E digo também que estamos mais unidos do que nunca e que vamos vencer essa guerra que segrega o nosso povo à miséria e à falta de oportunidade no Brasil.

A delegada Andréa Mattos, titular da Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância, confirmou que foi instaurado inquérito policial pelo crime de racismo, que independe de representação por parte da vítima:

A polícia decidiu fazer isso em virtude das inúmeras denúncias que estão chegando até nós e claro, de tudo que está nas redes sociais. Óbvio que só com desenrolar das investigações, nós teremos confirmação de que houve o delito de racismo e não de injúria.

A autoridade policial também destacou que será importante a análise das imagens que o clube fornecerá à polícia:

Estamos entregando hoje [segunda] um ofício ao clube para que ele nos forneça as imagens do show. Porque daí sim teremos condições de começar a identificar as pessoas. Chamaremos algumas testemunhas para que nos auxiliem na identificação.

Fonte: G1

Priscila Gonzalez Cuozzo

Priscila Gonzalez Cuozzo é graduada em Direito pela PUC-Rio, especialista em Direito Penal e Criminologia pelo ICPC e em Psicologia pela Yadaim. Advogada e Consultora Jurídica atuante nas áreas de Direito Administrativo, Tributário e Cível Estratégico em âmbito nacional. Autora de artigo sobre Visual Law em obra coletiva publicada pela editora Revista dos Tribunais, é também membro do capítulo brasiliense do Legal Hackers, comunidade de inovação jurídica.

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