ArtigosCriminal Profiling

Crimes em Cativeiro: Fritzl, Castro, Garrido e Priklopil

Crimes em Cativeiro: Fritzl, Castro, Garrido e Priklopil

Sequestros que duram um longo período de tempo, de meses, anos e até de décadas, são extremamente raros. Quando uma vítima (ou mais vítimas) desse tipo de crime consegue se libertar, expondo todo o sofrimento que passou em cativeiro, inimaginável para muitos, há uma repercussão enorme, principalmente traz questionamentos: como isso foi possível durante tanto tempo? Como ninguém percebeu?

Ocorreram 4 casos que vieram a público e abalaram todo o mundo:

  1. Ariel Castro sequestrou três mulheres durante 10 anos em Cleveland, Amanda Berry (16 anos), Michele Knight (21 anos) e Gina de Jesus (14 anos);
  2. Josef Fritzl colocou sua própria filha, Elizabeth (16 anos), durante 24 anos no calabouço de sua casa;
  3. Phillip Garrido, sequestrou Joyce Lee Dugard (11 anos) durante 18 anos, com a cumplicidade da esposa; e
  4. Wolfgang Priklopil manteve Natascha Kampusch em cárcere privado durante 10 anos.

Sobre crimes em cativeiro, leia também:

  • O sequestro de Natascha Kampusch: 8 anos em cativeiro (aqui)
  • Josef Fritzl, o monstro de Amstetten (aqui)

Muitas vezes a sociedade compara a psicopatia com a imagem de um monstro moral, encarnado num indivíduo isolado, desprovido de empatia, cuja conduta não se deixa regular pelos princípios de convivência em sociedade.

O psicopata recusa a ética das regras de convivência, porém estes quatro sequestradores acima citados transmitiram uma aparência de normalidade: vizinhos e familiares nunca desconfiaram de suas condutas.

Eles pareciam ser perfeitamente integrados na sociedade, possuíam profissões que lidaram diretamente com as pessoas. Castro era motorista de ônibus escolar, Fritzl era engenheiro eletricista, Garrido um evangélico autodidata e o último, Priklopil, era técnico de telecomunicações.

O que acontece com os instintos quando estes não são mais refreados pela cultura?

Nesses casos há o aspecto de uma cisão, como se na casa houvesse dois mundos diferentes, dois andares, o andar de cima representando uma vida “normal” e o andar debaixo, o calabouço, local onde seus desejos sádicos eram liberados.

São vidas paralelas e anormais que, quando adquirem reputação, ou seja, quando vem a público, o que escancara é o poder do sequestrador de proporcionar um ato excepcional, julgado bestial, monstruoso, inumano, visto como extrínseco a própria humanidade.

O comportamento sádico, segundo Konvalina-Simas, é o fator preponderante na relação entre um indivíduo dominado com um outro dominador, este último é quem inflige a dor através da violência física, do abuso sexual e da humilhação. Para a autora, há um movimento entre as dimensões psicopáticas, sádicas e narcisistas.

Ou seja, a psicopatia libera o agressor das restrições sociais, que geralmente impedem o indivíduo de realizar suas fantasias sádicas, o narcisismo determina o imperativo de gozo, ao seu bel prazer, como uma autogratificação e alimenta um sentimento de superioridade e de domínio, assim justificando seu comportamento sádico.

Tipos de sadismo

Segundo Schechter, existem dois tipos de sadismo. O primeiro tipo é o transtorno de personalidade sádica, onde se sente prazer com o sofrimento físico ou psicológico do outro.

O outro tipo, aparece como uma especificação do primeiro, que é o sadismo sexual, no qual “o sofrimento de uma vítima não apenas é agradável de um modo geral como também é intensamente excitante, podendo muitas vezes causar o orgasmo” (p. 203). Parece que neste perfil, de sequestrador, ambos tipos sádicos são localizados.

Um aspecto marcante nestes casos é o comportamento extremamente metódico que cada um teve para assegurar e manter firme durante anos, somente para manter sua satisfação, sem que o resto do mundo descubra, sem dar sinais do seu crime.

Foi feito todo um regramento a serviço de uma satisfação perversa. Os responsáveis pelos cativeiros, em seu agir, são comandados pelo imperativo categórico do gozo: vivem para o gozo, para apoderar-se dele, organizá-lo e prorrogá-lo.

Premeditação e planejamento

Um outro fator marcante, é a premeditação e o planejamento. Todos alteraram a casa para transformá-la em cativeiro ou melhor dizendo, em uma prisão particular.

Estas prisões eram tão seguras e organizadas que foram construídas a prova de som, janelas antirruídos, portas pesadas, com senhas para entrar, a elaboração de cada detalhe era bem meticulosa. E para tanta sofisticação, demorou-se anos para a finalização. Fritzl demorou seis anos para construir o cativeiro da filha. Nele, havia três pequenos quartos, banheiros, um chuveiro, uma cozinha e um aparelho de televisão.

A estratégia de capturar as vítimas foi muito bem planejada, ocorreu um período de busca da vítima ideal e não deixaram testemunhas de seus raptos, constituindo-se como ponto de dificuldade nas investigações. As vítimas ficaram presas durantes anos, sem pistas e sem seus consentimentos.

Os criminosos agiam pavorosamente normal. Passaram ao ato em plena lucidez e verificavam que nenhum perigo os ameaçava. Ou seja, o perverso não pede permissão ao outro para gozar. Dentro do cativeiro, seu gozo é soberano.

O que eles têm em comum no passado?

Fritzl já tinha cometido crimes sexuais. Aos 20 anos, Garrido estuprou uma menina de 14 anos. Castro agredia a esposa, chegou a jogá-la da escada, fraturando seu crânio. Priklopil não tinha antecedentes criminais. Porém, uma pessoa chegou a dizer, sem provas, que este criminoso tinha a preferências sexual por crianças.

Embora vivamos num mundo em que a ciência ocupou o lugar da autoridade divina, o corpo o da alma, e o desvio o mal, a perversão é sempre, queiramos ou não, sinônimo de perversidade. E sejam, quais forem seus aspectos, ela aponta sempre, como antigamente, mas por meio de novas metamorfoses, para uma espécie de negativo da liberdade: aniquilamento, desumanização, ódio, destruição, domínio, crueldade, gozo (Roudinesco, 2008, p.11).

São indivíduos com alto poder de manipulação, produtores de “lavagem cerebral” nas vítimas, sádicos, e apesar de terem antecedentes criminais, são bem vistos pelas pessoas, muitas das vezes considerados “cidadãos de bem”. Possuíam profissões de fácil acesso ao público, eram motoristas e praticamente não deixaram pistas de seus crimes.

Enfim, o que mais impressiona nesses casos, é o poder do sequestrador de autocontrole e do controle das vítimas. É muita determinação por muito tempo.

Filmes com a temática:

  • 3096 Dias
  • O Quarto de Jack
  • A pele que Habito
  • Josef Fritzl: Story of a Monster
  • Cleveland Abduction: Based on a True Story
  • Um Crime Americano
  • Por Dentro da Mente do Criminoso – Temporada 1, episódio 2

REFERÊNCIAS

KONVALINA-SIMAS, T. Profiling Criminal – Introdução à análise comportamental no contexto investigativo. 2 ed. Editora Letras e Conceitos Lda, 2014. 306p.

ROUDINESCO, E. A Parte Obscura de Nós Mesmos – Uma história dos Perversos. Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 2008. 224p.

SCHECHTER, H. Serial Killers – Anatomia do mal. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2013.480p.


Veja mais aqui.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

Clarice Santoro

Especialista em Psicanálise, Saúde Mental e Criminal Profiling. Psicóloga.

ARTIGOS RELACIONADOS

Fechar