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Crimes extremos ou a criatividade perturbada: bioarte ou escatologia?


Por André Peixoto de Souza


Em 2009 o diretor holandês Tom Six chocou o mundo do cinema terror-cult com sua centopeia humana (The Human Centipede, seguidas das partes II – 2011 e III – 2015). O roteiro simples e rodeado de repugnâncias e clichês trata de um experimento humano, comandado pelo médico alemão aposentado Dr. Josef Heiter.

Dotado de apurados conhecimentos anatômicos – e mais precisamente gastrointestinais, porquanto especialista em separação de gêmeos siameses – o médico rapta três pessoas e os une cirurgicamente, boca com ânus, rompendo os seus ligamentos dos joelhos e, todos engatinhados e unidos, formam uma centopeia humana. Moralistas e especialistas não conseguem assistir, de tão ruim que é – sob o ponto de vista da moral e da cinematografia. Mas a estética, nada nova, é no mínimo curiosa.

Na centopeia humana o imaginário sádico é evidente, mas desde “Os 120 dias de Sodoma”, de Sade – filmado em Salò (Pasolini, 1975) – a criatividade cinematográfica não atingia status nesse patamar. O filme segue a estética literária, mas recontextualizada para o período fascista italiano (1944). As paixões sádicas (simples, complexas, criminosas e assassinas) se transformam em círculos (das manias, das fezes e de sangue), sempre, obviamente, embebidos do caráter sexual escatológico que caracteriza o mote dos ricos libertinos-fascistas-opressores.

Essa obra (a literária, de 1785), que inaugura o termo e a ideia de “sadismo” – extração de prazer sexual a partir do sofrimento físico e da humilhação –, nada mais é do que um manual de transgressão jurídico-psicológica, um cronograma de porcarias que levou Michel Foucault a chamar o Divino Marquês de “sargento do sexo”, um enfileirador de genitálias, um disciplinador.

Mas entre a literatura e o cinema, houve um tempo em que esses criminosos ensaios físicos humanos se tornaram realidade. Basta lembrar das notórias e documentadas experiências do Dr. Josef Mengele, médico chefe da enfermaria de Auschwitz-Birkenau (Josef Mengele não deixa de ser a inspiração para Josef Heiter). As operações mais célebres em judeus foram as injeções de tinta azul nos olhos de crianças, as amputações e mutilações de toda ordem, o esfriamento de pessoas em tanques d’água gelada (para testar resistência corpórea em hipotermia), a união de veias em gêmeos, a dissecação de vários corpos e órgãos – com anotações.

Em parceria com o médico da Luftwaffe Dr. Sigmund Rascher, realizou práticas barométricas, submetendo judeus a variações bruscas e situações extremas de pressão, causando convulsões e até “explosões” cranianas. Todos os “objetos” (pessoas) de experiências do “Anjo da Morte” que porventura sobrevivessem eram em seguida executados.

Estima-se que Mengele tenha testado entre 1500 e 3000 gêmeos, dos quais apenas poucas centenas teriam sobrevivido. Eram as cirurgias preferidas, pois em corpos supostamente idênticos a dissecação poderia revelar características anatômicas, genéticas e eugênicas. As manipulações mais asquerosas consistiam na tentativa de unir definitivamente os gêmeos, por sistema sanguíneo e orgânico, para, de gêmeos separados, tentar formar gêmeos siameses.

Em 1985 uma gêmea de Mengele sobrevivente, Eva Mozes Kor, concedeu entrevistas, donde se extrai o seguinte relato: “(…) Trouxeram de volta do laboratório dois gêmeos ciganos que Mengele havia costurado um ao outro. Ele tinha tentado criar irmãos siameses unindo seus vasos sanguíneos e órgãos. Os gêmeos gritaram de dor, dia e noite, até que a gangrena começou. Depois de 3 dias, morreram”.

Esse conjunto de análises corpóreas e étnicas já era seu escopo desde a tese doutoral defendida em 1938, intitulada “Investigação morfológica racial sobre a seção inferior do maxilar de quatro grupos raciais”, onde indicou, em suma, que a raça de uma pessoa pode ser identificada pela forma de sua mandíbula.

Experimentos químicos em judeus e ciganos não foram exatamente aplicados por Mengele, mas foram contundentes entre 1942 e 1945, tanto em Auschwitz quanto em Dachau: injeção de bactérias e vírus (tifo e malária, p. ex.) para testar várias modalidades de tratamento e remédios (e aqui se fortalece a multinacional Bayer, que já fornecia importante material – o gás letal Zyklon B, utilizado nos campos de concentração, a partir da sucursal IG Farben); aplicação de venenos, queimaduras, gás mostarda, água do mar etc. para analisar consequências e tratamentos etc.

Queiramos ou não, esse conjunto de experimentos contribuiu com o desenvolvimento de algumas questões em medicina – especialmente a da hipotermia – mas desde então tem esbarrado em questões éticas, cujas regras foram em grande parte instituídas também a partir desses experimentos. Uma das regras mais inusitadas é o “Código de Nuremberg”, originado do “Julgamento dos Médicos” (1947). No Código – que nunca entrou em vigor –, havia expressa definição no sentido de permitir experimentos apenas mediante consentimento do paciente, e desde que não cause dor desnecessária, sofrimento, invalidez ou morte.

Todas essas práticas, estejam na literatura, no cinema, ou na vida real, ganharam algum espaço para reflexão e discussão na filosofia e até no direito, mas a partir de um bom referencial epistemológico, que verdadeiramente “imita a vida” ou, antes, antecipa-a: a arte (agora, então, chamada de bioarte).

Antes da sétima arte, e sempre beirando a realidade, um dos precursores na chamada bioarte é o brasileiro Eduardo Kac, há muitos anos radicado em Chicago, EUA. Seus inusitados projetos “GFP Bunny” e “A-positive”, dentre outros, causaram espanto no mundo artístico, tanto pelo nível de interação estética quanto pelos elementos [biológicos] por ele utilizados.

Em “A-positive” (1997) Kac doa o seu próprio sangue a um robô de vidro transparente, numa instalação “ao vivo”, que culmina com o “avivamento” do robô (por dispositivos eletrônicos, ao receber o sangue, ele se move!). A ideia de um contato direto e “intravenoso” entre um ser humano e um robô de vidro conduz ao elemento principalmente intencional do artista: o relacionamento.

Através dessa relação o robô (“robot”) se transforma em biobô (“biobot”). Obviamente a “arte-experiência” é muito mais complexa, pois envolve transmissão de hemoglobinas, taxas de oxigênio, dextroses e sacaroses etc., mas as suas implicações filosóficas são ainda mais elaboradas. Podemos encontrar nessa relação entre homem e robô (que se torna biobô) resquícios da dialética do senhor e do escravo, e também da teoria do reconhecimento, de Hegel.

Já a coelhinha albina Alba, foi criada e alimentada desde o nascimento com ração e EGFB – uma versão sintética do gen verde fluorescente encontrado na água-viva Aequorea Victoria. Com duas ordens a mais de magnitude do que outras fluorescências, a coelhinha, desde que submetida a uma iluminação “blue light”, brilha em verde fluorescente! Por isso, GFP: “Green Fluorescent Protein”. Daí, “GFP Bunny Project”: denominado de “arte transgênica”, a coelhinha não era o projeto em si; ou seja, não era propriamente Alba o objeto da [bio]arte, e sim a sua “relação” com a comunidade social e científica. Os debates eram a arte! (assim como o silêncio ou as vaias da “música” 4’33’’, de John Cage). O objetivo dessa [bio]arte era, a partir da coelhinha (segundo o autor, “the creation of a green fluorescent rabbit”), o diálogo público sobre o projeto e a integração da coelhinha brilhante na sociedade.

Para se notar a complexidade do feito, aqui está o seu roteiro, por etapas: 1) diálogo interdisciplinar sobre o projeto e sobre bioética (arte, ciência, filosofia, direito etc.); 2) questionamento cartesiano sobre a hegemonia do DNA na formação da vida; 3) ampliação do conceito de evolução e biodiversidade, recebendo a categoria dos genomas; 4) relação entre humanos e transgênicos; 5) apresentação social do projeto “GFP Bunny” (2000); 6) análise dos resultados, mediante observação da relação social suscitada pelo projeto; 7) discussão sobre partilha de material genético; 8) reconhecimento de apreço pelo vida animal transgênica, sob aspecto emocional e cognitivo; 9) ampliação dos limites da arte, para fazer incorporar a “invenção de vida”.

De uns tempos pra cá a bioarte se tornou pop e vem ultrapassando as barreiras da bioética, mesclando, finalmente, ficção e realidade: a centopeia humana real é uma questão de tempo! (se é que já não existe por aí, em algum porão do leste europeu ou da Indochina, pra não dizer mais).

Aqui, o Direito [Penal] não tem muito o que fazer.

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André Peixoto de Souza

Doutor em Direito. Professor. Advogado.

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