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Crimes extremos ou a criatividade perturbada: tortura

Canal Ciências Criminais

Por André Peixoto de Souza


Uma prática obscura – e real – se tornou notória a partir da série cinematográfica Hostel (traduzido, no Brasil, como “O Albergue”: I, II e III, de 2005, 2007 e 2011), complementada pela Série Saw (“Jogos Mortais”: de I a VII, entre 2004 e 2011): jogos e leilões de pessoas para serem brutalmente assassinadas por psicopatas ricos, nas formas mais requintadas e inimagináveis.

Em “Hostel” jovens são aliciados ou raptados no leste europeu e, em seguida, leiloados na internet (darknet) e arrematados por milhões de dólares. O comprador recebe uma sala equipada por serras, alicates, martelos, parafusos, correntes e todo o tipo de armas ou objetos úteis como armas, tendo no centro da sala, amarrado a uma cadeira, o jovem que ele comprou, inteiramente à sua disposição para receber todo e qualquer tipo de “tratamento”.

A psicologia de “Saw” é um pouco diferente. Os “jogos” consistem numa espécie de “chance de reabilitação” para pessoas que Jigsaw escolheu – e julgou – como vítimas que, em verdade, vitimaram a sociedade: uma mãe relapsa, um criminoso, um desidioso no trabalho, um político corrupto, um patrão opressor. Esses ofensores tornados vítimas dos jogos enfrentam mecanismos apurados e cruéis, recebendo sempre a oportunidade – muitas vezes mortalmente excludente ou condicional – de se salvar, mediante um resquício de sacrifício ou abalo físico e psicológico.

Coisa de cinema?

Métodos de tortura tendem ao infinito, ou pelo menos à infinitude da imaginação ardente do algoz, e não é nada fictício. Pois a história nos mostrou – e consagrou – alguns métodos de tortura, facilmente encontrados nas cartilhas dos mais notórios sistemas de opressão e dominação. Segue uma breve lista, muitos dos quais encontrados, aliás, no Liber Sententiarum Inquisitionis, o manual de um dos mais temidos inquisidores da história, o dominicano Bernardo Gui:

  • Roda: Método utilizado principalmente no baixo medievo. Uma roda de madeira onde o acusado é amarrado, por fora. Abaixo da roda há um mecanismo de brasas ou fogo ou ainda agulhas, e durante o movimento da roda o acusado é queimado pelo calor produzido pelas brasas (ou cortado pelas agulhas).
  • Dama de Ferro: É uma espécie de caixão ou sarcófago de madeira ou metal, com agulhas ou espinhos metálicos na face interna das portas, localizados de tal modo a não atingir as partes vitais da vítima, mas feri-la gravemente. Desses ferimentos ou hemorragias resultava morte.
  • Berço de Judas ou Burro Espanhol: Peça metálica em forma de pirâmide sustentada por hastes diagonais. A vítima é colocada sentada sobre a ponta da pirâmide, suspensa por cordas ou correntes. O afrouxamento gradual ou brusco das amarras faz com que o peso da vítima pressionasse e ferisse toda a região pélvica.
  • Garfo: É uma haste metálica com duas pontas em cada extremidade semelhantes a um garfo. Deve ser preso à vítima entre o maxilar e o tórax, de modo a perfurar o seu corpo de acordo com movimentos. Normalmente era utilizado como instrumento de punição (penitência) ao herege.
  • Pata de Gato: Uma luva ou instrumento com “unhas” metálicas, capaz de arranhar e até rasgar a pele da vítima.
  • Pêra: Instrumento de metal ou madeira em formato semelhante a uma pêra. O instrumento era introduzido na boca, ânus ou vagina da vítima, normalmente como punição ao adultério, homossexualismo, incesto etc.
  • Máscara: Método de punição por humilhação pública, normalmente atrelada a delitos menores. A vítima usava a máscara de ferro por um tempo, recebendo incômodo físico, psicológico e social.
  • Cadeira: Uma cadeira formada por pregos na qual a vítima se sentava nua. Além do próprio peso, cintos pressionavam a vítima, aumentando o sofrimento.
  • Esmaga cabeça: É um “capacete” de madeira ou metal, dotado de uma rosca superior que, quando girada, esmaga a cabeça da vítima. Há relatos principalmente inquisitoriais pós-medievais que dizem ser o maxilar menos resistente, e por essa razão, é destruído primeiro; após, o crânio “explode”, donde flui massa encefálica.
  • Quebra joelhos: Placas paralelas de madeira ou metal, unidas por duas roscas. Quando as roscas são apertadas, pressionam os joelhos até esmaga-los.
  • Mesa de evisceração: Uma mesa onde a vítima era amarrada (ou pregada) e imobilizada, de barriga para cima. O executor produzia um corte no abdômen da vítima, a partir do qual um gancho suspenso por roldanas era engatado a órgãos ou vísceras da vítima… e a corda seria puxada, eviscerando-o.
  • Pêndulo: Também muito comum no medievo, trata-se de um sistema simples de roldanas e eixos, por suspensão, onde a vítima era amarrada nos pulsos, por trás e para cima, e a corda, quando puxada violentamente, deslocava os ombros da vítima.
  • Tortura D’água: Deitada com a barriga para cima, a vítima era forçada a engolir muita água, e depois recebia fortes golpes no abdômen.
  • Calda da Verdade: Balde com água ou fezes e urina, onde a cabeça da vítima era mergulhada, normalmente para “extração da verdade”.
  • Touro Siciliano: Grande escultura oca de bronze, onde a vítima era alocada. Em baixo da “barriga” do touro, uma fogueira incendiava as moléculas do bronze, e cozinhava a vítima.
  • Pau-de-Arara: Madeira ou ferro onde a vítima é amarrada com pés e mãos e, pendurada, fica ou apanha.
  • Parafuso: Objeto de mecânica simples, como o esmaga cabeça ou o quebra joelho, mas menor, usado para esmagar partes pequenas do corpo, como dedos ou pênis de acusados de crimes sexuais.
  • Gaiola suspensa: Uma gaiola grande, onde a vítima era colocada e trancada, muitas vezes sem comida nem bebida, até que morresse.
  • Ferro em brasa ou marcadores: O mesmo instrumento com o qual se marcam os bois, numa fazenda. Simples ferro em brasa aplicado à vítima. Uma das variáveis é o abacinamento, que consiste em cegar a vítima com ferro em brasa.
  • Choques elétricos: Sistema elétrico aplicado em partes do corpo. Pode causar dor, queimadura, convulsão, fibrilação cardíaca e até, obviamente, morte.
  • Serra: grande serra para dois executores. A vítima, com as pernas suspensas viradas para cima, era serrada da pélvis até a cabeça.

Tem ainda a clássica descrição do suplício de François Damiens, divulgado por Foucault no primeiro capítulo do “Vigiar e Punir”. O atenazamento de partes do corpo, o derramamento de composição química fervente, o desmembramento do corpo por cavalos etc., na França absolutista, chegou a virar lei!

Mas se a lista fosse “atualizada”, muitas torturas aplicadas pelos sistemas políticos opressores do século XX, ou então pela criminalidade dita organizada, derivaria diretamente desse rol. E a forma preferida de execução permanece sempre a mesma: a decapitação.

Sem falar nas torturas psicológicas contemporâneas, teorizadas (e praticadas) através dos assédios morais, das ameaças, da alienação parental, do bullying, stalking etc.

O próximo texto – último dessa trilogia – trará as proximidades do crime com a arte.

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Autor
Doutor em Direito. Professor. Advogado.
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