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Os crimes de quarto fechado: a literatura e a investigação policial

quarto fechado

Os crimes de quarto fechado: a literatura e a investigação policial

Os romances policiais tiveram décadas de aperfeiçoamento em conjunto com as qualidades que a tecnologia e as técnicas de investigação policial tomavam com o passar do tempo.

Quanto ao serviço de inteligência policial em investigações, este se elevou a proporções portentosas com as possibilidades cientificas e tecnológicas em eterna prosperidade.

Nesse ponto, as mentes dos escritores que forjam situações em suas obras precisam agora trabalhar em um universo paralelo àquele vivido por exímios mestres da literatura policial de outrora.

Edgar Allan Poe, Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Stephen King e até mesmo Umberto Eco, que se aventurou em climas policiais em seu romance milenar Baudolino, teriam hoje que especular os grandes ganhos de uma globalização tecnológica crescente e sua capacidade de interagir com os fatos a serem analisados.

Nessas situações de crimes e investigações, o Sherlock Holmes atual possui câmeras de monitoramento em quase toda parte para seu auxilio, além de laboratórios que comprovam em questões de horas aquilo que o detetive inglês levaria um livro inteiro para descobrir.

Interessantes são as situações de crimes de quarto fechado (locked room mystery), sempre analisadas com muita parcimônia em todas as obras que versam sobre, levando o leitor a apenas uma única saída: a possibilidade de uma passagem secreta por entre as paredes para dentro de um quarto, a qual fora utilizada pelo algoz para realizar seu crime perfeito, ceifando a vida de sua vítima, trancada em um quarto fechado com as chaves na porta, do lado de dentro.

Sem indícios ou fatos que pudessem revelar o ocorrido, o sobrenatural, o suicídio e as intempéries do organismo vivo que poderia deixar de viver a qualquer minuto por diversas situações não visíveis aos olhos investigativos, são possibilidades analisadas.

Todavia, quando o corpo é encontrado com marcas do crime, como provas incontestes de homicídio, aí a situação se complica.

Por um lado, tem-se a vítima em um quarto fechado e um provável crime impossível, mas por outro lado, tem-se também um assassino que deseja ter seu serviço reconhecido, chamando atenção dos Sherlocks de plantão em uma caçada quase improvável.

Entretanto, as obras de Edgar Allan Poe a Stephen King, passando por Georges Simenon, Fredric Brown e, claro, G.K. Chesterton, passam por uma época em que grandes seriam as dificuldades para que se possa enfim dizer quem é o assassino; que pode ser inclusive o mordomo.

Talvez Hamlet, do infindável Shakespeare, seja uma das obras mais famosas quando o crime que se diz impossível de se desvendar, pode ser resolvido pelo leitor antes mesmo que pelos próprios personagens envolvidos, e ainda assim, manter a trama e o foco até o fim.

Todavia, o quarto fechado ainda, mesmo nos dias atuais, é um mistério intrigante.

Tanto que o escritor John Dickson Carr, em sua obra Hollow man, (Homem Oco) de 1935, já apresentava uma preleção a respeito do tema, ensinando como obter o crime impossível.

Por outro lado, Locked room murders, de Robert Adey, de 1979, ensina mais de vinte maneiras de se adentrar uma sala hermeticamente trancada para matar alguém.

Destarte, os romances policiais passam a ter uma importância na realidade do agente de investigação, quando as possibilidades daquela época recriam alternativas que auxiliem em uma persecução.

De toda forma, o quarto que permanece fechado é a raiz do subgênero da literatura policial, quando cria possibilidades.

Em um intuito de desvendar um crime em um ambiente similar, com o cadáver cravado de uma faca em suas costas, o mistério de como ocorreu acontecido torna o ambiente policial menos drástico na literatura, uma vez que a arte e a imponência da investigação sugerem atos estimulantes e intrigantes.

De fato, assim o é o ambiente investigativo das obras ficcionais, todavia, um disparate com a vida real.

Por certo, maior parte de obras nesse contexto foram escritas em países como Estados Unidos ou Inglaterra, onde os procedimentos investigativos tornam o ar mais romantizado na perspectiva do autor.

Por outro lado, críticos da área apontam a literatura do crime impossível como um mero desleixo social, trazendo apenas contextos que envolvam a classe alta, em um quarto de luxo, trancado e dentro um corpo de alguém que mereça investigação. Esses críticos chamam o estilo de escrita como “mistério aconchegante”.

Numa crítica social entende-se que existem crimes que precisam ser solucionados, por razão motivada pela identidade da vítima, rica e influente, e outros que podem esperar ou que nunca serão solucionados, poia a vítima não é importante ou não causa frisson no mundo dos fatos.

Ainda assim, com críticas ou não, a literatura do crime impossível ou do quarto fechado é vasta e vem ganhando leitores adeptos desde as épocas em que Alfred Hitchcock levou aos cinemas mistérios que antes somente por Poe ou Conan Doyle poderiam ser levados ao público, porem por intermédio da escrita. Com o atrativo do cinema, mais adeptos para o mundo literário dos romances policiais de mistério surgiram.

Mas foi com Stephen King que muitos casos de crimes impossíveis sobrevieram, envolvendo magia e outros componentes que diversificavam a investigação policial, lidando com possibilidades além de sua compreensão.

É certo que a literatura de investigação policial é um nicho ainda a ser explorado pela quantidade de probabilidades e pela eventualidade essencial das histórias contadas. Sempre há uma motivação e há sempre novas possibilidades ainda mais com a globalização de uma tecnologia que só cresce e se estimula, auxiliando as investigações.

Mesmo assim, com toda a facilidade que trazem os aparatos tecnológicos ao dia de hoje, há a necessidade do investigador Sherlock Holmes, aquele que sente, confia em seu sentido, mas não trai os fatos, que se utiliza de sua inteligência para chegar aonde somente o assassino chegou, e assim, desvendar o caso.


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Autor

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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