• 13 de dezembro de 2019

Dança com Lobos: a aniquilação ou a convivência com o outro?

 Dança com Lobos: a aniquilação ou a convivência com o outro?

Dança com Lobos: a aniquilação ou a convivência com o outro?

Já dizia o Huno Atila que onde seus “cavalos pisarem jamais nascera grama”. O Flagelo de Deus, como ficou conhecido o conquistador, não economizava em sua propensão para a destruição das cidades que tomava. O legado cultural remanescente poderia se voltar contra o império que se formava, criando e ensejando possibilidades, entre elas, a de libertação.

Conquistadores e ditadores historicamente prezavam a destruição do dominado, em todas as suas formas possíveis. Entendendo a impossibilidade desse feito, por diversas possibilidades entre elas, a fuga para lugares mais remotos, aniquilar a cultura e o elo que estrutura as ligações entre pessoas num mesmo convívio social eram primordiais.

Espanhóis, portugueses, ingleses, na América que se abria ao mundo, encadeavam o sentido de autoridade pelo extermínio da cultura e da própria presença do “inimigo”, assim intitulado como o incivilizado, sem alma, o golem aniquilador do normal criado e concebido pelo próprio dominador.

Esse inimigo deveria ser ingerido de forma a não mais existir, caçado e devorado, para que seus restos nunca mais possam ser denominados.

A concepção da destruição é clara: temer o outro não é fraqueza, é força e domínio.

O poder do dominador é sua civilidade, seu conhecimento que se sobrepõe ao bárbaro ilegítimo, às criaturas bestiais que atrasam o desenvolvimento.

Sofismas surgem como forma de alterar a própria percepção do dominador; leis são criadas para que possam estruturar aquilo que não pode ser concebido sem a assinatura da virtude de uma fé pública: se está escrito então é valido. Não mais é matar; mas sim, higienizar a terra boa, excluir dela aqueles impuros que espalham doenças e transitam entre os demônios.

Dança com lobos, de 1990, com direção e sensacional interpretação de Kevin Costner, incita pensar no passado.

Como raças tão diferentes, seres tão distantes, poderiam conviver?

A resposta a esta questão é confirmada pela escravização secular que dominadores impõe aos submetidos, e, a quebrar o ímpeto dessas pessoas” desculturando-as”, aniquilando as informações e as relações tradicionais que as mantêm unidas.

Em Dança com lobos o caçador, ininterrupto soldado dia a dia, inicia uma saga de pensamentos e sentimentos.

O choque entre as culturas envolve sua percepção, aquilo que antes era imaginário tornou-se subitamente real, o que se via por olhos doutrinados pela civilização branca agora transformava o soldado em vivente de uma particularidade essencial: andar os mesmos passos daqueles considerados monstros.

Enquanto rumava o exército para a aniquilação do povo Sioux, ao mesmo tempo em que enfrentava o inicio de uma Guerra Civil em suas civilizadas fronteiras, o tenente John Dunbar queria apenas conhecer o território.

Ao deparar-se com seus novos vizinhos, a interação iniciou um processo de aprendizado e troca de mercadorias que não se podem ser desdenhadas: o conhecimento e a aceitação.

Dança com lobos é um clássico. Escrito por Michael Lennox Blake e adaptado ao cinema por Costner, redefiniu a visão dos campos antes vistos pelo olhar romântico dos aventureiros desbravadores do país, mas com um amalgama especial que se define pelo encontro de duas grandes culturas, antagônicas em todos os nuances, mas que resolvem aprender mutuamente o que cada um tem a ensinar.

Todavia, como Atila, o exército americano chegou. Derrubando árvores e maculando as planícies, espantando a vida e comemorando sua vitória.

Os Sioux, ou Dakotas, enfrentaram a dominação até meados de 1900, quando foram dizimados quase que totalmente. Ainda hoje, descendentes sobrevivem em pequenas reservas, comerciando produtos de sua pequena agricultura familiar e objetos feitos pelas próprias mãos, resquício de uma cultura que arduamente permanece.


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Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.