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David Berkowitz, o Filho de Sam

David Berkowitz

David Berkowitz, o Filho de Sam

Eu perdi a capacidade de amar, de ter compaixão. Tornei-me um animal. – David Berkowitz

A PERSONALIDADE

David Berkowitz nasceu em 1º de junho de 1953, em Nova Iorque, Estados Unidos da América, sendo adotado com apenas três dias de vida pelo casal Pearl e Nathan Berkowitz. Mesmo com todo o amor de sua família adotiva, atravessou uma infância repleta de problemas.

Rejeitava seus pais (principalmente sua mãe adotiva, com quem tinha uma péssima relação), odiava a escola que frequentava, possuía complexo de inferioridade e carregava consigo um sentimento de culpa, pois foi informado que sua mãe biológica havia morrido durante seu parto.

Aos 10 anos de idade, após apresentar comportamento introspectivo e dificuldades nas relações interpessoais, sua mãe, preocupada, o levou pela primeira vez para ser atendido por um psicólogo. 

Ainda nessa época fez sua primeira “vítima”, quando matou o pássaro de estimação de sua mãe, após alimentá-lo com sabão em pó durante algumas semanas.

No fim de sua infância deu início ao hábito que lhe acompanharia por muito tempo: andar sozinho durante a noite pelas ruas de Nova Iorque. Descia pela escada de incêndio instalada no prédio onde morava, no Brooklyn, e vagava pelas ruas como um “gato vadio”, em suas próprias palavras.

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David Berkowitz em sua infância

Durante a adolescência de David, Pearl Berkowitz lutava contra um câncer de mama, mas seu estado de saúde era crítico. Após a morte de sua mãe, David se mudou com seu pai para um condomínio no Bronx.

Como passatempo, provocava incêndios pelas redondezas, porém a autoria desses delitos nunca foi identificada, e assim David jamais foi responsabilizado por tais atos.

Em 1971, a relação com seu pai (que se casou pela segunda vez) se tornou ainda mais difícil. Nathan Berkowitz se mudou para a Flórida após o casamento, deixando seu filho sozinho em Nova Iorque, com dezoito anos de idade.

David Berkowitz realizou o alistamento militar, mas, ao contrário do que esperava, não foi enviado ao Vietnã, e sim à Coréia do Sul, onde recebeu treinamento, aprendeu a manusear o rifle M16 e teve sua primeira experiência sexual, com uma prostituta coreana.

Durante o serviço militar, enviou cartas à Flórida, pedindo desculpas ao seu pai por seu comportamento desde a infância, e pedindo que esquecesse que havia tido um filho.

Após retornar aos Estados Unidos, em 1973, foi transferido para Fort Knox, em Kentucky, onde se converteu à Igreja Batista. Em 1974 foi desligado do exército, e assim voltou para Nova Iorque, onde nunca mais frequentou a Igreja.

Aos 21 anos, David vivia sozinho em uma das cidades mais populosas do mundo. Começou a trabalhar como segurança em um depósito nas docas de Manhattan, e durante seu tempo livre se dedicava a investigar a identidade de seus pais biológicos.

Após incansáveis buscas, soube que sua mãe biológica ainda estava viva. Quando se conheceram, Elizabeth Broder se desculpou por tê-lo abandonado, e revelou que David era filho de Joseph Klineman, empresário judeu que já era casado e possuía filhos à época do relacionamento.

Elizabeth primeiramente havia sido casada com Tony Falco, com quem teve uma filha, Roslyn Falco. Após o fim do relacionamento, Elizabeth conheceu Joseph Klineman, com quem teve David Berkowitz.

Por ser fruto de um relacionamento extraconjugal, não foi assumido por seu verdadeiro pai, sendo registrado como Richard David Falco (sobrenome de seu ex-marido) e posteriormente entregue à adoção.

O encontro familiar não foi como ele esperava. Manteve contato com sua irmã por algum tempo, mas logo as visitas diminuíram até que resolveu cortar qualquer tipo de relação. Segundo o próprio David:

A vontade de matar minha família natural crescia demais. Lutei muito para que essa vontade não se transformasse em ação, por isso me afastei deles.

Totalmente frustrado e solitário, David ingressou em um culto satânico, dando início a um período de terror até então jamais visto.

AS VÍTIMAS

Na véspera do Natal de 1975, perto do condomínio onde morou, portando uma faca de caça, atacou duas jovens que transitavam pelo local. A primeira vítima nunca foi confirmada ou identificada. A segunda foi a adolescente Michelle Forman, que após o ataque precisou ser hospitalizada, mas conseguiu sobreviver.

David concluiu rapidamente que aquele modus operandi não era o ideal para alcançar seus objetivos, voltando sua atenção às armas de fogo e se mudando do Bronx para o Yonkers.

De 1976 a 1977 trabalhou em diversos empregos, como motorista de táxi e operário da construção civil, até que se firmou como carteiro plantonista noturno, no Bronx.

Durante uma viagem a Houston, no estado do Texas, para visitar um amigo da época do exército, comprou um revólver Bulldog calibre .44, com o qual cometeria diversos homicídios. David dirigia pelas ruas da cidade no período noturno para traçar trajetos, rotas de fuga e planejar seus crimes. Futuramente em uma carta, David revelou:

Eu estava determinado. Tinha que trucidar uma mulher para me vingar de todos os sofrimentos que elas me causaram.

Em 29 de julho de 1976, as jovens Jody Valenti e Donna Lauria conversavam durante a madrugada dentro de um carro no Bronx. David estacionou seu Ford Galaxie a dois quarteirões de distância, se aproximou, sacou sua arma que estava em um saco de papel e efetuou os disparos que resultaram na morte de Donna. Jody sobreviveu com uma bala em sua coxa e posteriormente forneceu à polícia uma descrição do assassino.

Depois disso, David passou a rondar bairros localizados próximos a rodovias (o que poderia facilitar suas fugas), e em 23 de outubro de 1976, no Queens, durante a madrugada, disparou contra Carl Denaro, que estava dentro de um carro com sua amiga Rosemary Keenan. Carl foi atingido na cabeça, mas sobreviveu, tendo que implantar uma placa de metal em seu crânio, enquanto Rosemary se feriu superficialmente pelos estilhaços.

Em 27 de novembro de 1976, Joanne Lomino conversava com sua amiga Donna DeMasi, em frente à sua residência, quando foram atingidas pelos disparos do revólver Charter Arms Bulldog .44. Ambas sobreviveram, mas Lomino ficou paraplégica.

Já em 1977, na noite de 30 de janeiro, Christine Freund e John Diel estavam no carro de Diel quando três projéteis foram disparados em direção ao casal. John sofreu apenas ferimentos superficiais, mas Christine foi atingida e faleceu poucas horas depois.

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As vítimas de David Berkowitz

A partir desse crime, a polícia começou a perceber que alguns homicídios ocorridos na cidade haviam sido praticados com um revólver calibre .44. Até aquele momento, não havia a suspeita de uma relação entre os crimes supracitados.

Em 8 de março de 1977, Virginia Voskerichian caminhava em direção à sua casa, quando David atirou em sua cabeça, causando instantaneamente sua morte. O resultado de um exame de balística comprovou que a bala da cabeça de Virginia combinava com a bala que matou Donna Lauria no ano anterior.

No dia seguinte a morte de Virginia, a polícia local formou uma força-tarefa com o intuito de investigar os crimes e descobrir quem era o serial killer que a essa altura já era conhecido pela polícia e pela imprensa como o Assassino do Calibre .44.

As testemunhas sobreviventes forneciam retratos falados, mas os retratos eram totalmente diferentes uns dos outros. Valentina Suriani e Alexander Esau foram as vítimas de David na madrugada de 17 de abril de 1977.

Ambos foram mortos com dois tiros cada. Berkowitz deixou na cena do crime uma carta endereçada ao chefe da polícia Joseph Borrelli. A carta consistia em duas folhas, onde David dizia dentre outras coisas:

Fico magoado quando dizem que odeio as mulheres. É mentira! Mas eu sou um monstro, eu sou o Filho de Sam!

Ainda em abril de 1977, David Berkowitz também enviou uma carta a seu vizinho Sam Carr, o ameaçando, caso não silenciasse seu cão, que tanto o incomodava.

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O Filho de Sam costumava escrever cartas direcionadas aos policiais, desejando sucesso nas investigações

Durante o verão mais quente da historia de Nova Iorque, as pessoas se trancavam em casa durante a noite, graças ao pânico instalado na cidade. Esse período é conhecido até hoje como o Verão de Sam. A polícia expandiu a força-tarefa, contando agora com mais de 300 agentes.

Era a maior caçada humana da história da polícia de Nova Iorque até então.

Devido a semelhança das vítimas (quase todas as vítimas era mulheres jovens com cabelos escuros), as mulheres passaram a usar perucas loiras ou a cortar e tingir seus cabelos, para escapar da mira do serial killer.

Em 26 de junho, Judy Placido e Salvatore Lupo conversavam no carro, quando três disparos atingiram a lataria do veículo. Salvatore foi antigido no braço, enquanto dois projéteis atingiram a coluna de Judy e um projétil atingiu sua têmpora, porém os jovens sobreviveram.

Na noite de 31 de julho, Stacy Moskowitz e Robert Violant foram as últimas vítimas do Filho de Sam. Estavam dentro de um estacionamento quando ambos foram atingidos em suas cabeças. Robert perdeu um olho e teve a visão do outro seriamente comprometida. Stacy faleceu 39 horas após o ataque.

Uma testemunha informou que viu um homem próximo ao local do ataque, e que seu carro havia sido multado por estacionar em local proibido. Rastreando a placa multada, as investigações levaram ao veículo Ford Galaxie, de propriedade de David Berkowitz.

Suas cartas o denunciaram. Sam Carr levou à delegacia a carta de um vizinho que o ameaçou. Os detetives verificaram a semelhança ente a carta endereçada a Sam Carr e a carta deixada na cena de um dos crimes, endereçada ao Chefe de Polícia Joseph Borrelli.

Após aguardarem quase seis horas ao redor de seu prédio, policiais realizaram a abordagem quando David entrou em seu carro carregando seu inseparável revólver calibre .44 em um saco de papel. Berkowitz não resistiu à prisão, dizendo no momento da abordagem que ele era o Filho de Sam.

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O Filho de Sam é capturado pelas autoridades policiais

O JULGAMENTO

Após sua prisão, David Berkowitz não parava de sorrir. Confessou o cometimento dos crimes revelando detalhes de todos eles. Também confessou que naquela noite havia planejado entrar em uma discoteca e atirar em diversas pessoas.

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Após sua prisão, David Berkowitz não parava de sorrir

Explicou que escolheu o nome de O Filho de Sam, pois o próprio demônio se comunicava com ele através do cão de estimação de Sam Carr, afirmando assim que todas as mortes ocorreram através de ordens do Labrador Retriever de seu vizinho.

Sam fez isso. Ele me fez agir assim. Eu fiz por ele, por sangue.

Após avaliações, dois psiquiatras afirmaram que ele era inapto para ser julgado, mas um terceiro especialista concluiu que ele não possuía problemas mentais que o impediriam de responder por seus atos, e assim o Filho de Sam foi a julgamento.

Um dos detetives exibindo a arma dos crimes (revólver calibre .44)

Um dos detetives exibindo a arma dos crimes (revólver calibre .44)

Ignorando as orientações de seu advogado, se declarou culpado de todos os fatos a ele imputados, além de pedir ao juiz para que fosse sentenciado à prisão perpetua, para que assim nunca mais pudesse matar. Desse modo, foi sentenciado a 365 anos de prisão em 13 de junho de 1978.

A PRISÃO

Em fevereiro de 1979, durante uma entrevista na prisão, David assumiu que inventou toda a história do cão que lhe dava ordens, afirmando que jamais havia ouvido vozes e que não era louco. No mesmo ano sofreu uma tentativa de homicídio dentro da penitenciária, mas se recusou a revelar quem havia tentando lhe tirar a vida.

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Em 1979, durante uma entrevista na prisão, David assumiu que inventou toda a história do cão

Apenas em 1993, após quinze anos de comportamento exemplar no cárcere, durante outra entrevista, David revelou que o culto satânico em que havia ingressado o obrigou a praticar todos os delitos. Mudando sua versão dos fatos, contou que havia tirado a vida de apenas três pessoas, e que todos os outros crimes haviam sido praticados por outros membros do culto.

Afirmou ainda que confessou a autoria de todos os crimes em seu julgamento para poder sair do culto satânico e se proteger dos outros membros. Ainda na década de 80, Berkowitz se transformou em um cristão fundamentalista e sua conversão gerou grande repercussão.

David Berkowitz publicou em 2006 seu livro “O Filho da Esperança”, dando segmento ao trabalho que realiza na prisão, de orientação espiritual aos detentos.

A publicação de seu livro reacendeu a discussão sobre a capitalização proporcionada pela venda das histórias de delitos por parte dos criminosos, o que resultou na criação de leis que autorizam o estado a apreender todo o dinheiro resultante de tal negócio e o reverter às famílias das vítimas.

Berkowitz rejeitou por três vezes (em 2002, 2004 e 2006) a possibilidade de obter liberdade condicional, afirmando que se mantêm extremamente ocupado com suas atividades na prisão, onde também presta serviços na capela do complexo penitenciário e no bloco de saúde mental.

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David rejeitou três vezes a possibilidade de obter liberdade condicional

Hoje afirma que esteve sob o domínio do demônio por toda a vida, mas apenas na prisão, quando descobriu Jesus Cristo é que pôde se libertar.

Autor

Advogado (MG)
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