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Deep Web: o submundo do crime

Por Marcelo Crespo

Você pensa que conhece a World Wide Web, mas o conteúdo normalmente acessado pelas pessoas, tal como o das redes sociais (Facebook, Twitter, etc.) e dos demais sites como a Amazon ou do Canal Ciências Criminais, representam apenas um pequeno pedaço da sua superfície (conhecida como Surface Web). Há um mundo enorme e pouco explorado pela maioria: a Deep Web (também conhecida como Dark, Hidden e Invisible Web), que pode significar, em termos de conteúdo, algo 500 vezes maior do que geralmente acessamos. Não à toa, comumente a ilustração sobre a Surface/Deep Web é a de um iceberg.

Para explicar a Deep Web são necessários alguns breves esclarecimentos. Vamos a eles.

Por muitas vezes nos utilizamos indistintamente das expressões “Internet” e “World Wide Web” (ou somente “Web”) para designar o acesso à rede mundial de computadores. No entanto, são palavras com significados distintos na medida em que a Internet é infraestrutura de redes, servidores e canais de comunicação que conecta os dispositivos informáticos pelo mundo, constituindo, portanto, a parte física e, por seu turno, a Word Wide Web é a parte virtual do acesso, ou seja, a Web acontece quando se navega entre as páginas (websites).

Sob a ótica do internauta o acesso à Web começa em nossos computadores, tablets, celulares e etc. Toda vez que desejamos acessar uma página (site), digitamos um endereço no navegador que passa pela rede, chegando a um roteador e, de lá, é enviado (por satélites ou fibra óptica) até os servidores (computadores capazes de realizar uma infinidade de tarefas ao mesmo tempo) da companhia que nos provê acesso à Internet (Vivo, Oi, GVT, Net, etc.). É a partir desse momento que o endereço digitado é utilizado para encontrar uma página.

Os endereços dentro da Internet têm algo de similar com os da vida real, sendo que cada página tem uma localização único no mundo, que é formada por um conjunto de números. Ocorre que é muito mais fácil para as pessoas decorarem nomes do que números. Por isso digitamos, por exemplo, www.canalcienciascriminais.com.br que, depois, é convertido para a forma de número por um sistema chamado DNS (Domain Name System – Sistema de Nomes de Domínios) e se transforma em algo como 177.12.172.111. Esses números formam o Internet Protocol, vulgarmente chamado de IP, que é o responsável por mostrar o caminho que os dados precisam percorrer até o acesso ao sítio desejado. Além disso, cada página na Web é indexada com palavras que facilitem que seja encontrada pelos buscadores (Google, Yahoo, Bing, etc.).

Já na Deep Web as coisas são um tanto distintas. Ela não pode ser acessada por um navegador padrão como o Google Chrome, o Internet Explorer ou o Safari já que ela não utiliza o DNS (Domain Name System – Sistema de Nomes de Domínios). Além disso, as páginas não são indexadas com palavras já que não serão alvo dos buscadores. Então, para encontrar algo na Deep Web é necessário conhecer o endereço exato da máquina cujo acesso se pretende ter.

Uma das formas mais comuns de se navegar em parte da Deep Web é com a utilização de um aplicativo especial, o TOR (The Onion Router), que é uma rede de túneis virtuais que dificulta e embaralha a identificação dos equipamentos ao acessarem determinado conteúdo. O TOR dificulta o rastreamento mas, ao contrário do que alguns dizem, não garante a inviolabilidade dos dados nem a identidade da máquina porque não é criptografado. Além disso, uma análise de tráfego seria capaz de revelar muitas informações sobre o que uma pessoa faz na Deep Web vez que são monitoráveis a origem, o destino, o tamanho e o tempo dos dados transmitidos e, assim, se poderia inferir quem está falando com quem.

Mas o TOR não é a única forma de acesso às profundezas da Web, havendo opções como o Morphmix / Tarzan, Mixminion / Mixmaster, JAP, MUTE / AntsP2P, Haystack.

Em síntese, a Deep Web é tudo o que está disponível em máquinas que não estão identificadas pelo DNS nem pelos motores de busca.

Como em qualquer lugar, na Deep Web acontecem coisas boas e ruins, sendo que a preocupação das autoridades é o fato de não terem controle sobre isso em razão da maior dificuldade de identificação dos que por lá navegam. E, evidentemente, há muita coisa bizarra e criminosa em suas profundezas.

Dentre as bizarrices presentes na Deep Web há, por exemplo, bonecas sexuais humanas (geralmente são crianças compradas de famílias miseráveis pelos Doll Makers e, acredita-se que são levadas à centros cirúrgicos clandestinos e transformadas em bonecas vivas que não apresentem resistência às perversões sexuais dos seus donos. Assim, seus membros são amputados e substituídos por próteses. Além disso, os dentes e as cordas vocais são retirados. Extremamente bizarro, criminoso e perturbador); conteúdo pornográfico infantil; anúncios de Hitman, (assassinos de aluguel); snuff Videos (vídeos com mortes reais); vídeos com experimentos científicos realizados em humanos; fóruns sobre canibalismo (muitos descobertos após o caso do “Canibal de Rotemburgo”); comércio de drogas (o mais famoso era o Silk Road, descoberto pelo FBI em 2013) e tutoriais para hacking e criação/disseminação de vírus entre vários outros.

Registre-se que a Deep Web não é apenas e tão somente um espaço para a prática de crimes e apresentação de imagens e vídeos repugnantes, embora haja muito disso por lá. A grande questão é como investigar nas profundezas da Web e combater a criminalidade que, lá praticada, tem maiores chances de se manter na clandestinidade. O tempo dirá.

_Colunistas-MarceloCrespo

Autor

Marcelo Crespo

Advogado (SP) e Professor
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